O general e o caviar

José Horta Manzano

O Globo informa que o general Braga Netto está detido na 1ª Divisão do Exército, na Vila Militar (Rio de Janeiro). Acrescenta que o preso tem à sua disposição uma suite individual (quarto com banheiro exclusivo), armário, geladeira e televisor.

Tem gente que, ao saber da notícia, se indignou, bateu o pé no chão, cuspiu pra cima, jogou sal pra trás do ombro. Como assim? Com os presos comuns amontoados em celas de 40 indivíduos, esse aí vive como num Palace Hotel?

Pois eu digo que o importante não são as condições de detenção do graduado. O principal é ele ter sido abatido em pleno voo, apesar de todas as estrelas que carrega no ombro e da soberbia que lhe acalenta a personalidade. Lembre-se que, em qualidade de grã-general, Braga Netto tem direito a mais regalias.

A qualquer momento, pode mandar um ordenança até a banca da esquina comprar os jornais do dia. E as notícias vão martelar-lhe no ouvido a revelação de obscuras transações ora expostas à execração do distinto público.

Não há de ter perdido tampouco a edição deste domingo do Fantástico, que lhe reservou um bloco. Com ou sem cara feia do interessado, o Brasil está sabendo do comportamento criminoso de que o general é acusado.

Tem ainda a vergonha diante de todos os residentes e frequentadores do enorme (e belo) edifício onde ele se encontra: todos têm permissão para sair à rua quando de folga, só ele não tem.

A razão é simples: ele está preso, ora veja só.

Em matéria de conforto carcerário, todo o mundo sabe que os chefões de máfias e facções, embora presos, levam vida de sultães. Caviar, foie gras e champanhe fazem parte do regime, iguarias que não costumam ser servidas com frequência à mesa dos oficiais da Vila Militar.

Não se perca fazendo continha de mesquinho. Lembre-se que o general está preso, fora de circulação, tolhido de seu direito de ir e vir. Está no xilindró.

Pra coroar uma carreira 4 estrelas, não há castigo pior.

O imperador do Japão

José Horta Manzano

Numerosos pontos ligam Bolsonaro e Lula, os dois principais concorrentes às presidenciais de outubro. Um ponto importante é o fato de ambos serem homens do passado.

Bolsonaro continua a viver com os pés fincados nos anos de chumbo que o Brasil viveu quando eram os militares que davam as cartas. Ele imagina ressuscitar a ditadura. Aliás, na sua cabeça, não é bem assim – a questão não é nem de reimplantar o sistema que vigorou no Brasil de 1964 a 1985.

De fato, por mais autoritário que fosse o regime daquela época, até que havia certa rotatividade no topo do Executivo. Do 31 de março até a eleição de Tancredo, cinco generais se sucederam no comando da nação.

Na cabeça de nosso aprendiz, não é assim que deve funcionar. Ele imagina ser guindado à cabeça de um regime sem rotatividade, sem alternância, sem mudança. Pretende permanecer no topo sozinho, como um Führer, um Duce, um Conducător, um Lider Máximo. Até a queda final, que pode ser por deposição ou coisa pior. Tudo que sobe acaba caindo um dia. Mas cada um se ilude como pode, não é mesmo?

Lula, nesse ponto, não pensa igualzinho a Bolsonaro. Por ter exercido a Presidência – pessoalmente ou por procuração – durante 14 anos, já perdeu as ilusões. Os quase 600 dias de cadeia lhe ensinaram que, quanto mais alto for o coqueiro, maior será o tombo. Sua parecença com Bolsonaro, em matéria de ligação com o passado, é forte, mas não se pode dizer que sejam idênticos.

Lula, que alguns dizem ser esperto como raposa, não quer (ou não consegue) entender que o mundo mudou. Não estamos mais nos anos 1970, em que ele subia numa caixa de sabão à frente da fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo, fazia um discurso inflamado para os companheiros, dizia o que lhe passava pela cabeça, e tudo ficava por isso mesmo. Ele ainda não se compenetrou de um fator inexistente à época mas fortíssimo hoje: o politicamente correto.

