O reclamão

José Horta Manzano

Sabe aquele parente mais pobrezinho, que você convida para um jantar de família na esperança de que ele aprecie e se sinta feliz? Pois é, suponhamos que ele aceite o convite e compareça, sorridente, bem vestido, distribuindo sorrisos tranquilizadores. De repente, quando menos se espera – e sem motivo aparente – o visitante muda bruscamente de atitude. Passa a botar reparo nos móveis, reclamar da comida, se lamentar de só ser chamado raramente em vez de ser convidado fixo. Quando você já está de olhos arregalados de ver tanta petulância e tanta malcriação, a visita vem com mais. Faz beicinho, estufa o peito e se vangloria de que as reuniões do ramo pobre da família se tornaram mais importantes do que os almoços do ramo rico como aquele, por exemplo. Deboche total.

Parece piada de mau gosto, não parece? Pois é assim que nosso presidente Lula costuma se comportar quando é convidado a provar dos comes e bebes no clube dos ricos, o G7. Suas reclamações são um misto de despeito e de amargura. Despeito pelo fato de o Brasil ainda não ser membro titular do clube; amargura por ver chegando o fim de sua jornada política sem vislumbrar a menor possibilidade de nosso país sair do banco e entrar para o time principal.

O site de notícias Poder 360 fez um levantamento das viagens de Lula ao G7 (que já se chamou G8, no tempo em que incluía a Rússia). As primeiras idas foram à França em 2003 e à Grã-Bretanha em 2005. Ainda recatado, Lula comportou-se como visita educada, limitando-se a propor a criação de um fundo de combate à fome. Foi a partir do terceiro convite, em 2006, que Lula começou a botar as manguinhas de fora, como se dizia antigamente. E a partir daí, não parou mais.

Já reclamou da não inclusão do Brasil nas discussões sérias; já afirmou, na cara de pau, que o grupo perdeu importância para o G20; já pediu reforma do Conselho de Segurança da ONU; já se imiscuiu na guerra decorrente da invasão da Ucrânia pelo exército russo. Desta vez, nosso presidente lançou seus gracejos adolescentes antes do início da conversa séria: disse que estava indo ao G7 deste ano “antes que os EUA anexem o Canadá”. No momento em que escrevo, está em pleno voo Brasília – Calgary. O G7 desenrola-se no Canadá.

Não sei o que faria vosmicê se pertencesse ao ramo rico da família e estivesse organizando a reunião. Convidaria o Lula? Eu hesitaria muito em mandar-lhe o convite. Visita que chega com quatro pedras no bolso para atirá-las na hora do almoço é problemática.

O próprio Lula, por que razão continua aceitando o convite se suas falas se perdem no ar e ninguém lhe dá ouvidos? Vê-se que está sendo convidado por algum outro motivo, não pelo conteúdo de suas falas, que não parecem interessar a plateia.

Outra pergunta é: Por que é que continuam chamando nosso presidente para esses convescotes de ricaços? Talvez seja apenas para animar a festa. Ou quem sabe é para mostrar ao mundo uma abertura de espírito de fachada.

Está aberta a temporada de conjecturas sobre a razão dos repetidos convites feitos ao Lula. Quem tiver mais alguma ideia, mande uma cartinha para a Redação. Obrigado.

Imposto de renda

José Horta Manzano

Num tempo em que ainda não havia proteção social para idosos, cada um tinha de se virar como podia. No tempo de nossos avós era assim. Lembro-me que minha avó, por exemplo, trabalhou até idade avançada ‒ pelos padrões da época. Não recebia salário elevado, assim mesmo tinha desconto de imposto em folha. Costumava reclamar: «Não tenho renda, vivo de ordenado. Como é que tenho de pagar imposto de renda?».

A questão é semântica. No entendimento dos antigos, quando alguém dizia que «vivia de renda» entendia-se que vivesse de rendimento imobiliário. «Comprar casa para renda» era a expressão usual, hoje substituída por «comprar casa para alugar». Assim, é natural que a velhinha se insurgisse contra um imposto que acreditava não lhe dizer respeito.

O nome da contribuição obrigatória foi mal escolhido. Visto que se aplica tanto a quem tem renda quanto a quem vive de salário, devia ser chamado imposto sobre ganhos, que corresponde ao inglês «income tax», ao francês «impôt sur le revenu» ou ao alemão «Einkommenssteuer». Seria mais adequado. Imposto sobre o que se recebe.

Valendo-se dessa imprecisão semântica, nosso guia não hesitou em vociferar mais uma de suas quase-verdades. Em discurso pronunciado ontem, bradou que «o povo não deve pagar imposto de renda, pois salário não é renda». Não explicitou se estava reclamando do fato em si ou apenas da denominação. Estaria pedindo que não se cobrasse mais imposto de assalariados? Ou estaria somente sugerindo que se alterasse o nome do imposto?

Pouco importa. De qualquer maneira, o que diz nosso demiurgo não é necessariamente digno de fé. O homem já se desdisse tantas vezes, que é melhor ficar com um pé atrás. O que o ex-metalúrgico evitou dizer é que, para manter o país em funcionamento, o governo precisa de dinheiro. E esse dinheiro só pode vir dos contribuintes.

Se os assalariados fossem isentos de contribuir com imposto direto, o financiamento da máquina estatal teria de vir através de brutal aumento de impostos indiretos, embutidos no preço do arroz, do feijão, da farinha, dos medicamentos, do bilhete de transporte. Se isso acontecesse, seria ainda pior para quem ganha pouco. Para pequenos assalariados, o peso da alimentação no orçamento é predominante.

Há mais de trinta anos, nosso guia tem vida fácil: mora de graça, viaja de graça, come de graça, bebe de graça, se diverte de graça, se elege sem pôr a mão no bolso. Sua visão de mundo está distorcida e longe da realidade. Sua infância pobre e apertada já se perde nas brumas do passado. Não se dá conta de que é pernicioso reforçar a ideia de que cidadãos não são obrigados a contribuir, cada um na medida de suas posses, para o bem comum. Essa pregação, que acentua e banaliza a noção de assistanato, está nos antípodas do civismo e da cidadania.

Quem não devia pagar imposto são as empresas. Pessoas físicas, sim. Pessoas jurídicas, não. Não há melhor maneira de vitaminar indústria, comércio e serviços que isentá-los de impostos. Não há melhor caminho para diminuir a taxa de desemprego. Livres da carga fiscal que as esmaga, as empresas estariam em condições de se expandir, de contratar mais pessoal, de baixar preços, de aumentar salários.

Diferentemente do que diz o semideus de Garanhuns, não é dos «ricos» que se deve cobrar imposto. Ricos conhecem todos os subterfúgios para escapar de contribuições obrigatórias. Esconder dinheiro na cueca, em apartamento vazio, em paraíso fiscal são práticas correntes. Estabelecer residência fiscal em outro país também. Sugiro a nosso guia, que nunca sabe de nada, perguntar aos acólitos. Eles estão por dentro.