Curra

José Horta Manzano

Só quem tem por volta de 80 primaveras, daí pra mais, pode se lembrar de um fait divers que chocou o Brasil em julho de 1958. Era uma época em que escândalos costumavam ocorrer e morrer entre quatro paredes sem que ninguém ficasse sabendo.

Mãe solteira, por exemplo, havia menos que hoje. Uma vez a moça engravidada, o normal é que terminasse em casamento, de bom grado ou à força. E era bom que fosse rápido, antes que o vestido começasse a encurtar.

Era um Brasil mais pobre, mais apegado a imposições da Igreja, talvez mais hipócrita que atualmente. Se era melhor ou pior que hoje? Tudo é relativo, mas uma coisa é certa: a solidariedade, que a pobreza favorece, estava mais presente. A família era ampla e incluía numerosos irmãos e irmãs, primos, tios e tias, agregados, padrinhos. Essa roda de gente era um ponto positivo, mas, ao mesmo tempo, o controle social exercido por esse largo círculo era forte, nem sempre fácil de suportar.

Foi nesse ambiente que se armou o drama de 1958, no bairro de Copacabana, Rio de Janeiro. Aída era uma jovem de 18 anos, ingênua e virgem como convinha naquele tempo. Num fim de tarde, voltando a pé da escola para casa, foi abordada por dois ou três rapazes do tipo “filhos de papai”, que se distinguiam pelo blusão de couro e óculos usados de dia e de noite, com lentes em geral escuras, armação preta espessa. O protótipo de como se imaginava a terrível ‘juventude transviada’.

O mais afoito chamava-se Ronaldo. Convidou-a para uma visitinha num apartamento situado no prédio ali ao lado. Aída recusou e fez menção de ir embora. Para impedi-la de partir, o rapaz tirou-lhe das mãos um objeto e saiu andando na direção do tal prédio. Aída, que precisava do tal objeto, não teve outro remédio se não seguir o moço, implorando-lhe de devolver o que tinha roubado. Uma vez passada a porta de entrada do edifício, auxiliados pelo porteiro (que era cúmplice do estratagema), subiram todos à laje superior, localizada na altura do 12° andar.

A sequência dos acontecimentos, quem nos fornece é a polícia do então Distrito Federal. Horas mais tarde, um corpo de mulher semidespida foi encontrado na calçada, jazendo numa poça de sangue. A moça era Aída. Chamada para constatações, a polícia científica concluiu que a jovem tinha sido primeiro currada(1), em seguida atirada da mureta da laje, no 12° andar. A marca do solado de suas sandálias ao longo do muro exterior do edifício excluía a hipótese de Aída ter dado um salto voluntário.

Seguiram-se processo, recurso, novo processo. David Nasser, conhecido jornalista, utilizou o espaço de que dispunha semanalmente na revista O Cruzeiro – a de maior circulação no país – para acusar o ‘playboy’ Ronaldo e seu comparsa, com argumentos, provas, evidências, testemunhos. Todo o poder da comunicação foi utilizado em favor da memória da infeliz vítima. O libelo durou semanas e meses. Não adiantou.

A mentalidade do Brasil de 70 anos atrás ainda estava longe de desabrochar. Assuntos como esse tinham sempre o mesmo pré-julgamento popular: em casos de estupro, a mulher era sistematicamente culpada. Se ela subiu ao 12° andar com os rapazes, foi porque quis. Afinal, tinha 18 anos e devia saber o que estava fazendo. Os curradores foram condenados por atentado violento ao pudor, mas foram absolvidos da pior acusação, a de homicído.

Estes dias, lembrei muito desse caso. O que aconteceu algumas semanas atrás, na mesma Copacabana, quando uma jovem da idade de Aída foi atraída para uma emboscada e currada por quatro bostinhas, guarda certa semelhança com o caso de 1958. Muito felizmente, o caso não terminou em homicídio. Acabou com os quatro criminosos marchando calmos em direção ao elevador, burocraticamente consultando mensagens e notificações ao celular.