Nascido nos EUA anos atrás e potencializado por internet e redes sociais, a tendência a se exprimir de maneira politicamente correta impõe linguagem pasteurizada, isenta de palavras e expressões que possam, de perto ou de longe, ser consideradas ofensivas por esta ou aquela categoria de cidadãos.

Outro dia, Lula dircursou numa cerimônia de um partido chamado Solidariedade. (Abram-se parênteses: Este blogueiro acredita que todos os partidos deveriam se chamar Solidariedade. Afinal, ser solidário deveria ser a característica maior de todo afiliado. Fechem-se os parênteses) Lula sabe que muitos, neste país, acalentam o sonho de implantar o semipresidencialismo. No afã de demolir essa ideia que o horroriza, tirou do bolsinho uma metáfora infeliz. Referiu-se ao imperador do Japão de forma depreciativa.

Ato contínuo, uma torrente de críticas desabou. Deputados petistas se sentiram incomodados. Até (ou principalmente) a comunidade japonesa ressentiu-se da menção desairosa.

Sabe-se que história e geografia não são ocupam lugar preferencial nos parcos conhecimentos de nosso guia. Sabe-se que, apesar de ter passado 8 anos como presidente do país, outros assuntos devem ter lhe parecido mais interessantes – afinal, ler e estudar dá uma preguiça! História, geografia e geopolítica ficaram de fora.

Vai aqui um conselho ao Lula. Dificilmente ele lerá estas linhas, mas algum assessor bem-intencionado talvez possa transmitir-lhe a ideia.

Ô Lula! Da próxima vez que vosmicê quiser trazer a imagem de um homem poderosíssimo, use uma figura que não existe, mas que impressiona. Aqui estão algumas metáforas que não vão incomodar ninguém:

Ele age como se fosse o sultão de Samarcanda!

Ele pensa que é o imperador da Quirguízia!

Ele se acha o emir da Mongólia!

Deixo aqui a pista. Seus assessores certamente encontrarão outras variantes, que é pra não bater sempre na mesma tecla.

Aproveite, que conselho meu é grátis e desinteressado. Como dizia um irmão meu, “se é de graça, até injeção na veia”.

A raiva do sultão

José Horta Manzano

Decisão brusca ditada pelo humor ou pelo capricho de uma alta personalidade pode, às vezes, mudar o curso da história e determinar se o futuro da nação será de progresso ou de trevas.

A decisão tomada pelo rei de Portugal ao tempo do Marquês de Pombal de expulsar os jesuítas do Brasil contribuiu para condenar a colônia a cento e cinquenta anos de escuridão. Os jesuítas eram a ordem mais chegada à instrução básica de brancos e índios. Dado que seu banimento não foi seguido de medidas de incentivo à escolarização da população, o país permaneceu mergulhado na ignorância e viu crescer sua população de analfabetos. Isso durou até quando, já no século 20, a escola gratuita e obrigatória começou a se generalizar.

Vou contar-lhes outro caso, escorregão que causou um desastre cujas consequências se sentem até hoje, passados mais de quatro séculos. A virada do século 16 para o 17 assinalou o auge da expansão territorial e cultural dos turcos, que formavam, à época, o império otomano. Constantinopla, a capital, estava situada no cruzamento das rotas terrestres e marítimas que ligavam o Atlântico à Mongólia e à China. Ponto de passagem incontornável, era importante centro de comércio e de difusão da cultura.

Àquela altura, a Europa já contava com diversos observatórios astronômicos. Dois dentre eles, no entanto, sobressaíam. Eram o de Uranienborg (Dinamarca), onde oficiava o astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, e o de Constantinopla, cuidado pelo otomano Taqi al-Din. No ano de 1577, um cometa muito luminoso atravessou o céu. Os dois estudiosos puderam observá-lo com atenção ‒ Tycho Brahe em Uranienborg e Taqi al-Din em Constantinopla. Quis o acaso que o cometa surgisse no primeiro dia do Ramadã, o mês sagrado dos muçulmanos. Inquieto com o resultado da próxima guerra, o sultão turco quis saber se o cometa prenunciava boas novas ou desgraça.

