Trump, Bolsonaro e a reeleição

José Horta Manzano

A não-reeleição de Donald Trump, confirmada oficialmente ontem, há de estar acendendo luz vermelha no Planalto. De um vermelho vivíssimo.

Trump – todo-poderoso, carisma irresistível, voz de trovão, teatralidade convincente – é capaz do melhor e do pior. É daquele tipo de mascate capaz de vender gato por lebre e arrancar aplauso do comprador agradecido. Mas em meados deste ano ousou passar a mão num carregamento de respiradores que o ‘amigo’ Bolsonaro havia comprado na China e que transitavam pelos EUA.

Se esse homem – dono de todos esses atributos, dono da caneta mais poderosa do planeta, senhor da guerra e da paz, responsável pelo maior orçamento do globo – conseguiu a façanha de ser derrotado, como é que se pode enxergar o futuro do pequeno Bolsonaro? Antigamente, se dizia que estava preto. Na era do ‘politicamente correto’, convém dizer que está ruço.

O atual inquilino do Planalto não tem os atributos do ídolo, nem seu poder, sua força, sua riqueza. Não tem um corpo de assessores de alto nível. Não está apoiado num partido tradicional e organizado como Trump estava. Como então imaginar que, desprovido das armas necessárias, possa vencer a batalha da reeleição? (Posto que se segure na Presidência até lá, naturalmente.)

by Kleber Sales, ilustrador.

Bola de cristal, não tenho. Além do que, faltam dois anos para a eleição presidencial. Assim mesmo, sob reserva de acontecimento excepcional, a reeleição de nosso doutor parece causa perdida.

Sua personalidade pontuda, excludente e clivante não lhe valeu nenhum simpatizante além dos que tinha ao ser eleito. Pelo contrário, aqueles que votaram nele unicamente para se livrarem do PT devem estar dobrando a língua e se autoflagelando em penitência: nunca mais darão seu voto ao capitão.

Aos poucos, vai-se delineando um quadro semelhante ao de 2018. O eleitorado vai se fraturar em dois campos bem nítidos. No primeiro, estarão os bolsonaristas, que votarão no doutor porque gostam dele e estão felizes com seu desempenho. Do outro, estarão os demais, os eleitores dispostos a votar em quem quer que seja, desde que Bolsonaro seja derrotado.

Num primeiro turno, o voto antibolsonarista ainda pode se dispersar, mas no segundo, não tem perdão. São só dois candidatos. Não vejo como o doutor poderá ser reeleito, seja quem for o adversário. Ou será que Bolsonaro é mais talentoso que Trump?

Aposta errada

Ruy Castro (*)

As forças que, há um ano, se juntaram para apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência devem estar se perguntando hoje se não teria sido melhor ficar com a primeira opção, o cabo Daciolo. Na época, ainda longe da largada, Bolsonaro e Daciolo, cada qual em seu box, pareciam focinho com focinho nas preferências. Ambos preenchiam os requisitos: eram carismáticos, primários e quase medievais.

A ideia era a de que qualquer um deles, se eleito, faria uma simpática figuração no Planalto enquanto o país seria gerido pelos profissionais – os quais, depois de milhares de reuniões-hora em suas instituições, já tinham tudo esquematizado: abertura, reformas, volta da economia. Ao presidente, caberia uma agenda que o manteria ocupado e à distância da única arma perigosa ao seu alcance: a caneta.

Mas, já na campanha, Daciolo começou a assustar os apoiadores. Em vez de prometer salvar o Brasil, fazia de cada 15 segundos na TV uma versão pocket do Sermão da Montanha. Sua voz, amplificada por anos de salmos em quartéis de bombeiros, era “assertiva” demais. E, pela frequência com que dava Glória ao Senhor Jesus, era como se tivesse o WhatsApp do homem e somente a Ele daria satisfações no mandato.

Os apoiadores voltaram-se então para Bolsonaro, com seu jeito de matuto simplório. No poder – pensaram –, enquanto ele brincasse de capitão dando ordens a generais, eles tratariam do país.