Por enquanto, estão na cadeia. Em vez de blusão de couro, vestem bermudão. Em vez de botinas lustradas, calçam chinelo de dedo. Em vez de óculos de sol, abrem os olhos descaradamente, como se dissessem: “E aí, vai encarar?”.

Um dia, serão julgados. A sentença demonstrará se as peripécias que nosso país atravessou nesses 70 anos terão valido a pena. A mansuetude dos juízes para com esses rebentos, nascidos bem mas criados mal, continuará a mesma de 1958?

Currada(1)
Particípio passado do verbo currar. É termo que entrou em obsolescência, segundo o Houaiss. Até pouco tempo atrás, era usado para descrever o que hoje se diz “estupro coletivo”, um atentado ao pudor feminino cometido por uma associação de dois ou mais criminosos, com uso de coerção e violência.

A palavra currar não era tabuísmo, antes, podia ser pronunciada diante de senhoras. Talvez o receio de que pudesse ser percebida como vulgar seja responsável por sua substituição por “estupro coletivo”, expressão cujo som despretensioso parece diluir a culpa do ato abominável entre os diversos participantes.

República racial

José Horta Manzano

As selvas te deram nas noites teus ritmos bárbaros,
Os negros trouxeram de longe reservas de pranto,
Os brancos falaram de amores em suas canções,
E dessa mistura de vozes nasceu o teu canto.
Brasil…

Em 1941, numa época em que andavam de moda os sambas em estilo exaltação, Alcyr Pires Vermelho e David Nasser assinaram a composição Canta, Brasil. Era um tempo em que o Brasil fazia questão de cantar em prosa e verso seu destino de caldeirão de raças. Num momento em que judeus e ciganos eram chacinados na Europa e negros viviam em estado de semiescravidão na África colonial, a miscigenação nacional era fator de orgulho. As canções populares faziam menção expressa à mistura de etnias sem deixar transparecer um grama de preconceito ou supremacismo. Bons tempos.

De lá pra cá, o panorama evoluiu, embora nem sempre na boa direção. A mulata assanhada que passava com graça cedeu lugar a feriado em que se celebra a Consciência Negra, com direito a passeata. Onde, antes, a convergência parecia o destino natural, temos hoje a delimitação de territórios, cada vez mais acentuada. Caminhamos a passos largos para nos tornar um Estado racialista, compostos de etnias compartimentadas, marcadas, etiquetadas e estanques. É pena.

Na França, não existem estatísticas oficiais sobre pertencimento étnico ou cor da pele dos habitantes. Uma lei de 1978 pune quem recolher e publicar esse tipo de informação com cinco anos de prisão e 300 mil euros de multa. Existem sondagens, aproximações, suposições, isso sim. Recenseamentos indagam sobre nacionalidade, lugar de nascimento, país de origem dos antepassados, mas jamais sobre raça, etnia, cor ou religião.

No Brasil, a mui oficial Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio acaba de revelar que o número de cidadãos que se declaram pretos cresceu 15% em quatro anos. Os autodeclarados pardos são hoje 6,6% mais numerosos que quatro anos atrás. Por seu lado, os que se consideram brancos decresceram 2% no mesmo período. Esses resultados permitem duas explicações, ambas preocupantes.

A primeira explicação é pouco elogiosa e aponta para o oportunismo de parte da população. Indicaria que determinados cidadãos, ao dar-se conta de que negros e pardos têm o direito de se encaixar em quotas e obter certas vantagens, bandearam-se para a etnia mais proveitosa. Se for realmente isso, é alarmante. Os que fizeram isso, ou mentiam antes, ou mentem agora.

Stop racismo!
Crédito: harrycutting.com

A segunda explicação, talvez mais plausível, confirmaria o que afirmei antes, que o Brasil está-se tornando um país racialista. Compelidos pelo Zeitgeist ‒ o espírito do tempo ‒, cidadãos se autoexilam de bom grado numa comunidade distinta. Resignam-se em colar uma etiqueta na própria fronte. É lastimável.