Taqi al-Din constatou que o astro apontava na direção da Pérsia. Ademais, havia surgido na constelação de Sagitário (símbolo do flecheiro turco) e terminaria na de Aquário (símbolo da paz). A conclusão parecia evidente e o astrônomo não se furtou: predisse que o sultão podia seguir em frente sossegado, que a campanha militar seria coroada de sucesso. Não foi o que aconteceu. A guerra foi um desastre. Furioso, o sultão jogou a culpa no astrônomo e, ato contínuo, mandou que o observatório fosse destruído.

Enquanto isso, no observatório dinamarquês, Tycho Brahe aproveitou a passagem do cometa para adquirir conhecimentos. Registrou, por exemplo, que a cabeleira do corpo celeste se projetava sempre do lado oposto ao Sol. Os estudos de Brahe contribuiriam significativamente para o avanço da ciência na Europa. Já a destruição do observatório otomano travou o desenvolvimento da Turquia no campo científico. Foi preciso esperar pelo século 20 e pela chegada de Kemal Atatürk, herói que modernizou o país, para a Turquia começar timidamente a destravar o caminho do conhecimento. O país havia conhecido quatro séculos de estagnação.

Com informações de Manuel de León, El País.

São Valentim

José Horta Manzano

Metade da humanidade celebra hoje São Valentim, a quem foi concedido, já faz tempo, o estatuto de patrono dos namorados. O 14 de fevereiro, de fato, é celebrado em (quase) todo o mundo. O Brasil é uma das poucas exceções que confirmam a regra. Talvez em virtude de a data cair muito perto do carnaval ‒ às vezes até durante ele ‒, nossos amorosos são homenageados em outro dia. Imaginem um Dia dos Namorados no meio do carnaval. Passaria praticamente despercebido, um desastre para o comércio.

dia-dos-namorados-1As origens da festa são difíceis de determinar. A hagiologia católica registra, na Antiguidade, diversos santos com esse mesmo nome. A controvérsia quanto à escolha da data perdura, e nada indica que se chegue, um dia, a consenso. Por que razão festejar os enamorados neste dia e não em outro? O mistério é denso.

As primeiras manifestações ligando o 14 de fevereiro aos apaixonados surgiram na Inglaterra em meados do século XIX. O desenvolvimento das estradas de ferro, ao acelerar o transporte de mercadorias e de correspondência, favoreceu a troca de mensagens. Enamorados aproveitaram a brecha e aderiram ao costume de enviar cartinhas e cartões nessa data. Hoje em dia, o papel vai sendo substituído por mensagens eletrônicas, mas a tradição continua.

dia-dos-namorados-2No Brasil, atribui-se ao baiano João da Costa Doria(*), publicitário e homem político, a introdução do costume. Para o comércio varejista, o mês de junho costumava ser fraco. No final dos anos 1940, importante loja de departamentos de São Paulo encomendou ao publicitário um estudo para impulsionar as vendas. Ele teve a ideia de implantar um São Valentim abrasileirado. O dia 12 de junho, véspera de Santo Antônio ‒ o casamenteiro ‒ caía bem. A campanha publicitária lançada em 1949 deu certo. A moda foi logo seguida, nos anos seguintes, por outros estabelecimentos comerciais. Em poucos anos, o Dia dos Namorados já tinha assumido ares de comemoração tradicional e inescapável.

Hoje em dia, a troca de presentes substituiu o simples envio de cartões. Os comerciantes, que levam vantagem com essa evolução dos costumes, aplaudem de pé.

(*) João Doria Jr., atual prefeito da cidade de São Paulo, é filho do publicitário homônimo.

Interligne 18cTítulos de nobreza
Em regimes monárquicos, o mandachuva tem título correspondente ao estatuto que ocupa.

