Rapidinha 8

José Horta Manzano

Nem bem aconteceu, o impressionante acidente ocorrido esta tarde nas obras do estádio Itaquerão já repercutiu em todos os sites de informação da Europa.

Alguns simplesmente deram a notícia. Já outros aproveitaram a deixa para reiterar, de maneira nem sempre discreta, suas críticas ao modo como vem sendo preparada a Copa-14.

O site britânico UK.Eurosport, de modo especial, botou no papel o receio ― que é de todos, no fundo ― de que a organização da Copa seja problemática.

Se você quiser dar uma olhada, estão aqui:

UK Eurosport, Reino Unido

Tages Anzeiger, Suíça

La Gazzetta dello Sport, Itália

20 minutes, França

Süddeutsche Zeitung, Alemanha

Pelo buraco

José Horta Manzano

Até não faz muito tempo, representantes das altas esferas enchiam a boca para afirmar que havíamos chegado ao Primeiro Mundo. Que nos tínhamos tornado grande potência. Que o atendimento médico estava próximo da perfeição. Que as rodas de um mágico trem-bala estariam silvando antes da Copa-14. Que o Rio São Francisco, tripartido, já estaria por estas alturas mitigando a sede de desolados ermos nordestinos. Houve até quem acreditasse.

Interligne 23

Havia um cômico brasileiro, cujo nome agora me escapa ― poderia bem ser Jô Soares, mas não posso garantir ― que, tempos atrás, recitava o bordão: «Ah, mas isso aí foi o antes, depois houve o durante, agora estamos no depois!». Pois é, os devaneios megalomaníacos do Planalto eram o antes. O durante já está passando. Estamos chegando ao depois. O que restou do sonho não é lá flor que se cheire.

Semideuses na cadeia. Parlamentares algemados. Escândalos federais, estaduais e municipais se sucedendo feito cachoeira. Dólar que sobe, real que desce, inflação que assusta, criminalidade que se banaliza.

Interlagos ― Cuidado, buraco na pista! Crédito: Eduardo Knapp, Folhapress

Interlagos ― Cuidado, buraco na pista!
Crédito: Eduardo Knapp, Folhapress

A Folha de São Paulo deste 21 de novembro traz uma inacreditável informação, indigna de um país que está às portas de organizar eventos planetários como Copa do Mundo e Jogos Olímpicos. A pista de Interlagos, que deve ser palco, daqui a 3 dias, da última corrida desta temporada da prestigiosa Fórmula 1, apresenta um buraco no asfalto. Não acredita? Pois leia a reportagem e veja a foto. A panela tem 15 centímetros de diâmetro, mas, segundo os organizadores do evento, não interfere na corrida(!). Fico aqui imaginando um daqueles bólidos, lançado a 300km/h, que, desgovernado, caia na panela. É melhor não pensar no que pode acontecer.

Não se consegue disfarçar a realidade por muito tempo. Infelizmente, nosso País não está conseguindo sustentar a imagem de grande potência que tentou projetar. Os fatos se encarregam de desmentir bravatas e desfazer ilusões.

Do jeito que a coisa vai, ninguém pode garantir que o Brasil continue a fazer parte do circuito mundial da Fórmula 1. Nossa homologação periga escorrer pelo buraco. Uma eliminação seria vergonhosa.

Insistir pra quê?

José Horta Manzano

Susana Werner, mulher do goleiro da seleção brasileira de futebol, foi vítima de assalto à mão armada, em Fortaleza. Ficou feliz por ter saído com vida.Interligne 07

Manifestantes tentaram invadir o Hotel Bahia, em Salvador, onde está hospedada a comitiva da Fifa. A Polícia Militar conseguiu segurar a turba que, enfurecida, depredou dois ônibus dedicados ao transporte dos cartolas.Interligne 07

A delegação espanhola teve dinheiro e objetos furtados de seus aposentos no hotel em que se hospedavam, no Recife. Que fique bem claro: não era a pensão de dona Mariazinha. Que fique mais claro ainda: os espanhóis são os atuais detentores do título de campeões do mundo ― portanto, o time mais visado e o que deveria, em teoria, ter sido mais bem protegido.Interligne 07

Um jogador uruguaio declarou, em entrevista coletiva, que o Brasil tem muito a melhorar para a Copa-14. Lúcido, disse que, caso os aborrecimentos de que sua delegação foi vítima, tivessem ocorrido com uma seleção europeia, o reclamo teria tido repercussão bem maior.Interligne 07

Os enviados especiais da Folha de São Paulo confirmam que, embora a Fifa não esperasse uma organização perfeita ― só faltava! ― a magnitude dos problemas está além do pior cenário imaginado. Os cartolas estão apavorados.

