Carrefour

José Horta Manzano

Não é de hoje que as grandes redes de varejo europeias dão sinais de descontentamento com o acelerado desmatamento da Amazônia. O problema está ‘dans l’air du temps’ (em sintonia com a atualidade). Na França, país em que qualquer pequeno acontecimento tem potencial de gerar grande polêmica, esse problema do rápido encolhimento da mata tropical é ressentido com maior intensidade.

Nestes dias em que o tratado entre o Mercosul e a União Europeia parece que vai desencantar – depois de mais de 20 anos! – os agricultores franceses começam a sentir-se ameaçados. O medo deles é difuso, um tanto irracional. Está mais pra temor do desconhecido do que receio de uma ameaça real.

Nenhum deles se preocupou em ler o texto do tratado. O que planta hortaliças tem medo de ver o mercado inundado por salsinha e rabanetes uruguaios a preço de banana. O que colhe abricô está apavorado de perder mercado para os abricôs argentinos. O que está criando uma dúzia de galinhas e três porcos tem pesadelos à noite só de pensar na invasão de carne brasileira a preços de liquidação.

Não fica bem montar no trator e fazer carreatas de protesto, trancando as estradas do país, para reclamar de rabanetes e salsinha. Já a carne é excelente motivo. Inventou-se, não sei por que motivo, a balela de que a carne brasileira é produzida segundo normas de qualidade inferiores às normas francesas, e que os bois são engordados à base de hormônios. O mundo agrícola se agarrou a essa notícia falsa.

Faz semanas que o mundo agrícola francês está em ebulição. Não se passa um dia sem alguma manifestação em algum lugar. Monsieur Alexandre Bompard, diretor-geral do grupo Carrefour, farejou excelente ocasião para ficar bem-visto pelos agricultores e para, ao mesmo tempo, promover sua empresa. Mandou carta aos sindicatos agrícolas e repicou nas redes seu compromisso de não vender carne da América do Sul em seus supermercados.

O problema é que o Monsieur não mediu as consequências de sua promessa. Não lhe passou pela cabeça que sua filial brasileira é responsável por quase 25% das vendas do grupo e que a carta enviada aos sindicatos franceses podia vazar e até ecoar no Brasil. Pois vazou e ecoou.

No Brasil, o clamor popular – justificado – foi tal que o CEO logo percebeu a catástrofe que tinha causado. Mais que rápido, curvou-se e mandou uma carta de desculpas a nosso ministro da Agricultura. Na missiva, pede desculpas, elogia a carne brasileira, reconhece que as normas de produção são de Primeiro Mundo, mas não desmente a afirmação que havia feito, de que suas lojas francesas não vão mais vender carne brasileira. Portanto, ficou parecendo pedido de desculpas de mentirinha, só pra enganar ministro.

Outra coisa que Monsieur Bompard não disse é se sua empresa pretende continuar a importar costeletas de carneiro da Nova Zelândia, produzidas não se sabe como, mas que chegam às gôndolas francesas baratinhas, baratinhas.

O legado de Bolsonaro

É crescente a demanda de produtos que respeitam a floresta tropical

 

José Horta Manzano

Por certo, Bolsonaro não é o único responsável pela destruição da floresta amazônica brasileira. Desde que o primeiro índio cortou o primeiro cipó, instalou-se a convivência, nem sempre fácil, entre os humanos e a mata.

Até meio século atrás, no entanto, essa coabitação tinha sido pacífica e não-destrutiva. Até os anos 1970, o Brasil tinha outras brenhas a explorar e outros troncos a abater. Foi sob a ditadura que os estrategistas militares, então empoleirados no poder, se deram conta de que havia largos horizontes a explorar na porção norte do país.

A função primeira das Forças Armadas é a defesa do território. Nos gabinetes de Brasília, os responsáveis pela defesa das fronteiras se deram conta de que uma imensa Amazônia desabitada era um ponto frágil na proteção do país. Essa constatação está na raiz de medidas de impulso à colonização, como a construção de estradas (cf. Transamazônica) e da criação da Zona Franca de Manaus.

Nas décadas seguintes, o povoamento da região foi incentivado, o que provocou afluxo de populações provenientes de outras partes do país. Com a redemocratização, o objetivo modificou-se: em vez de defesa do território, a palavra de ordem passou a ser a exploração das riquezas. Pra explorar, é preciso antes desmatar. Daí o prosseguimento do festival de deflorestação a que assistimos há tempos.

O século 21 trouxe ventos novos, que sublinham a importância da manutenção da floresta, componente essencial da regulação do clima no sul do país e no mundo. Começaram a ser feitos levantamentos sobre o avanço do desmate. Aos poucos, a preocupação com a conservação de nosso patrimônio florestal foi ganhando adeptos entre os habitantes.

O problema é que essa consciência ecológica não chegou ao capitão que senta atualmente no trono do Planalto. Se ele fosse apenas indiferente e inoperante com relação à proteção da Amazônia brasileira, o problema não seria tão grave: quando ninguém atrapalha, as coisas acabam se ajeitando. O drama é que o presidente tem se mostrado cúmplice ativo – e até incentivador – do avanço criminoso da destruição de nossa cobertura vegetal.

Dentro de um ano, Bolsonaro, se não for escorraçado antes, estará longe do poder. É, ele se vai, mas o Brasil fica. E o panorama não se apresenta cor-de-rosa. Com sua ostensiva hostilidade a uma abordagem racional e ecológica da floresta, nos conformes com o figurino de nossa época, ele acabou chamando a atenção do planeta. Como consequência de suas palavras e gestos, o mundo acordou para os maus tratos que o Brasil dedica à parte que lhe cabe da maior floresta úmida do globo.

Na semana que se encerra, ficamos sabendo que seis grandes grupos varejistas europeus, entre os quais o Sainsbury’s (segunda rede britânica de hipermercados) e o ramo belga do gigante Carrefour (maior grupo europeu de hipermercados), começaram a restringir a compra de carne bovina brasileira. Essa medida, diretamente ligada ao desmatamento e à destruição dos biomas no Brasil, tende a aumentar com o tempo e com a pressão dos clientes. Essa meia dúzia de redes representam só um começo; o resto virá atrás.

O sucessor de Bolsonaro, seja ele quem for, tem muito trabalho pela frente. Vai ter de convencer os europeus, rapidamente, de que a deflorestação está sendo contida. Mas tem uma coisa: belas palavras não vão resolver. O território nacional está sendo vigiado por satélites que não deixam ninguém mentir. Que ninguém acredite que os grupos de hipermercados fazem essas restrições por virtude. A questão é comercial, uma exigência da clientela.