Reino tem rei: o rei da Espanha;
Principado tem príncipe: o príncipe de Mônaco;
Grão-Ducado tem grão-duque: o grão-duque de Luxemburgo;
Sultanato tem sultão: o sultão de Oman.

E emirado, como é que fica? Ora, emirado tem emir, como o emir de Abu Dabi.

Falando no diabo, aparece o rabo. Senhor Doria, filho do criador do Dia dos Namorados, exerce atualmente a função de prefeito de São Paulo. Encontra-se estes dias nos Emirados Árabes negociando a participação de capitais da região no financiamento de melhoramentos na capital paulista. Em entrevista, disse hoje que se encontrou com o «rei» de Abu Dabi. Escorregou. O pequeno país não é reino, mas emirado. O alcaide visitou o emir.

A demissão parental

José Horta Manzano

Não, caros e fieis leitores, não é da demissão do papa que pretendo falar hoje. É de uma abdicação menos midiática, mas não menos inquietante. Assim mesmo, não dá para fugir da atualidade: o chefe da Igreja passa raspando pelas linhas que vêm a seguir.

Em reportagem publicada na edição online de 16 de fevereiro, a Folha de São Paulo nos informa que crianças não sabem o que faz um papa. Há até os que torcem para que o próximo seja… corintiano.

Até aí, nada demais. Eu também não sei exatamente o que faz o sultão de Omã ou o xamã de uma tribo da Sibéria oriental. São figuras distantes de nosso dia a dia, das quais não ouvimos falar praticamente nunca.

Acontece que a reportagem se baseia em relato de crianças e pré-adolescentes que estudam em colégio religioso, sob a orientação de eclesiásticos. No meu tempo, ser mandado para um colégio de padres era ameaça feita a crianças desobedientes, tal o pavor que essa ideia nos infundia. Mas estou divagando.Teologia

O que me deixa surpreso e preocupado é a demissão parental. Que diabo é isso? Refiro-me ao fato de, ao matricularem seus filhos na escola, os pais confiarem cegamente a outrem a formação dos rebentos. Na certa não se dão conta de que, ao fazer isso, estão abdicando da função de coeducadores que lhes cabe. A escola vai dispensar ao aluno não somente o ensino formal, mas vai também encharcá-lo com valores que não são necessariamente os de sua família.

Pais que escolhem um colégio de padres para o filho mostram duas particularidades: a primeira é que dispõem de meios suficientes para custear os estudos do pequerrucho; a segunda é que consideram importante que a formação escolar do herdeiro seja completada por formação religiosa.

O que me inquieta é constatar que, ao entregar o filho à escola, os pais ― que não hão de ser ignorantões ― lavam as mãos e se desinteressam pelo ensino que o colégio possa estar dispensando. Abdicam de suas funções. A escola que se encarregue de ministrar ao guri a noção de céu, de inferno e de seus intermediários. Se esta não o fizer ― como sugere a reportagem da Folha―, formará alunos ansiosos para que o papa seja corintiano.

Que um aluno de colégio de padres nunca tenha ouvido falar do papa ― e que, ingenuamente, até se alegre que o próximo torça para seu time de futebol ― é sintoma preocupante. Falha a escola, mas falham principalmente os pais. Aquela não ensina o que devia, enquanto estes últimos não aferem o que está sendo ensinado.

O infográfico inserido na reportagem, então, é cômico. Diz que a segurança do Vaticano é garantida pela Guarda Suíça, cujos recrutas «vestem uma roupa esquisita» (sic). E pára por aí, sem explicar a razão da vestimenta anacrônica. Evidentemente, quando não se sabe, fica complicado ensinar. O artigo diz ainda que a palavra papa é uma sigla. Não é. Uma rápida consulta aos dicionários que qualquer repórter tem à mão teria evitado proferir tamanha enormidade.

Como se vê, os colégios de padres acompanham a degringolada da Instrução no Brasil. E a demissão parental só faz piorar o quadro.