O lapso de Señor Cuadrado

José Horta Manzano

Gabriel Boric, o jovem presidente do Chile eleito recentemente, arrancou a todo vapor, disposto a mostrar-se antenado e sintonizado com as tendências dos tempos atuais. Estendeu tapete vermelho para o feminismo e para a linguagem inclusiva – adulada por uns, execrada por outros.

No discurso de entronização, Boric já deu o tom. Afirmou que seria “o presidente dos chilenos e chilenas”. Sua alocução foi recheada daqueles cansativos “todos e todas”, “chilenos e chilenas”, “cidadãos e cidadãs”. O moço ousou adulterar uma frase famosa de Salvador Allende – seu ídolo, assassinado em 1973 pelos esbirros de Pinochet. Onde Allende havia dito “o homem livre”, acrescentou “a mulher livre”.

Até na distribuição das pastas ministeriais, especial atenção foi prestada às mulheres. Foi criado o Ministério da Mulher e da Igualdade de Gênero. Evidentemente, a titular é uma mulher.

Semana passada, o subsecretário da Saúde Pública, um certo Señor Cuadrado, discursou ao lado das titulares da Saúde e da Igualdade de Gênero. Diante de uma plateia de jornalistas, discorria sobre o trabalho que sua secretaria vem exercendo para oferecer remédios à população carente.

A certa altura, lançou: “E avançamos sobretudo na ideia do direito à saúde, no qual os e as medicamentos são fundamentais para poder garantir o acesso à saúde”.

A gargalhada geral ecoou por toda a mídia latino-americana e foi parar até no Youtube. O excesso de zelo do aplicado funcionário pregou-lhe uma peça e mostrou a inconsistência e o artificialismo da linguagem dita “inclusiva”. Esse modismo, que alguns entendem como obrigatório, é tentativa de distorcer idiomas sedimentados há séculos.

Quem envereda por esse caminho mostra não entender que gênero gramatical não se confunde com sexo humano. As duas noções nem sempre vão de mãos dadas.

Falar para um público de bom nível já é suficientemente complicado, especialmente numa terra como a nossa, em que a língua caseira diverge sensivelmente da norma culta. Não vale a pena acrescentar um fator complicador.

Caminho traçado

José Horta Manzano

Fascismo 4Lúcida e interessante é a visão do escritor boliviano Juan Claudio Lechín(*) sobre as diferenças entre ditadura e fascismo. Seu livro Las máscaras del fascismo, publicado em 2011 por Plural Editores (La Paz, Bolivia), corajoso e didático, põe o dedo na ferida. O livro traz subtítulo sugestivo: Castro, Chávez, Morales, um ensaio comparativo.

Um decálogo (dodecálogo seria melhor dito) elenca as principais características do perfeito caudilho fascista.

Interligne vertical 11c1. O caudilho fascista é messiânico, carismático e de origem plebeia.

2. Os braços do caudilho são o partido e a tropa de choque, seja paramilitar, seja militar ― com forte componente de aventureiros descompromissados e de delinquentes.

3. A língua do caudilho: a propaganda política.

4. A fé do caudilho: uma fantasiosa promessa política redentora.

5. O ouvido do caudilho: serviços de inteligência repressiva, espiões e delatores.

6. O caudilho toma carona na refundação da pátria e/ou na mudança do nome; na reforma constitucional e/ou na modificação da constituição e em novos símbolos do Estado.

7. O caudilho dedica-se a destruir atos eminentemente liberais ― valores e instituições.

8. O caudilho é antiliberal e antiamericano.

9. O caudilho transforma em igualdades políticas os seguintes conceitos: caudilho = partido = Estado = nação = pátria = povo = história épica.

10. O adeptos do caudilho: adesão popular militante. Retorno à servidão.

11. A perpetuação do caudilho no poder: governo vitalício, com ou sem eleições. Monarquia plebeia.

12. Valores medievais: coragem militar, arrojo, prestígio de morrer combatendo, valores marcadamente viris (machistas), senhoriais e homofóbicos. Inflamar a militância com inflamados discursos de confrontação, lutar por um ideal santo, contra o herege irreconciliável.

Com base nas características elencadas, o autor não reconhece o chileno Augusto Pinochet nem o argentino Jorge Rafael Videla como fascistas, apesar de seus crimes. Comandaram ditaduras, mas não fascismos.

A essência do pensamento de Lechín está resumida nestas poucas linhas:

Fascismo 3«El fascismo es un modelo pragmático para la toma absoluta del poder por parte de un caudillo mesiánico, por medio de la seducción o el crimen, las urnas o los fusiles, el discurso o el golpe, la nacionalización o la privatización y cualquier otro instrumento eficaz para el objetivo absolutista. En este concepto se inscriben todos los caudillos, cada uno ciertamente impulsado o frenado por las características de su propia realidad; de ahí que muestren diferentes desempeños aunque subyazca la misma naturaleza.»

Traduzindo, fica assim:

«O fascismo é modelo pragmático para a conquista absoluta do poder por parte de um caudilho messiânico por meio da sedução ou do crime, das urnas ou dos fusis, do discurso ou do golpe, da nacionalização ou da privatização, e de qualquer outro instrumento eficaz para alcançar o objetivo absolutista. Nesse espírito, inscrevem-se todos os caudilhos, cada um, por certo, estimulado ou freado pelas características de sua própria realidade. Eis por que, embora o modus operandi possa diferir, a mesma natureza esteja sempre latente.»

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Qualquer parecença com a realidade brasileira destes últimos anos pode não ser mera coincidência.

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(*) Juan Claudio Lechín Weise (1956-) é homem de letras e pensador boliviano, agraciado em 2004 com o Premio Nacional de Novela. Seus estudos começaram em seu próprio país e prosseguiram na Itália, no Peru, na Venezuela e nos Estados Unidos. Diplomado cum laude em Economia pela Universidade de Boston.

De asilo & de embaixadas

«Em junho de 1957, Juscelino nomeou embaixador em Portugal o inesquecível pernambucano Álvaro Lins, dos nossos maiores intelectuais.

Em janeiro de 1959, Álvaro deu asilo na embaixada ao general Delgado, que Salazar queria matar porque Delgado tinha saído candidato a presidente da República. Salazar ameaçou invadir a embaixada. Álvaro Lins resistiu. Quando o general deixou a embaixada para disputar, Salazar o matou.

Serra, Weffort, Teotônio Santos, Cesar Maia, José Maria Rabelo, tantos poderiam ter sido mortos no Chile se não tivessem tido asilo dos EUA, da França, da Alemanha, do México contra Pinochet que poderia matá-los. Metade do governo Dilma não existiria se não houvesse asilo político.

Dilma não pode desmoralizar a tradição de asilo do Brasil, punindo o bravo embaixador Saboia, que salvou a vida do senador Molina, só para atender a um presidente que na Bolívia é chamado Evo “Imorales”.»

Do blogue do jornalista Sebastião Nery.