Venha não, Mister!

Correio Braziliense

José Horta Manzano

Durante duas décadas, Vladímir Putin, soberano da Rússia, acostumou-se a embarcar no avião presidencial em Moscou e descer em todas as capitais e todas as sedes de cúpulas e reuniões ao redor do globo. Os inconvenientes da frequente mudança de fuso horário sempre foram compensados pela agradável conveniência de contar com uma “suite privée” no avião, dotada do conforto máximo que um ser humano possa desejar.

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, como dizia minha avó – com um balde de razão. Calma, que ninguém se engane: apesar das sanções econômicas sob as quais vive a Rússia desde que invadiu a Ucrânia, o avião presidencial russo continua no hangar que o abriga de olhos indiscretos. O presidente se serve dele para uma ou outra viagem interna, para ir a Vladivostok, por exemplo, porque o território russo é extenso. Putin levou umas garrafas de vodka para visitar algum vizinho – Mongólia, Casaquistão – mas ao exterior de verdade, exterior no duro, não viajou mais.

O fato é que, desde março de 2023, pesa sobre a cabeça do dirigente russo uma ordem de prisão emanada do Tribunal Penal Internacional. Tirando algumas exceções (EUA, China, Rússia e alguns outros), todos os países do globo são signatários do Estatuto de Roma, que entrou em vigor em 2002. O Brasil, como todos os países das Américas (com exceção de Nicarágua, Cuba, Haiti e Estados Unidos), é signatário. A Europa inteira (com exceção da Rússia e da Bielo-Rússia) está entre os que assinaram.

Ao firmar o estatuto, cada país se compromete a respeitar as ordens de prisão emitidas pelo Tribunal Penal Internacional. Assim sendo, Putin está proibido de viajar para qualquer um dos países signatários do estatuto, sob pena de ser preso e remetido à Haia, na Holanda, sede do tribunal.

Em verde, os países signatários

De modo ignorante e inconsequente, logo no início de seu mandato, Lula declarou que Putin podia vir ao Brasil “sem medo de ser preso”. Causou um rebuliço na mídia. Por mais que seja presidente do Brasil, Lula não tem o poder de passar por cima de tratados e, principalmente, da Justiça do país, a quem cabe tratar casos dessa ordem. A coisa acabou se acalmando e Putin, naturalmente, não veio ao Brasil.

Compreendo que, depois de alguns anos sem se afastar de suas estepes geladas, Vladímir Putin esteja com uma vontade danada de ver, nem que seja da janela do hotel, uma areia branca e fina numa praia cujas palmeiras tropicais, fechando os olhos e fazendo um esforço de imaginação, a gente até consegue enxergar.

Assim mesmo, ainda que o czar de todas as Rússias não seja leitor habitual deste blogue (se bem que… não se sabe nunca), recomendo a ele pensar bem antes de embarcar em seu iate voador em direção a estas terras quentes de praias nuas.

Diferentemente do país dele, no nosso, o Poder Judiciário funciona separado do Executivo. Se há conluios nos bastidores, puede que si, puede que no, mas é melhor não contar com isso. Um improvável juiz de São Julinho da Ribanceira pode expedir mandado de prisão contra o visitante e provocar uma barafunda.

Fosse eu, não embarcaria. Por maior que seja o escândalo de prender um presidente, a palavra dada por nosso país ao assinar o tratado vale mais e tem de ser honrada. Não venha não, Mr. Putin. Se vier, é mais que provável que o senhor seja despachado direto para a Haia e… quem é que vai ocupar a “suite privée” na viagem de volta da aeronave para Moscou?

Preto no branco

José Horta Manzano

Às vezes a gente tem a impressão de que a repartição do Brasil em contingentes raciais, prática que vem sendo incentivada estes últimos doze anos, gera efeito contrário ao esperado.

