Intolerância

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há poucos dias, uma bolsista negra da Fundação Getúlio Vargas foi afrontada, durante um evento esportivo organizado dentro da fundação por uma pessoa – provavelmente um aluno ou membro da instituição –, com os seguintes dizeres: “Negrinha aqui, não!” Que fique claro para quem não se enfronhou com o acontecido: a moça não é cotista, foi contemplada por mérito próprio com uma bolsa de estudos.

Inúmeras reportagens foram feitas nos mais diversos meios de comunicação a esse respeito, a maioria das quais destacando que a fundação prontamente instaurou inquérito para tentar identificar o agressor, sem admitir, contudo, que ele (ou ela) faça parte de seu corpo estudantil, uma vez que o evento era aberto ao público.

Reações de leitores indignados pulularam por todas as partes. Como admitir que uma violência desse calibre tivesse lugar no meio da intelectualidade paulistana e dentro de uma casa que abriga os filhos de sua mais ilustre elite financeira? Especialistas foram chamados a opinar sobre as causas do fenômeno.

Incrédula, ao terminar de ler muitas análises, tudo o que consegui sentir foi um forte impulso de dialogar com a garota. Queria que ela me contasse um pouco de sua história de vida, falasse sobre a experiência de estudar na FGV e relatasse as emoções que experimentou durante o episódio e depois dele. Queria saber por que ela optou por se manter em silêncio e preferiu não ser identificada pela imprensa. Ao final de seu relato, se pudesse, eu a olharia bem no fundo dos olhos e lhe diria:

«Não vou tentar consolá-la, não vou buscar palavras melosas para lhe dizer da minha solidariedade, nem lhe dar conselhos quanto aos passos que você poderia adotar para encontrar justiça. Não vou lhe pedir que confie na justiça divina, mesmo que a dos homens falhe. Não vou usar meus conhecimentos de psicologia para ajudá-la a entender as motivações psíquicas que estão por trás do comportamento de seu agressor. Acredito sinceramente que, como diz a canção, você já sabe disso tudo na ferida viva do seu coração. Só tenho uma coisa a lhe dizer: não busque entender. Qualquer tentativa de explicação desse tipo de fenômeno representa apenas uma forma de abrir espaço para acolhimento de justificativas e acobertamento da transgressão. Da mesma forma, deixar-se levar pela onda de indignação e achincalhar o responsável pelo insulto pode ser uma medida catártica para muitas pessoas, mas de pouca eficácia na prática. Juntar-se ao coro dos que categorizam o agressor como “não-humano” ou “idiota” me parece ainda pior. A vontade de dividir a espécie em categorias mais e menos aceitáveis é exatamente o que parece estar na origem do comportamento transgressor. Infelizmente, apontar o dedo para a pequeneza mental de terceiros pode não passar de tentativa vã de demonstrar superioridade moral. Para o bem e para o mal, estamos todos imersos na lama de nossa própria ignorância e mediocridade. Nossa memória também é lamentavelmente curta quando se trata do que aconteceu a outras pessoas. Quando nova ocorrência de discriminação for registrada, sua dor já terá sido esquecida.

Minha frase preferida, proferida por uma de minhas professoras, é emblemática da única mensagem que quero lhe transmitir: “Às vezes, é preciso não entender”. Quanto mais pessoas puderem admitir para si mesmas o mal-estar, o pasmo, o desconforto psíquico, a angústia e a incompreensão que gestos ou discursos de ódio geram, melhor para a civilização humana.

Seu silêncio e sua recusa em ser identificada têm o peso adequado para reequilibrar os pratos da balança e nos devolver a esperança de dias melhores. Ambos sinalizam que você não está em busca de 15 minutos de fama e que é preciso tempo e introspecção para metabolizar experiências de contato com a barbárie humana. Os cães ladram e a caravana passa, você sabe.

by Marine Fargetton, artista francesa

Não sei como impedir que casos como esse se repitam. Tudo o que me ocorre neste momento é pedir permissão para me juntar à sua caravana e lhe dar um abraço comovido. Um abraço de mulher, um abraço de quem se sabe mortal e já aprendeu que caixão não tem gavetas. Um abraço de quem acredita que o único legado verdadeiramente útil que se pode aspirar a deixar para as futuras gerações é o da dignidade em todas as circunstâncias.»