Bem, Bolsonaro foi eleito e fez o que eles não esperavam: resolveu usar a caneta. Diz os maiores absurdos, toma decisões irresponsáveis, provoca incêndios que o próprio governo tem de apagar, quer acabar com a educação e o ambiente, tem três filhos dementes e se deixa guiar por um esperto que está vivendo algo nunca sequer sonhado: dirigir o país por controle remoto. Resultado: erraram feio. Daciolo talvez fosse melhor – mesmo com Jesus Cristo como vice.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Caminho traçado

José Horta Manzano

Fascismo 4Lúcida e interessante é a visão do escritor boliviano Juan Claudio Lechín(*) sobre as diferenças entre ditadura e fascismo. Seu livro Las máscaras del fascismo, publicado em 2011 por Plural Editores (La Paz, Bolivia), corajoso e didático, põe o dedo na ferida. O livro traz subtítulo sugestivo: Castro, Chávez, Morales, um ensaio comparativo.

Um decálogo (dodecálogo seria melhor dito) elenca as principais características do perfeito caudilho fascista.

Interligne vertical 11c1. O caudilho fascista é messiânico, carismático e de origem plebeia.

2. Os braços do caudilho são o partido e a tropa de choque, seja paramilitar, seja militar ― com forte componente de aventureiros descompromissados e de delinquentes.

3. A língua do caudilho: a propaganda política.

4. A fé do caudilho: uma fantasiosa promessa política redentora.

5. O ouvido do caudilho: serviços de inteligência repressiva, espiões e delatores.

6. O caudilho toma carona na refundação da pátria e/ou na mudança do nome; na reforma constitucional e/ou na modificação da constituição e em novos símbolos do Estado.

7. O caudilho dedica-se a destruir atos eminentemente liberais ― valores e instituições.

8. O caudilho é antiliberal e antiamericano.

9. O caudilho transforma em igualdades políticas os seguintes conceitos: caudilho = partido = Estado = nação = pátria = povo = história épica.

10. O adeptos do caudilho: adesão popular militante. Retorno à servidão.

11. A perpetuação do caudilho no poder: governo vitalício, com ou sem eleições. Monarquia plebeia.

12. Valores medievais: coragem militar, arrojo, prestígio de morrer combatendo, valores marcadamente viris (machistas), senhoriais e homofóbicos. Inflamar a militância com inflamados discursos de confrontação, lutar por um ideal santo, contra o herege irreconciliável.

Com base nas características elencadas, o autor não reconhece o chileno Augusto Pinochet nem o argentino Jorge Rafael Videla como fascistas, apesar de seus crimes. Comandaram ditaduras, mas não fascismos.

A essência do pensamento de Lechín está resumida nestas poucas linhas:

Fascismo 3«El fascismo es un modelo pragmático para la toma absoluta del poder por parte de un caudillo mesiánico, por medio de la seducción o el crimen, las urnas o los fusiles, el discurso o el golpe, la nacionalización o la privatización y cualquier otro instrumento eficaz para el objetivo absolutista. En este concepto se inscriben todos los caudillos, cada uno ciertamente impulsado o frenado por las características de su propia realidad; de ahí que muestren diferentes desempeños aunque subyazca la misma naturaleza.»

Traduzindo, fica assim:

«O fascismo é modelo pragmático para a conquista absoluta do poder por parte de um caudilho messiânico por meio da sedução ou do crime, das urnas ou dos fusis, do discurso ou do golpe, da nacionalização ou da privatização, e de qualquer outro instrumento eficaz para alcançar o objetivo absolutista. Nesse espírito, inscrevem-se todos os caudilhos, cada um, por certo, estimulado ou freado pelas características de sua própria realidade. Eis por que, embora o modus operandi possa diferir, a mesma natureza esteja sempre latente.»

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Qualquer parecença com a realidade brasileira destes últimos anos pode não ser mera coincidência.

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(*) Juan Claudio Lechín Weise (1956-) é homem de letras e pensador boliviano, agraciado em 2004 com o Premio Nacional de Novela. Seus estudos começaram em seu próprio país e prosseguiram na Itália, no Peru, na Venezuela e nos Estados Unidos. Diplomado cum laude em Economia pela Universidade de Boston.