Clamor nacional

by Frits Ahlefeldt, desenhista dinamarquês

José Horta Manzano

Com atraso mas sem surpresa, o indivíduo selvagem que, ostentando farda da PM de São Paulo, tinha agarrado um cidadão pelas pernas e arremessado por cima da mureta de uma ponte, foi preso.

Não foi fácil nem rápido chegar a esse desenlace. Os superiores hierárquicos do celerado, os primeiros a ficarem a par do ocorrido, não acharam que fosse o caso de detê-lo. Entenderam que bastava um afastamento do cargo por algum tempo, enquanto a poeira não baixasse.

Num primeiro momento, aliás, eles não devem nem ter ficado a par do que aconteceu. É de acreditar que, antes de as imagens de vídeo começarem a escandalizar as redes, a hierarquia sequer tenha sido avisada. Foi preciso que o clamor popular se alevantasse para que os superiores determinassem o “afastamento” do criminoso.

Felizmente não parou por aí. Com o zum-zum crescendo e se tornando trend, a Corregedoria da Corporação houve por bem intervir. E pediu prisão preventiva do policial que, assim, passou para o outro lado do espelho e se juntou aos “elementos” que até ontem aterrorizava.

Não sei (nem ninguém sabe) como vão evoluir as coisas. O mínimo que pode acontecer é o “elemento” ser julgado como qualquer mortal, ser condenado e pagar sua pena. O que deveria vir depois, mas que não se sabe se realmente virá, é sua expulsão da Corporação. Em terras mais avançadas, ele continuaria sob detenção administrativa depois de cumprir sua pena, por representar um perigo para a sociedade.

Imagine esse indivíduo, hoje com apenas 29 anos de idade, circulando por aí, entrando num ônibus, num trem, num restaurante, num boteco. Pense quantas possibilidades diárias ele terá, nos anos que tem pela frente, de se enervar, de invocar com a cara de alguém, de receber um pisão no pé, de sua namorada ser objeto de uma olhada de um desconhecido. Imagine agora que, a cada enervada, esse rapaz agarre o interlocutor e o atire fora do ônibus, do trem, do restaurante, do boteco. Imagine que ele resolva andar armado!

No meu entender, um personagem desse quilate, de agressividade incontrolada (e incontrolável), só pode voltar a circular livremente no dia em que for aprovado numa bateria de testes psicológicos específicos que lhe meçam a periculosidade e que o confirmem regenerado e apto para viver em sociedade.

Antes disso, nem saidinha de Natal.

Crime nosso de cada dia

José Horta Manzano

Treze PMs foram “afastados”, diz a notícia, assim que veio a público o episódio do homem arremessado do alto da ponte que cruza um córrego na periferia de São Paulo. Segundo o comandante da PM, foi um “erro emocional”.

Afastados? – pergunto eu. Dos outros doze PMs, não sei, mas aquele que agarrou o infeliz pelas pernas e o precipitou no vazio merecia mais, muito mais que “afastamento”. Tinha de ser preso em flagrante de tentativa de homicídio. Com dolo, evidentemente.

Quanto aos outros, que assistiram à cena como quem assiste a um filme de mocinho e bandido, têm de ser denunciados como cúmplices da mesma tentativa de assassínio. Independentemente do resultado do processo criminal que virá, todos eles têm de perder o emprego, com proibição de exercer função pública por dez anos.

Esse seria o desfecho que me parece ideal para esse tipo de ocorrência. Não estamos no Irã nem na Rússia, e nossa polícia não pode ser homizio de cangaceiros. Certas coisas não se fazem nem mesmo com suspeitos de bandidagem – há limites que não podem ser ultrapassados e que valem para todos.

Por infelicidade, o caminho pelo qual nosso país enveredou já faz alguns anos, de confronto, incivilidade e extremismo, acrescentou fortes pitadas de violência ao comportamento nacional. O acarajé da baiana e até o insosso (mas adorável) cuscuz paulista ganharam forte picância que não é do agrado de todos.

No mesmo dia em que o celerado (imbuído da força policial) atirou um cidadão por cima de uma mureta, um cidadão foi executado por outros celerados com 11 tiros desferidos pelas costas “em legítima defesa”. Na sequência, mais uma criança foi atingida na cabeça por bala perdida.

