Battisti: desta vez vai?

José Horta Manzano

É impressionante a que ponto a insegurança marca o dia a dia do Brasil e dos brasileiros. Dúvidas atingem gente fina e gente menos fina. Se há uma coisa que põe mocinhos e bandidos em pé de igualdade, essa coisa é a incerteza. Com certeza.

Gente boa não sabe se a lei de hoje ainda estará de pé amanhã. Condenado ignora se irá pra prisão. Cidadão de bem sai de casa de manhã sem muita certeza de voltar à noite são e salvo. Bandido condenado por unanimidade em todas as instâncias pode ainda, no último minuto, ser inocentado por um salto de humor do STF. No Brasil, em matéria de Justiça e de Segurança Pública, caminha-se numa corda bamba. Pode-se cair pra um lado, pro outro ou até continuar no precário equilíbrio. Tudo é possível, até o impossível.

Vira e mexe, volta às manchetes a novela sem fim de signor Cesare Battisti, aquele terrorista condenado na Itália à prisão perpétua por envolvimento em quatro assassinatos cometidos nos anos 1970. Como sabem todos, o moço ‒ que hoje se apresenta como escritor ‒ vive fugido da polícia há quase quarenta anos. Homiziou-se no México e na França antes de se esconder no Brasil.

Em nosso país, passou por processo de extradição nos conformes. O STF decidiu que fosse devolvido à Itália. No último dia de mandato, nosso guia, o Lula, houve por bem dar vexame horas antes de sair de cena: negou a extradição. Nunca antes ‘nessepaiz’ se tinha visto algo assim. O capricho de um dirigente que, com um pé já fora do governo, decide peitar decisão do tribunal maior. Um despautério.

Excetuando os que apreciam bandidos, ninguém engoliu o desvario do demiurgo. De lá pra cá, mais de três anos se passaram. Anos de incerteza. O Lula podia ter feito o que fez? Não podia? A polêmica corre solta, cada um dá sua opinião, mas os que têm o poder de decidir não ousaram tomar nenhuma atitude. Numa ocasião em que foi apanhado em flagrante ao tentar escapar para a Bolívia, o terrorista chegou a passar curta temporada atrás das grades. Mas logo foi solto.

Esta semana, a Procuradoria-Geral da República enviou ao STF parecer sobre o caso. Julga a presidência da República competente para dar (de novo) a palavra sinal sobre a extradição do condenado. Foi o que bastou para pôr a Itália de orelha em pé. De fato, o povo de lá nunca se esqueceu do criminoso agasalhado pelo lulopetismo. A mídia peninsular repercutiu o ocorrido.

É verdade que doutor Temer tem preocupações mais prementes. Mas há que se levar em conta que o presidente não trabalha sozinho: o governo federal é estofado por milhares de funcionários, entre assessores, ministros, secretários e outros auxiliares. Se a «última palavra» cabe ao presidente, por que tergiversar e postergar?

Nunca é tarde demais pra corrigir uma (das inúmeras) trapalhadas do ‘filho do Brasil’. Que doutor Temer mande preparar a papelada e assine embaixo. Com esse gesto, estaremos livres de um delinquente. Já temos suficientes malfeitores nacionais, não precisamos de bandidos importados. De quebra, o gesto servirá como desagravo à Justiça italiana, insultada pelo Lula.

Onde vão parar nossos impostos

José Horta Manzano

Todos os cidadãos têm direito de saber como é utilizado o imposto. Afinal, somos nós que ‒ através de impostos, taxas, tributos e emolumentos ‒ financiamos o país. É legítimo que nos sejam dadas contas do destino de nossa contribuição para o bem comum.

Restaurant Grand Véfour, Paris

Restaurant Grand Véfour, Paris

A Procuradoria-Geral da República acaba de contribuir para o esclarecimento do contribuinte ao tornar pública a denúncia contra senhor Cunha, presidente da Câmara. O homem é acusado de corrupção, evasão de divisas, ocultação de patrimônio e outros delitos do gênero.

Durante anos, o político manteve, principalmente na Suíça, dezenas de contas bancárias abastecidas com somas polpudas por caudaloso propinoduto. Essa cachoeira de propinas é o caminho paralelo pelo qual escoa parte dos impostos que o distinto leitor costuma pagar. É dinheiro subtraído ao erário e desviado para o bolso de ladrões.

Restaurant Guy Savoy, Paris

Restaurant Guy Savoy, Paris

Em rápida passagem de cinco dias por Paris, ano passado, Senhor Cunha torrou milhares de dólares. Numa refeição no restaurante Grand Véfour, gastou 1200 dólares. Em outro ágape gastronômico no afamado restaurante Guy Savoy, foram mais 1300 dólares. Para dormir ‒ que ninguém é de ferro ‒ a despesa chegou a 15800 dólares no ultraluxuoso Hotel Plaza Athénée, perto de sessenta mil reais.

Nas festas de fim de ano 2012-2013 passadas na Florida, esse senhor, cujo salário não chegava a 18 mil reais, desembolsou quantias ainda mais elevadas. Entre hotel, restaurantes e lojas de grife, foram 170 mil reais no cartão de crédito.

Hôtel Plaza Athénée, Paris

Hôtel Plaza Athénée, Paris

Estamos falando do terceiro personagem da República, o segundo na linha de sucessão da presidência. Caso dona Dilma e o vice saiam de cena, o leme do barco será entregue a ele. A perspectiva é afligente, embora não destoe no cenário ao qual estamos acostumados.

Reproduzo abaixo um trecho de artigo de Guilherme Fiuza, publicado no jornal O Globo deste 12 março 2016.

«O Brasil disse ao filho do Brasil: “Meu filho, um dia tudo isso será seu”. Até os pedalinhos de Atibaia já sabem que o herdeiro tomou posse de tudo.

Solidário, pegou a maior empresa de papai e despedaçou-a para enriquecer a família e os amigos. O filho do Brasil não pensa só em si. Seus filhos — os netos do Brasil — enriqueceram também. E seu compadre, seu advogado, sua amante, seu churrasqueiro, seus amigos de fé, seus correligionários, enfim, todo mundo se deu bem, porque o patrimônio de papai era colossal. Mas, e os brasileiros? Ora, esses são filhos da outra. Todo mundo sabe que o Brasil só teve um filho.»

Valei-nos, São Benedito!