Antes da Copa das Confederações, os dirigentes da Fifa já se tinham conformado com muitos dos males brasileiros endêmicos. Corrupção, desorganização, promessas e prazos não cumpridos. Tudo isso já estava mais ou menos previsto e, bem ou mal, assimilado. No entanto, não contavam com o desencadeamento de um clamor popular impossível de reprimir. Sejamos sinceros, ninguém imaginava o que estava por acontecer.

Essa mistura explosiva de desorganização e violência está causando problemas pesados. A Fifa está-se vendo obrigada a negociar com as delegações estrangeiras a fim de convencê-las a não abandonar o País antes do final desta copinha.Interligne 07

Quando se faz uma besteira, o melhor caminho é ser honesto, reconhecer o erro e, parodiando mestre Vanzolini, dar a volta por cima. Na era em que o Lula mandou no País, asneiras grossas foram cometidas. Algumas são já irreparáveis, outras ainda não estão consumadas.

ChangeBrazil

ChangeBrazil

A questão da manutenção da Copa-14 no Brasil está sobre a mesa. Chegamos a um ponto em que as autoridades competentes deveriam parar para refletir. À vista do ensaio geral a que estamos assistindo estes dias, fica a pergunta: ainda vale a pena insistir em hospedar a próxima Copa? Não valeria mais a pena parar por aqui e deixar o abacaxi para quem se dispuser a descascá-lo?

Há países prontos para receber o evento: Alemanha, Reino Unido, Itália são alguns deles. Dispõem todos de infraestrutura adequada, vasta e bem azeitada rede hoteleira, transportes organizados.

Faz dez dias que o planeta inteiro descobre, boquiaberto, que o povo brasileiro não está tão feliz como o marketing político vinha martelando estes últimos anos. Todos conhecem agora a incompetência das autoridades brasileiras para organizar dignamente um evento de importância média, como essa copinha. A Copa de verdade é um desastre anunciado.

ChangeBrazil

ChangeBrazil

Que se desista agora, antes que seja tarde demais! Não há por que envergonhar-se: a indisciplina, a corrupção e a incompetência já caíram no domínio público planetário, não dá mais para esconder.

Resta estancar a sangria. E, quanto mais rápido, melhor.

Vexame anunciado

José Horta Manzano

Quanto mais importante for a pessoa, maior será o respeito com que a tratarão. Uma pessoa importante é vista como modelo. É às vezes até seguida como guru.

Como se costuma dizer, não existe almoço grátis: tudo tem sua contrapartida. O figurão importante tem de retribuir a deferência com que é tratado. Tem de dar o bom exemplo, mostrar o caminho certo a seus seguidores. Desgraçadamente, não é sempre assim que acontece.

Estádio Maracanã

Estádio Maracanã

A presidência da República é, sem sombra de dúvida, um cargo elevado. Foi ocupado, até recentemente, por um personagem peculiar. Esperto, soube explorar ao máximo o espírito paternalista que rege nossos costumes. Distribuiu mimos, presentes e agrados aos que o rodeavam. Se deu bons exemplos e deixou um rastro de conduta ética… a História não registrou.

Em contrapartida de sua prodigalidade para com os mais chegados, pôde sempre contar com uma corte fiel, formada por gente que, ao sair da sala do chefe, suponho chegasse a caminhar para trás, a fim de nunca dar as costas ao pater familias. Viveu seus anos de glória cercado por uma corte de áulicos, todos de olho firme nas vantagens pessoais que pudessem auferir da proximidade com o rei.

A palavra de ordem era nunca contrariá-lo. Por mais asneiras que ele dissesse ou cometesse, era importante sempre concordar, elogiar e aplaudir. Assim foi quando, em sua ingenuidade, o antigo presidente fez o que pôde ― e até o que não devia ― para conseguir que o Brasil fosse designado como sede da Copa do Mundo de futebol de 2014. Deve ter-lhe soado como a coisa mais importante que poderia ocorrer em nosso País.

