Bolsonaro no exílio

José Horta Manzano

Fugido do Brasil e autoexilado nos EUA, Bolsonaro sopra o calor e o frio. Um dia, diz que está de malas prontas para voltar; dia seguinte, informa que o retorno não tem data marcada. Ora vem, ora não vem.

Por age assim? Acredito que basicamente é pra mostrar-se vivo. Se, além de sumir de circulação, ficasse quietinho, seria dado por morto e descartado como carta fora de jogo.

É verdade que todos os seus planos foram por água abaixo e não lhe resta nenhum mourão ao qual se agarrar. As Forças Armadas do Brasil não o acompanharam, Trump não quis saber de recebê-lo, seus aliados estão aos poucos saindo de fininha para entender-se com o Lula. A 8.000 km de distância, com medo de voltar, o que é que o capitão pode fazer além de gesticular?

Observe agora a ilustração acima. É uma montagem de fotos extraídas de filmetes feitos por devotos que pagaram pra ouvir uma “palestra” de Seu Mestre num templo evangélico da Florida sábado passado. As imagens foram tiradas de filmezinhos amadores, de baixa qualidade, eis por que aparecem meio desfocadas.

Qualquer um pode notar que o ex-presidente engordou – e muito. Nessas fotos, não me parece que estivesse vestido com colete à prova de balas, como costumava andar no Brasil. O diâmetro do capitão é inteirinho dele mesmo. Imagino que a haute cuisine do Planalto esteja fazendo falta. Nos EUA, sozinho naquele casarão sem terreno onde está homiziado, sem a esposa (que já lançou seu grito de independência e voltou a Brasília), deve estar se alimentando de pizza, hambúrguer, batata frita e maionese em dose dupla.

Ao permanecer nos EUA, Bolsonaro dá sossego a muita gente. A ele, pra começar, que vai pra cama sem o pavor de ser acordado pela PF. Para seus devotos, porque a ausência de Seu Mestre mantém acesa a chama sebastianista de um hipotético retorno. E também para os não-bolsonaristas, que preferem vê-lo pelas costas.

Assim, sua ausência convém a todos. Que ele continue na Disneylândia!

De guayabera

José Horta Manzano

Continuo intrigado com o fato de alguns analistas de projeção nacional ainda parecerem receosos de que o Lula se candidate em 2018 e ‒ pior ainda ‒ que volte à presidência da República. É insensato. Senão, vejamos.

O discreto Instituto Paraná Pesquisas, que não é conhecido por estar particularmente chegado a nenhum partido ou movimento político, publicou, duas semanas atrás, sondagem que constatava que 62% dos entrevistados achavam que o Lula devia ir preso. Isso foi antes da sentença condenatória do Tribunal Federal de Curitiba.

Em pesquisa mais recente, saída do forno este fim de semana, o mesmo instituto informa que 65,5% dos eleitores consideram que o ex-presidente recebeu sentença justa. Não ficou claro se os demais teriam sido mais clementes ou, quem sabe, até mais impiedosos. Resumo da ópera: dois em cada três brasileiros descartam o antigo operário. Recusam-se a votar nele.

De guayabera

O homem é, visivelmente, carta fora do baralho eleitoral. Se um diminuto grupo de fiéis ainda o acompanha, não será por cegueira ideológica, mas por cálculo político. No desespero, náufragos costumam abraçar-se a qualquer tronco que ainda dê a aparência de flutuar.

Prova disso é a «Emenda Lula», proposta por um deputado federal, visando a impedir a prisão de candidatos a postos eletivos a partir de oito meses(!) antes da eleição. A proposta silencia sobre o que acontecerá caso os candidatos ameaçados de encarceramento não se consigam eleger. De fato, não se pode garantir blindagem a derrotados. Passado o dia da votação, a vulnerabilidade de cada um deles volta. É da vida.

Em artigo publicado no Estadão deste domingo, a excelente analista Vera Magalhães compara os últimos seguidores do guia a adeptos de seita radical subjugados pela devoção incondicional ao guru, pessoas que se recusam a aceitar que o cenário mudou.

Quando um acusado se encontra na situaçao em que está o guia caído, mais inteligente seria eclipsar-se e recolher-se à humildade. Ameaçar, atacar, vituperar não é boa estratégia. Vociferar contra a mídia, o Ministério Público, a magistratura é péssima escolha: só serve para acirrar ânimos e reforçar antipatias.

Guayabera para todos

Que ninguém se engane. Se a situação do ex-presidente já é complicada, tende a tornar-se insuportável à medida que novas condenações forem aparecendo. Com ou sem a extravagante emenda, ele não será mais eleito para a presidência. Se quiser efetivamente escapar à prisão, há caminho mais promissor.

Um pedido de asilo apresentado ao governo cubano tem todas as chances de ser aceito. Mr. Trump, que já se mostrou contrário a toda aproximação com a ilha caribenha, foi eleito por quatro anos. Não será surpreendente que, em seguida, seja reeleito. Nosso guia, que completa 72 primaveras este ano, terá assim oito anos de tranquilidade nas cercanias de Havana. Basta comprar um par de guayaberas (ou de abrigos Adidas, conforme o gosto), e pronto.

De seu exílio dourado, ele poderá continuar esbravejando contra tudo e contra todos. Passados os anos de autoexílio, terá direito ao indulto humanitário que nossa benevolente justiça costuma conceder a anciãos, por mais graves que tenham sido seus crimes. E voltará, tranquilo, para viver um ocaso dourado num sítio cedido por algum dos últimos fiéis.