Crime e violência, no Brasil, sempre houve. Sempre sonhamos com o progresso e o avanço da educação e da tecnologia. Hoje, com as rodas relinchando, nosso carro de boi avança, em baixa velocidade, para esse objetivo. O aumento da violência e da criminalidade não estava no programa. Por que razão, então, está aí e aumenta a galope?

Quem souber, é favor candidatar-se a algum cargo importante. Terá meu voto.

Carta recebida

Prezado editor deste blog,

Lamento informar que uma de suas colunistas estará temporariamente impedida de enviar novas colaborações.

by Garance Lobotomie

by Garance Lobotomie

D. Myrthes Suplicy Vieira foi inesperadamente acometida por um surto de insanidade, tendo sido forçada a se internar em clínica psiquiátrica para tratamento emergencial, ainda sem data definida para alta. Segundo os psiquiatras que a atenderam, o problema ocorreu após um período de intenso e prolongado estresse com o atual quadro social e político de nosso país.

Aparentemente, o surto foi motivado pela leitura de duas reportagens, a saber:

Interligne vertical 16 3Ke“Vigilante morre atropelado com um tiro na cabeça” – conforme é narrado pelo jornalista, dois soldados da PM paulista registraram um boletim de ocorrência numa delegacia, informando que tinham atendido a um chamado para socorrer um homem que teria sido atropelado, sendo que o motorista do veículo teria se evadido do local sem prestar atendimento à vítima. Quando a ambulância de resgate chegou ao local, os ditos PMs teriam dispensado o veículo e impedido que os paramédicos tocassem o corpo do rapaz, alegando que ele já estava morto e que cabia a eles preservar o local do crime. No dia seguinte, no entanto, o legista designado para o caso entregou um laudo em que atestava que a morte se devera à perda de massa encefálica decorrente de um tiro na parte de trás da cabeça.

Louco 1“Procuradores da Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro processam dois cidadãos por financiamento de campanha eleitoral” – segundo a nota, um deles teria doado a exorbitante quantia de R$ 15,00 para a campanha de um deputado; os procuradores, então, solicitaram imediatamente ao juiz a quebra do sigilo fiscal do tal cidadão, embora o pedido tenha sido negado pela juíza responsável pelo caso diante da “insignificância” da contribuição. O outro caso, considerado um pouco mais grave e prontamente acolhido pelo juiz, refere-se à doação de quantia ainda maior (R$ 50,00) igualmente para financiar campanha eleitoral. O advogado contratado pelo réu manifestou sua indignação com o “absurdo” da decisão de envolver a justiça num caso de pouca relevância nacional, dado que mesmo que o cidadão fosse julgado culpado ele seria condenado a pagar uma multa de algo em torno de R$ 150,00. Já o réu-cidadão, ao ser entrevistado por uma emissora de televisão, encarou despudoradamente a câmera e disse: “Doei sim. No próximo ano, vou dobrar a meta e doar R$ 100,00 para ver no que vai dar.”

No final da tarde, já combalida com essas notícias, D. Myrthes teria assistido a um vídeo divulgado no Facebook em que a presidente da República discursa para um grupo de sindicalistas e pergunta desafiadoramente: “Quem tem a força moral, o caráter ilibado… suficiente para atacar a minha honra? Quem?!”

Cachorro 25Louco 2Na sequência, D. Myrthes teria começado a apresentar um quadro de forte agitação psicomotora e passado a proferir frases desconexas, em que apenas palavras isoladas faziam algum sentido: “non-sense”, “puro Kafka”, “golpismo”, “motivos nobres para transgressões”, “moralistas imorais”, etc. Depois, num gesto tresloucado, ela jogou-se ao chão, ficando de quatro, rosnando e agitando o traseiro, roubou a ração de suas cachorras e, ao ser confrontada por elas, mordeu as duas. Mais tarde, recolheu-se embaixo do armário da sala e recusa-se a tomar banho.

Isso posto, temo que a coluna que o senhor abriga em seu blog fique indisponível por várias semanas.

Grata pela atenção,

Secretária da Clínica Veterinária Acãochego

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ameaça

Coruja 1«Enquanto a população do Distrito Federal sofre com a precariedade da segurança pública e com o crescimentos dos índices de criminalidade, esta semana a Polícia Militar foi acionada para cumprir missão de emergência: capturar uma coruja que estava à espreita, nos jardins do Palácio da Alvorada, residência oficial de Dilma.

Alguém, no Alvorada, considerou ameaçadora a presença do animal-símbolo da sabedoria.»

Extraído do Diário do Poder, 24 jan° 2015.