Zé da Pinga e a linhagem familiar

Como eram as apurações antes da urna eletrônica

José Horta Manzano

O Brasil está entre os raros países em que o nome próprio e a transmissão do sobrenome não são codificados, isto é, não seguem uma norma. Não é costume herdado dos lusos, visto que, em Portugal, a transmissão do sobrenome é codificada. Em terra lusitana, o recém-nascido recebe o sobrenome dos pais – primeiro o da mãe, em seguida o do pai. Esse é o costume nacional e ninguém imagina fazer diferente.

Já no Brasil, veem-se irmãos que, mesmo sendo de mesmo pai e mesma mãe, não levam sobrenomes idênticos. Há quem leve só o sobrenome do pai. Há quem carregue sobrenome completamente diferente do dos pais, em “homenagem” a um avô, um tio ou um amigo da família. Há profusão de bebês que recebem nome completo do pai (ou do tio, ou do avô) seguido do epíteto “Júnior”, “Filho”, “Neto”, “Sobrinho”. Há ainda os que vergam sob o peso de três ou quatro sobrenomes, um desafio ao espaço que documentos atuais reservam para o nome do titular.

É curioso notar que, entre nossas centenas de parlamentares de direita e de extrema direita, nenhum se tenha debruçado sobre uma normatização da transmissão do(s) sobrenome(s) no Brasil. Digo que é curioso que não se preocupem com isso apesar de se proclamarem “defensores da família”. A continuidade do sobrenome familiar, geração após geração, é característica forte e evidente da família ao longo do tempo.

Agora que se aproximam as eleições, vai aparecendo um festival de nomes bizarros, como: Zé da Pinga, Val do Açaí, Capitão Almofadinha, Miguel Coronel, Iolanda da Quitanda, e por aí vai. Dizem os candidatos que o chamado “nome de urna” tem a função de bem individuá-los. Entendo o argumento, mas a Justiça Eleitoral já pensou nisso ao atribuir um número a cada um deles. O eleitor vota no número, que é mais fácil de memorizar.

Levantamento feito estes dias, antes do término do período de inscrições, já encontrou, em todo o Brasil, dois candidatos que, sem seram parentes do presidente da República, acrescentaram “Lula” ao próprio “nome de urna”. Com o ex-presidente Jair, é ainda pior. Nada menos de quinze candidatos que, sem serem parentes do ex-presidente, acrescentaram “Bolsonaro” a seu “nome de urna”.

A meu ver, são casos flagrantes de falsidade ideológica que, em outros contextos, pode dar até cadeia. Não entendo como o Tribunal Eleitoral deixa passar essas brincadeiras num momento tão solene como o das eleições.

É trágico perceber que nenhum dos quinze (até agora) que portam o nome “Bolsonaro” há de ter sido advertido ou bloqueado pelo partido em que se inscreveu.

Onde está, nessas horas, o clã Bolsonaro, que se jacta de ser o grande “defensor da família brasileira”? Ao permitir que outros usem seu santo sobrenome em vão, mostram ser defensores da família só da boca pra fora.