A assombração da Rússia

Artigo publicado no Correio Braziliense de 29 outubro 2025

José Horta Manzano

Todo país com pretensões ao status de potência global tem de seguir o receituário tradicional, do qual não é possível escapar.

Em primeiro lugar, é preciso ter uma superfície que lhe garanta massa crítica. Se, ao longo da história, países de território pouco imponente chegaram a se impor em campanhas bélicas, a série de vitórias não sobreviveu à escassez de alimentos e matérias primas decorrente da falta de châo.

Em seguida, o candidato a potência tem de investir na indústria bélica. É o que sempre fizeram países tradicionalmente poderosos, e é o que tentam fazer candidatos prejudicados pela pouca extensão territorial, como a Coreia do Norte e o Irã.

Em terceiro lugar, toda potência mundial que se preze tem de contar com população importante. Veja-se o caso da China, cuja população, após décadas de “política do filho único”, decidiu adotar política natalista. Países que miram ao status de potência global não podem se permitir conviver com decréscimo populacional.

A Rússia de Vladimir Putin, herdeira da grande, forte e temida União Soviética, vem empenhando todas as forças na recuperação do prestígio de antanho. De fato, o desmonte da URSS, no início da década de 1990, deu lugar a anos conturbados, durante os quais saltaram à vista as enormes dificuldades que a competição forçada com o Ocidente havia provocado no país.

Em seu reinado, que já dura um quarto de século, Putin se propôs dois objetivos primordiais: 1) permanecer no poder e 2) restabelecer a grandeza do antigo império russo. O boné MAGA de Trump, uma vez transliterado, cairia bem como mote putiniano para a Rússia de hoje, algo como Make Russia Great Again.

Se tivesse vislumbrado o desastre que a campanha da Ucrânia estava por ocasionar, Putin talvez tivesse deixado a ideia de molho para momento mais propício. Na luta para recobrar o status de potência global, perdido há 35 anos, o ditador russo conta com dois aliados fiéis: a imensa superfície e o potencial bélico de seu país. Da área, não se discute, visto que se trata do maior país do mundo. Da indústria bélica, tampouco, visto o poder de dissuasão de seu arsenal nuclear.

Mas essa conta não fecha. Para complementá-la, um forte contingente populacional está faltando. Se a Rússia já assistia a um declínio de seu número de habitantes estas últimas décadas, a agressão contra a Ucrânia e a guerra que daí decorreu vêm agravando a crise. Um levantamento vazado do ministério russo da Defesa no começo do mês informa que, entre os combatentes, 280 mil perdas teriam sido registradas só nos primeiros nove meses deste ano. Note-se que os mortos são em geral homens jovens, na faixa dos 25 a 39 anos, idade em que se entra de pé firme na vida ativa de trabalho.

Sangria adicional está ocorrendo em outra camada da população, na classe média superior. Os homens em idade de ser recrutados fogem do país e emigram para países da vizinhança ou até para o sul da Ásia ou para a Europa. Algumas projeções estimam essa emigração a um milhão de cidadãos só nos primeiros dois anos da guerra.

Um cruel círculo vicioso está formado. Quanto mais tempo dura a guerra, maior será o fluxo emigratório e mais dramáticas serão as perdas humanas. Uma guerra de trincheiras, como essa, precisa de carne de canhão, o que tende a causar maior morticínio entre os conscritos e a encorajar a emigração. A seguirem as coisas como estão, não é tão já que Putin porá fim ao espectro do despovoamento de seu país.

A voluntariosa entrada de tanques de guerra russos em direção a Kiev nos primeiros dias da invasão botou medo em muita gente. Muitos imaginaram rever o grande exército vermelho, aquele que tinha fincado a bandeira da URSS no topo do Reichstag, em Berlim, em 1945. No entanto, contrariando todos os prognósticos, os corajosos ucranianos conseguiram a proeza de repelir os tanques e salvar a capital de seu país.

A força bélica da Rússia reside em seu arsenal de mísseis e de ogivas. A imagem que se tem das tropas de solo saiu meio arranhada depois da campanha (e da retirada) de Kiev.

O melhor impulso que Putin poderia dar a seus sonhos de grandeza seria decretar já o fim das hostilidades, equipar e treinar melhor seus soldados e adotar uma política de abertura do país à imigração. Sem essas medidas, sua quimera de reaver a grande Rússia estará cada dia mais distante da realidade.

Falta espaço

José Horta Manzano

Quem já teve ocasião de chegar a Londres de avião deve ter reparado ― se o tempo estava claro e sem névoa, coisa rara por aquelas bandas ― que a metrópole britânica é composta de casinhas baixas, cada uma com seu jardinzinho e muitas com quintal.

Como é possível que uma aglomeração de mais de 12 milhões de almas possa se dar ao luxo de ter aquela multidão de casinhas, cada uma com seu terreno, sua grama e suas flores? É ainda mais intrigante se pensarmos que o Reino Unido, com uma superfície comparável à do Estado de São Paulo, abriga 60 milhões de habitantes.

E a Europa, então, com seus 750 milhões de viventes? Deveria ter a aparência de um formigueiro, mas não tem. Qual é o segredo?

Aglomeração urbana em pouco espaço

Aglomeração urbana em pouco espaço

Uma dispersão populacional lenta, como a Europa conheceu ao longo dos últimos dois milênios, favorece o estabelecimento dos habitantes de maneira pouco concentrada, mais equilibrada. Já o povoamento rápido que caracterizou o Brasil no século XX privilegiou o inchaço de aglomerações.

Entre 1900 e os dias atuais, a população europeia não chegou a dobrar ― seu aumento foi de 76%. No mesmo período, a população do Brasil mais que decuplicou, num aumento superior a 1000%. As cidades oferecem melhores perspectivas que o campo. É compreensível que os numerosos novos habitantes de nosso País, imigrantes ou nascidos na terra, tenham preferido aglomerar-se em meio urbano.

A enorme procura por espaço para morar, aliada à precariedade dos transportes, faz que o preço da terra suba às alturas. O resultado é que os terrenos oferecidos têm superfície ridiculamente exígua. Casas e prédios são construídos praticamente colados uns aos outros, dando esse aspecto apinhado, que lembra vagamente a China ou a Índia.

Nosso País é palco de contrastes difíceis de explicar a olhos estrangeiros. Latifúndios de milhares de hectares se estendem pelo interior das terras, vazios, sem um casebre para contar a história. Pode-se percorrer quilômetros sem encontrar vivalma. Os brasileiros se amontoam em aglomerações ultradensas, dentro de perímetros minguados, fato que contribui para estimular comportamentos agressivos e suas nefastas consequências.

Não só as pessoas vivem empilhadas, mas também as plantas, como nos mostra artigo publicado no Correio Braziliense.

Plantas em pirâmide Crédito: Correio Braziliense

Plantas em pirâmide
Crédito: Correio Braziliense

Alguns até podem encontrar uma certa beleza plástica nesse estado de coisas, mas não passa de estética. No fundo, o bom mesmo é viver em sua casinha, com seu jardinzinho, sem vizinho em cima, sem vizinho embaixo, com espaço para abrir os braços.

Infelizmente, a persistir o estado calamitoso do transporte público nas aglomerações brasileiras, a casinha com terreno generoso ainda é um sonho longínquo.