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A humanização dos presídios

José Horta Manzano

O uso do cachimbo faz a boca torta ‒ é o que se costuma dizer. Há um fundo de verdade na afirmação. Certos usos que vêm de um passado muito antigo vão-se perpetuando sem que a gente se dê conta. Passam os anos, e determinados costumes perduram sem levantar contestação.

O Brasil foi fundado na desigualdade. Começou já com europeus que, embora sujos e maltrapilhos, tomaram para si uma terra que já tinha dono. O embate foi desigual. De um lado, trabucos e armas de ferro; de outro, arcos de madeira e flechas de pedra lascada.

A desigualdade continuou com a divisão da população entre cidadãos livres e escravos. O desequilíbrio durou séculos sem que ninguém se comovesse com a situação, fato que hoje nos parece surreal. Apesar da independência, a sociedade continuou partilhada entre dois campos separados por um fosso.

Em princípio, a abolição da escravidão deveria ter aterrado a vala que distanciava os que tinham e podiam dos que nem tinham nem podiam. Não foi o que aconteceu. A diferença entre os habitantes do novo país apenas mudou de aspecto, mas o fundo permaneceu inalterado. O antagonismo entre senhor e escravo transformou-se em dicotomia entre os que podem e os demais.

Prison 2

Constituições, governos, golpes, revoluções se sucederam. Muita coisa mudou com o passar das décadas. No campo social, nosso país é hoje, sem dúvida, menos desigual do que era em meados do século 19. Assim mesmo, a boca deformada pelo uso do cachimbo continua torta.

A lei criou sistema de quotas para emprego público, candidatura a cargo eletivo, admissão em faculdade. Tenho fortes reservas contra todo sistema baseado em quotas, mas devo reconhecer que, pelo menos, elas mostram um reconhecimento de que algo estava fora de esquadro e precisava ser corrigido. A solução é canhestra, ainda que a intenção tenha sido louvável.

Outro dia, a esposa do embaixador da Grécia foi acusada de cumplicidade no assassinato do marido. Em virtude de pesados indícios de participação no crime, foi encarcerada. Os jornais deram a notícia sublinhando que, por não ter diploma de curso dito superior, a cidadã foi para uma cela comum.

Não tenho maiores informações sobre o caso nem me cabe opinar sobre o mérito da questão. Se a embaixatriz é ou não culpada, é a Justiça que vai determinar. O que me deixa perplexo é que, apesar de todas as medidas que têm sido tomadas nos últimos tempos para reduzir as desigualdades sociais, ainda subsista esse tipo de privilégio.

Dois séculos atrás, talvez fizesse sentido dar tratamento diferente a prisioneiros, quando um deles era diplomado em Coimbra enquanto o outro não passava de um joão-ninguém. Para a mentalidade de então, o convívio entre os dois estava fora de cogitação.

by Genildo Ronchi, desenhista capixaba

by Genildo Ronchi, desenhista capixaba

Muita chuva caiu desde então. Nos esforços que empreendeu para diminuir a desigualdade de tratamento dispensado aos cidadãos, o legislador se esqueceu do espinhoso problema da cela «especial» por oposição à «comum». A questão, que a monstruosa atualidade carcerária traz à tona, terá de ser abordada mais dia, menos dia.

Estamos todos de acordo sobre o fato de que os presídios brasileiros são sucursais do inferno. A solução, no entanto, não pode passar pela manutenção de celas especiais para certa categoria de cidadãos. Que se humanizem os presídios, que se neutralizem «facções» (=quadrilhas), que se repense toda a estrutura prisional do país. Já passou da hora. Mas que se elimine o privilégio representado pela cela «especial», reminiscência de um ancien régime guilhotinado duzentos anos atrás.

Há solução radical para apressar o aperfeiçoamento das condições carcerárias: é alojar condenados pela Lava a Jato em celas comuns de presídios comuns. A humanização de todos os locais de privação de liberdade viria rapidinho.