Rindo da desgraça

José Horta Manzano

A pandemia tem causado stress no mundo todo. Mas a pressão não é uniforme e pode variar conforme as circunstâncias específicas de cada país. Na maior parte da Europa, o que mais tem chateado são os intermináveis períodos de confinamento. As autoridades não têm sido nada camaradas nesse aspecto. Quando decretam um confinamento, não brincam em serviço. A ordem é para a população permanecer em casa mesmo.

Pra sair, precisa levar no bolso uma atestação indicando o motivo da escapada. São poucas as razões aceitas. Entre elas: ir ao (ou voltar do) trabalho, ir ao (ou voltar do) médico, dar assistência a alguém entrevado ou doente, espichar as pernas num raio de 1km em volta da residência durante meia hora. O atestado só vale para uma saída e tem de estar preenchido e assinado antes de eventual controle. Caso o cidadão seja abordado e o atestado falte, a multa chega a R$700; reincidentes pagam o dobro. Não é mole.

Muitos fatos novos apareceram este ano, para os quais não havia palavras. O povo tratou logo de inventá-las. Algumas são mostrengos, mas há pequenas pérolas de inventividade. Em balanço de fim de ano, a mídia de língua francesa (França, Suíça, Bélgica e Canadá) destacou algumas expressões. Algumas são novas, enquanto outras, antigas, passaram a ser intensamente utilizadas.

covid          covid
coronavirus    coronavírus
quarantaine    quarentena
antimasque     antimáscara(os que se opõem à máscara)
antivax        antivacina
isolement      isolamento
faux positif   falso positivo
faux négatif   falso negativo
présentiel     presencial
coronapéro     aperô virtual(happy hour sem contacto)
bulle sociale  bolha social
distanciel     distancial
confinement    confinamento
déconfinement  desconfinamento

A casa editora do Robert, dicionário tão popular quanto nosso Aurélio, também entrou na dança. Incentivou o público a inventar palavras para descrever realidades trazidas pela epidemia. Normalmente, é malvisto criar palavras por conta própria. Neste caso, no entanto, visto que é o respeitado Robert que autoriza, ninguém será criticado.

Já há centenas de sugestões de leitores. A maioria são intraduzíveis, por serem composições de palavras. Umas poucas aguentam a transposição para nossa língua. Por exemplo, mascourir (=mascorrer), que é quando a gente volta pra casa correndo porque se esqueceu de pôr a máscara obrigatória. Ou ainda as reuniões de hydroalcooliques anonymes (=alcoolgélicos anônimos); o trocadilho é atroz, mas o resultado é simpático.

Tem mais uma que me diverte. Os franceses criaram a expressão gestes barrière (=gestos barreira) para dar nome ao conjunto de providências que cada um tem de tomar para conter o alastramento da doença: usar máscara, lavar as mãos, manter distância. Alguém com espírito mais criativo sequestrou a expressão e a transformou em gestes carrière (=gestos carreira). É quando, numa reunião Zoom, o indivíduo veste uma bonita camisa para dar aos superiores a impressão de que é pessoa séria, enquanto, na parte de baixo, está de calção e chinelo de dedo.

Bem, caros amigos, o que eu contei até aqui foi o que espirrou da válvula de escape de populações conscientes de que suas autoridades estão cuidando da saúde e do bem-estar dos habitantes. Já no Brasil, as coisas não são exatamente assim. Enquanto a vacinação já começou em uma quarentena de países, não sabemos ainda nem que vacina nos será proposta. Como consequência, não temos a menor ideia de quando será iniciada a imunização dos brasileiros. Janeiro? Fevereiro? Março? Abril? Como já disse o outro, «Pra que tanta ansiedade?».

Proponho seguir o exemplo interessate dos francofalantes. Mas não precisa inventar palavras para a epidemia e seu entorno, que essas já têm nome. No Brasil, é simples. Em vez de espremer as meninges, costumamos importar o que nos vem do inglês. E engolimos tudo cru, com casca e tudo. Lockdown, homeschooling, self isolation, home office, social distancing – e o problema está liquidado.

Não. Proponho criar palavras e expressões para contar os comportamentos que povoam estes tempos estranhos. Nossa coleção de adjetivos não dá conta, por exemplo, de descrever as barbaridades cometidas por nosso presidente. Repórteres, jornalistas e analistas esgotaram o reservatório contido nos dicionários; já não há expressões suficientemente eloquentes.

Quando é que se viu, no passado, o chefe do Estado Brasileiro ser chamado (com propriedade) de idiota, apalermado, imbecil, parvo, tapado, irresponsável? Pois esses qualificativos, antes impensáveis, estão gastos de tanto ser usados atualmente. Já não bastam. Que a criatividade da nação desperte e se manifeste! Cartas para a Redação, por favor.

4 pensamentos sobre “Rindo da desgraça

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