Raça 1Pouco a pouco, a mente dos jovens brasileiros está sendo moldada a enxergar nosso povo como uma superposição de «etnias», «classes», «raças», «grupos», «comunidades» estanques e perfeitamente delimitadas. Ainda não chegamos lá, mas estamos no caminho.

É tremendo contrassenso que isso aconteça justamente no país mais miscigenado do mundo. Embora não seja aceitável, é compreensível que isso tenha acontecido na antiga República Sul-Africana e em antigas colônias que potências europeias mantinham em terras d’África e alhures.

Embora seja chocante, é também compreensível que isso continue acontecendo em lugares onde casamentos interraciais são quase inexistentes. França, Alemanha, Itália, Grécia, Espanha são exemplos de países em que a imigração maciça e recente de pessoas provenientes de outros horizontes vem criando tensões ligadas à formação de estratos de população que, como água e óleo, não se misturam.

A agência noticiosa AFP traz hoje um exemplo perfeito da visão que se tem no estrangeiro sobre a convivência de raças diferentes num mesmo território. Cito uma passagem da reportagem:

Interligne vertical 11a«Noire, pauvre, alphabétisée à 16 ans, récolteuse de latex et domestique à l’adolescence: la candidate écologiste à l’élection présidentielle brésilienne Marina Silva a le curriculum parfait pour devenir la première dirigeante noire du pays le plus métissé au monde.

Mais à la différence de Barack Obama, qui a obtenu 93% des voix des Noirs des Etats-Unis pour sa réélection en 2012, la co-favorite dans la course à la présidence du plus grand pays d’Amérique latine ne parvient pas à fédérer massivement noirs et métis brésiliens.

Ces derniers sont même plus enclins à voter pour la présidence sortante de gauche Dilma Rousseff, une blanche issue de la classe moyenne, et son Parti des travailleurs (PT) au pouvoir depuis 2003, dont les politiques sociales et de discrimination positive ont plus œuvré en leur faveur que quiconque depuis l’abolition de l’esclavage en 1888.»

Interligne vertical 11«Negra, pobre, alfabetizada aos 16 anos, seringueira e doméstica na adolescência: Marina Silva, a candidata ecologista à eleição presidencial brasileira, tem o currículo perfeito para tornar-se a primeira mandatária negra do país mais mestiçado do mundo.

No entanto, diferentemente de Barack Obama, que obteve o voto de 93% dos negros dos EUA quando de sua reeleição em 2012, a cofavorita na corrida à presidência do maior país da América Latina não logra obter apoio maciço dos negros e dos mestiços brasileiros.

Estes últimos estão, na verdade, mais propensos a votar em Dilma Rousseff, a atual presidente esquerdista – mulher branca proveniente da classe média – e em seu Partido dos Trabalhadores, no poder desde 2003, cujas políticas sociais e de discriminação positiva fizeram mais por eles do que tudo o que tinha sido feito desde a abolição da escravidão em 1888.»

Como meus perspicazes leitores podem se dar conta, há uma flagrante esquizofrenia tanto na visão que os brasileiros têm de seu próprio povo, como na que estrangeiros têm do povo brasileiro.

Para um estrangeiro, ainda que o Brasil seja o «país mais miscigenado do mundo», o voto será necessariamente comunitário. Para eles, é incompreensível que povo em maioria mestiço não vote em peso na candidata que, mestiça e pobre, deveria atrair seus iguais.

Quanto à maioria de nós, para desagrado da ideologia oficial, não enxergamos a coisa assim. Se negro e mestiço só votasse em negro e mestiço, não precisava nem votar. Dona Marina, que etnicamente se identifica com a maioria da população, já estaria eleita.

Felizmente, o esforço oficial destes últimos anos (ainda) não conseguiu inculcar mentalidade racista no povo brasileiro. Levantemos os braços aos céus em agradecimento, irmãos! E vamos torcer para que esse perigoso fomento de compartimentação étnica e racial seja abandonado. Quanto mais cedo, melhor.