A violência política e a violência doméstica

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Augagneur 4Assistindo aos últimos debates e propagandas eleitorais, consegui obter uma compreensão mais profunda das razões que levam uma mulher agredida por seu companheiro a não registrar queixa numa delegacia – ou mesmo a retirá-la após ter dado entrada a um boletim de ocorrência.

Assoberbada pela confusão de sentimentos que experimenta a cada dia – as boas lembranças do tempo da sedução, da corte e dos primeiros dias de convivência confrontadas com o dolorido assombro diante da transmutação do comportamento do parceiro – ela começa a se indagar se o problema não estaria, afinal, dentro dela mesma.

‘Augagneur 3Dedo podre’ para apontar o homem que vai acompanhá-la em sua jornada, talvez alguma falha em seu perfil físico ou psicológico que afaste candidatos mais qualificados ou até, quem sabe, alguma dificuldade emocional para acolher os defeitos de outras pessoas.

Hesitante, sem conseguir decifrar o enigma, ela resolve dar mais um tempo para que as coisas se acalmem. Depois – pensa – se eu decidisse levar tudo a ferro e fogo, minha vida provavelmente sofreria uma mudança radical. Mudança de residência, problemas financeiros graves, imagem social arranhada e, pior, o medo diante dos enormes obstáculos para convencer o atual parceiro a se afastar em definitivo e abrir espaço para uma possível aproximação com novos companheiros.

Augagneur 1No núcleo de toda a situação, a incapacidade de apostar todas as fichas em seus próprios valores e desejos. A impossibilidade de projetar um futuro em que eles reinariam absolutos. A descrença no seu próprio poder de realização.

Assim, entre um futuro incerto que carrega consigo a obrigação de sair da zona de conforto e outro com o qual já se está habituado, a escolha recai, no mais das vezes, no desejo de preservar o que já se conquistou – sem qualquer forma de reflexão a respeito da possibilidade de conquistar ainda mais.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Ilustrações: Jean Augagneur, desenhista suíço

Língua de gente para gente

Dad Squarisi (*)

Blabla 2«Que língua é essa?» A questão procede. Jovens e adultos de Europa, França e Ceilândia sentam-se diante da telinha. Indecisos, sem saber a quem dar o voto, esperam luzes do programa eleitoral. Quem aparece? Ela, Dilma.

A presidente fala em «propostas que criam política de Estado», diz que as medidas «não significam justiça sumária. O contraditório deve estar presente», cita «certas iniciativas que tramitam no Congresso».

Olha quem vem lá. É Salve Jorge. O homem jura que «a melhor saída é precificar o carbono». E segue, impávido colosso. Marina? Séria, promete «reduzir os preços administrativos».

Aécio, sorridente, se dispõe a «ampla discussão alternativa ao fator previdenciário». Fala em «força capaz de transformar indignação em mudança». Promete «experiência de 30 anos de vida pública honrada».

Na estrada 20A turma suspira. Sente saudade dos políticos de tempos idos e vividos. Cadê Lacerda, Getúlio, Brizola, Tancredo? Eles não se dirigiam a câmeras, mas a pessoas de carne e osso.

De olho em Marias, Paulos, Josés e Chicos, davam recados que todos queriam ouvir: «Ninguém pode morar debaixo da ponte. Ninguém pode viver sem emprego. A barriga não espera».

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.