Dinheiro perdido

José Horta Manzano

Prisioneiro 2Até o finalzinho do século 19, a capital da Província de Minas Gerais era Ouro Preto. A cidade de Belo Horizonte, uma das primeiras cidades brasileiras planejadas numa prancheta, foi concebida exatamente para substituir Ouro Preto e se tornar capital. A transferência oficial da sede do governo só ocorreu quase no final do século, quando Deodoro da Fonseca já havia dado o golpe que tinha derrubado a monarquia e instalado a República.

Naqueles tempos, não havia rádio nem tevê nem muito menos internet. A informação só circulava por dois caminhos: boca a boca ou imprensa escrita. Os jornais, geralmente publicados com quatro ou seis páginas, eram muitos. A maioria não vingava ‒ alguns não passavam de algumas edições. Assim mesmo, eram imprescindíveis por constituir a única fonte de informação da população letrada. Toda notícia que não chegasse por via oral tinha de ser propagada por escrito.

Nos anos 1880, circulou em Ouro Preto um jornal chamado Liberal Mineiro. Como os outros, publicava notícias locais, avisos oficiais, notas de falecimento. Trazia também notícias requentadas, reproduzidas de jornais da corte. O Rio de Janeiro, no século 19, abrigava a família imperial e a corte, daí o epíteto.

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Na edição de 11 setembro 1884, saiu um aviso curioso que reproduzo aqui. Normal para a época, seria impensável nos dias de hoje. É verdade que mais de 130 anos se passaram, assim mesmo, parece que mudamos de planeta.

A inserção trazia um pedido feito por um preso. Contava história triste. A mãe do encarcerado, ao dirigir-se à cadeia para visitar o filho, carregava uma carta e a quantia de cem mil réis, montante considerável na época. Por infelicidade, perdeu tudo no meio do caminho ‒ carta e dinheiro. O preso rogava «à consciência escrupulosa da caridade pública» que o montante lhe fosse devolvido por quem o tivesse encontrado.

O anúncio foi publicado em seis diferentes edições do mesmo jornal. Tudo indica que, já naqueles tempos recuados, a caridade pública fosse surda.

Um pensamento sobre “Dinheiro perdido

  1. Talvez o título de seu artigo devesse ser Honra Perdida. Parece que desde o século 19 nossos compatriotas já apresentavam deformações de caráter. Um interessante contraste com a fé ingênua de um preso que apelava à consciência e aos escrúpulos dos que estavam do lado de fora da cadeia.

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