Recuso-me a acreditar que, entre os membros da corte, não houvesse alguns mais instruídos e mais realistas. Esses, justamente, devem ter-se dado conta de que imensos problemas nos esperavam. Hão de ter entendido que o empreendimento esbanjaria o dinheiro de um povo que já não possui muito. Podem até, sabe-se lá, ter percebido que aqueles bilhões todos poderiam ser mais bem empregados em aperfeiçoar nossa decrépita infraestrutura. Devem ter sentido que aquela dinheirama seria mais rentável se investida na Instrução Pública. Mas assim mesmo, ai!, aplaudiram a genial ideia do guia. Como é que ninguém tinha pensado nisso antes?

Só os tolos acreditaram que a organização de tal evento se faria sem trapalhadas, trambiques, erros e contratempos. Só por grande ignorância ou pesada má-fé poderia alguém acreditar que as coisas iam funcionar no Brasil da mesma maneira que costumam funcionar em país organizado. Sabemos que não é assim.

Um exemplo? Em 2011, um ano antes do início dos Jogos Olímpicos de 2012, Londres já estava dando os retoques finais à estrutura que ia receber o evento. Tudo estava praticamente pronto.

Estádio Corinthians

Estádio Corinthians

Em 2013, a um ano da Copa do Mundo e às portas da Copa das Confederações, a triste realidade tupiniquim vai-se encancarando. Estádios não ficarão prontos. Linhas de transporte expresso não foram construídas. A infraestrutura aeroportuária continua na mesma indigência dos tempos do “relaxa e goza”.

E pensar que esse investimento poderia ter sido destinado a elevar o nível do ensino público do País, melhor maneira de despachar para a lata de lixo da História o vexaminoso sistema de quotas.

Enquanto sonhamos com dias melhores, vamo-nos preparando para o fiasco. Aos olhos do mundo, passaremos do estatuto de republiqueta de bananas direto para o de ex-país emergente.

O Estadão nos dá conta do desastre que se prepara. Aqui.

A Folha de São Paulo vai pelo mesmo caminho. Aqui.

Curso de inglês grátis

José Horta Manzano

Você sabia?

Na França, há uma estação de rádio de informação contínua, que irradia durante 24h por dia. Difunde um jornal completo a cada meia hora e repete as manchetes a cada quinze minutos.

No meio dessa enxurrada de notícias, sobram alguns minutinhos aqui e ali, que são recheados com entrevistas curtas e outras amenidades. Aos sábados, quando o perfil dos ouvintes se modifica, até receitas culinárias são apresentadas.

Todas as manhãs, dois minutos são reservados a Jean-Pierre Gauffre, que tece uma crônica sobre algum acontecimento do momento. O homem é humorista fino. Sua arte está a milhas de distância do humor escrachado e escatológico que costuma dominar os espetáculos destinados a provocar o riso. Enfim, a cada artista, seu público. E vice-versa.

O tema de hoje girou em torno das aulas grátis de inglês e de espanhol que o Senac de Belo Horizonte está oferecendo. Trata-se de um curso básico dirigido especificamente às prostitutas da cidade. A intenção é prepará-las para acolher os clientes que a Copa-14 certamente trará.

Crédito noticias.r7.com

Crédito noticias.r7.com

A notícia é verdadeira, não foi invenção do cronista. Confira no site R7 de notícias. Monsieur Gauffre trata o tema com a necessária delicadeza. Pela seriedade da elocução, parece até estar lendo uma notícia qualquer. Mas lá no fundo se percebe uma fina ironia. Ele chega a propor ao presidente da França que se inspire nesse exemplo para enriquecer programas de formação profissional contínua já existentes no país.

Se alguém se dispuser a gastar dois minutos ouvindo a crônica de hoje, o endereço está aqui. O site de France-info funciona mais ou menos como um caraoquê: o texto e voz aparecem na tela ao mesmo tempo. É prático para desempoeirar velhos conhecimentos de língua francesa.

E a gente fica aqui a matutar por que cargas d’água certas iniciativas úteis ― não falo apenas de cursos de línguas para profissionais do sexo ― são tomadas somente na iminência de eventos considerados importantes, tais como eleições, copas do mundo, visita de estrangeiros ilustres.

Um ditado resume bem a situação: limpa-se somente por onde passa a procissão. É aforismo antigo, mas continua firme e forte. Valia ontem e continua valendo hoje.