Que a explicação correta seja a primeira, a segunda ou ainda uma combinação das duas, cabe a pergunta: de que valem essas estatísticas? Quando a resposta varia ao sabor do ânimo do entrevistado no momento da indagação, o valor da informação se evapora.

Desde que foram instituídos, no fim do século 19, os recenseamentos no Canadá incluíam uma pergunta sobre a «origem étnica» do entrevistado. Com o passar das décadas, a população, visivelmente irritada com a questão, passou a responder «canadense». As autoridades modificaram a questão a fim de não mais ferir sensibilidades. Taí um exemplo a ser seguido. Se me perguntassem sobre cor da pele ou origem étnica, responderia «brasileiro».

Politicamente incorreto

José Horta Manzano

Olho 1A gente imaginava que Big Brother – o Grande Irmão Controlador – fosse chegar de repente, na sequência de uma revolução. Os tempos atuais mostram que não é bem assim. Mudanças não caem do céu da noite pro dia. As novas modas vêm sorrateiras, de mansinho, e vão-se insinuando sem que ninguém se dê conta. Quando se abre o olho, o mundo já mudou. Sem avisar.

Houve tempo em que a gente podia falar como quisesse, usar as palavras e expressões que bem entendesse, com uma única exceção: palavrão. Nome feio não podia ser pronunciado na presença de gente de respeito. Fora isso, cada um podia falar como lhe agradasse.

Hoje já não é mais assim, como bem sabem meus distintos leitores. Certas palavras e certas expressões entraram para o índex, tornaram-se tabuísmo. A lista engrossa cada dia mais. E ai de quem tropeçar! Não se arrisca a levar um pito – periga ser processado ou, pior ainda, pode acabar preso.

Remexendo na memória, encontrei meia dúzia de músicas que, embora tenham feito grande sucesso em seu tempo, não poderiam mais ser lançadas hoje. Seus autores teriam sérios problemas.

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Anjos do Inferno

Anjos do Inferno

Boneca de pano (1950)
de Assis Valente (1907-1958)
Gravada por: Quatro ases e um coringa
Gravada por: Demônios da garoa

Trecho politicamente incorreto:
Um dia alguém a chamou de boneca
E ela, sendo mulher, acreditou

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Lamartine Babo

Lamartine Babo

O teu cabelo não nega (1931)
de Lamartine Babo (1904-1963) e Irmãos Raul e João Valença
Gravada por: Castro Barbosa

Trecho politicamente incorreto:
O teu cabelo não nega, mulata,
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata,
Mulata, eu quero teu amor

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David Nasser

David Nasser

Nega do cabelo duro (1941)
de David Nasser & Rubens Soares
Gravada por: Anjos do Inferno

Trecho politicamente incorreto:
Nega do cabelo duro
Qual é o pente que te penteia
(…)
‘Mise-en-plis’ a ferro e fogo
Não desmancha nem na areia

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Dircinha Batista

Dircinha Batista

Mulher que é mulher (1953)
de Klécius Caldas & Armando Cavalcanti
Gravada por: Dircinha Batista

Trecho politicamente incorreto:
A mulher que é mulher
Não deixa o lar à toa
A mulher que é mulher
Se o homem errar, perdoa.

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Jorge Goulart

Jorge Goulart

Cabeleira do Zezé (1964)
de João Roberto Kelly & Roberto Faissal
Gravada por: Jorge Goulart (1926-2012)

Trecho politicamente incorreto:
Olha a cabeleira do Zezé
Será que ele é? Será que ele é?
(…)
Parece que é transviado
Mas isso eu não sei se ele é
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!

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Linda Batista

Linda Batista

Nega maluca (1950)
de Evaldo Rui & Fernando Lobo
Gravada por: Linda Batista (1919-1988)

Trecho politicamente incorreto:
Tava jogando sinuca
Uma nega maluca me apareceu
Vinha com um filho no colo
E dizia pro povo
que o filho era meu
(…)
Até parece castigo
Ou então é influência da cor

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