É bom já ir

by Marília März
in Folha de S.Paulo

José Horta Manzano

Imaginem uma loja de comércio que pegou fogo. Depois do fogaréu, vem a hora do rescaldo. Limpa-se tudo e separam-se cuidadosamente artigos carbonizados de produtos ainda em estado de ser vendidos: são os salvados de incêndio.

Na semana que termina neste dia 13, o rigor de um julgamento, rígido e preparado nos conformes, foi perturbado pela explosão de vaidade de um dos julgadores que, esquecido de que a palavra é de prata e o silêncio, de ouro, autoimolou-se na fogueira das vaidades. Num surto de verborragia, deitou fora uma solitária fala de quatorze horas, na qual desafiou a lógica, destratou os colegas e insultou a inteligência dos ouvintes. Um despautério. Tentou livrar os réus da condenação, mas foi voto vencido. Há quem diga “voto vendido”, mas há controvérsia.

Entre os salvados do incêndio, está o pequeno Mauro Cid, ajudante de ordens do então presidente Bolsonaro. Coube ao rapaz o papel de bom menino, por ter sido o único a fornecer verdades importantes para a instrução do processo. Embora teoricamente condenado, na prática sai livre e solto. Foi o único.

De aplaudir é também o estoicismo dos julgadores que, apesar da ameaça bem real de Trump de privá-los de visto, de conta bancária e de cartão de crédito, não se encolheram e enfrentaram de peito aberto. (Não foi o caso de Luiz Fux, que preferiu o caminho da desonra.)

Entre os artigos carbonizados, está o próprio Bolsonaro. Por mais que seus defensores reclamem, gritem, esperneiem e se apliquem a requerer habeas corpus, revisão de processo e quejandos, não hão de conseguir mexer na essência. Uma condenação a 27 anos de cadeia, ainda mais pronunciada pelo STF, não é bagatela.

Em termos práticos, Bolsonaro, mesmo sem a sentença ter transitado em julgado, está preso. Em prisão domiciliar, é verdade, mas de lá não deve sair. Trancado e incomunicável, não tem como açular sua malta. Dele, estamos livres. Espera-se que nos deixe tranquilos para sempre.

Vêm aí as eleições. Já sabemos que a urna não emitirá papelzinho (pra ser mostrado ao patrão). Será eletrônica, como estamos acostumados. Tirando os Bolsonaros menos perturbadores, que costumam visar a vereança, não devemos ter nenhum dos dois graúdos na cédula. Um porque está preso; o outro, porque não vai ousar voltar para o Rio, vai continuar nos EUA. Meio sem ter o que fazer, é verdade.

Não se sabe ainda quais serão os nomes que enfrentarão Lula. Em todo caso, três ou quatro governadores, que estão de olho gordo no Planalto, já perderam meu voto. Foram aqueles que defenderam Bolsonaro e, ao mesmo tempo, atacaram o STF. São também aqueles que prometeram conceder indulto presidencial a Bolsonaro. Entre eles, estão Tarcísio, Zema, Caiado, Ratinho Jr.

É bom que apareça alguma figura menos interesseira, se não vamos ter de votar no Lula de novo. Ui!

Os malfeitos de lá e os daqui

José Horta Manzano

Meio século atrás, os chineses viviam como os europeus da Idade Média. Miséria, repressão, ascensão social improvável, nítida distinção entre a casta dos poderosos e a ralé. Era um «nós & eles» real e pra valer, longe do antagonismo que o marketing do Planalto tenta instaurar artificialmente entre nós.

Casamento 5Embora ainda estejam longe de chegar à homogeneidade social dinamarquesa ou ao PIB per capita luxemburguês, os chineses já deram passos decisivos na estrada civilizatória. A cada ano, milhões de cidadãos deixam a Idade Média para ensaiar os primeiros passos no mundo atual.

Vêm todos com sede – falo em sentido figurado. Há demanda represada em todos os campos: consumo, educação, turismo, liberdade de expressão. Como outros povos, também os chineses sentem fascínio pelo Velho Continente, particularmente pela França.

Faz já alguns anos que a cidade de Tours se especializou em receber jovens chineses cujo sonho é casar na França, noiva de véu e grinalda (como Esmeralda), beijinho (costume desconhecido na China), fotos de lembrança diante do château e em companhia do prefeito. Entre parênteses: na França, casa-se na prefeitura. O oficiante é o prefeito em pessoa.

Dois anos atrás, o prefeito de Tours foi acusado de corrupção. A polícia civil francesa descobriu que a agência de turismo contratada para organizar a vinda dos casais chineses pagava propina para manter exclusividade.

Monsieur Jean Germain, o prefeito, jurou de pés juntos que não tinha conhecimento de nenhum desvio de dinheiro. Se algum malfeito pudesse estar acontecendo só podia ser à sua revelia. Mas a máquina judicial estava em movimento, que fazer? Apesar de o homem continuar negando toda implicação, a investigação continuou.

Casamento 3Homem de comprovada honestidade, Monsieur Germain, de 67 anos, tinha sido prefeito de Tours durante 19 anos consecutivos – sem contar seu mandato de senador, que na França é permitido acumular mandatos. Aos poucos, foi-se descobrindo que o culpado mais provável pela falcatrua não era bem o prefeito, mas uma auxiliar dele, uma chinesa de Taiwan. Era ela, que gozava da confiança do chefe, quem cuidava da vinda dos chinesinhos e da organização dos casamentos. Se trapaça houve, convinha olhar pro lado da assessora.

O total desviado é calculado em cerca de 600 mil euros (menos de 2 milhões de reais). O início do julgamento estava marcado para a manhã de ontem, 7 de abril. Na hora marcada, todos os atores estavam presentes, só faltava o acusado principal. Passaram-se os minutos. No início, imaginou-se que o homem estivesse apenas atrasado. Não era bem assim.

Casamento 4Após rápida busca, a polícia descobriu o prefeito na garagem de casa. O homem tinha posto fim a seus dias. Uma carta manuscrita explicava as razões do gesto. Dizia que, como homem político honrado, Monsieur Germain não conseguia mais suportar a exposição midiática e o olhar de reprovação de seus eleitores por atos que ele não havia praticado.

Fiquei pensando nos acusados de mensalões e petrolões brasileiros. Apesar de abundantes provas, nenhum deles jamais admitiu ter cometido malfeitos. Nenhum tampouco pareceu incomodado de ser exposto como criminoso.

Pra você ver, distinto leitor: nem todos reagem de maneira uniforme diante da desonra. Se assim não fosse, haveria uma penúria danada de políticos no Brasil.

Sinto vergonha de mim

Cleide Canton (*)

Sinto vergonha de mim
por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Fonte: site da escritora

Fonte: site da escritora

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade”
em caminhos eivados de desrespeito
para com o próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos floreios para justificar
atos criminosos,
Bandeira chorandoa tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre “contestar”,
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer…

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.

Bye bye BrasilNão tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei minha Bandeira
para enxugar meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!

(*) Cleide Canton é educadora, advogada, escritora e poeta
www.cleide.poeta.ws/