Aproximação

José Horta Manzano

A chamada d’O Globo me chamou a atenção.


Em viagem, Lula busca aproximar Brasil dos países árabes


Dizem que a ordem dos fatores não altera o produto. Pois bem, se essa frase fosse uma continha de vezes, a inversão de fatores faria uma sutil diferença sim, senhor. Veja só.


Em viagem, Lula busca aproximar os países árabes do Brasil


Então, deu pra notar?

Dizer que o Lula está se abalando de Brasília até as Arábias para tentar aproximar o Brasil dos países do Médio Oriente me incomoda um pouco. Me faz pensar no conhecido “complexo de vira-lata”. Fica a impressão de estarmos batendo à porta dos milionários e pedindo pra nos aceitarem. “Você me aceita no seu grupo?”. Humilhante.

O que Lula deveria estar fazendo – e na certa é o que vai fazer – é marquetear o Brasil. Mostrar aos estrangeiros as vantagens que eles podem conseguir caso invistam aqui, mandem seus dólares, abram empresas, construam casas de veraneio aqui, paguem impostos aqui, comprem mais frango.

O fato de não haver pendências nem contencioso entre Brasil e países árabes é uma bênção. Lula tem de dar carona a uma equipe de camelôs de luxo, com prática em vender o que o cliente nem sempre quer comprar.

Vamos fazer com que os países árabes se aproximem do Brasil e descubram as vantagens que essa aproximação vai lhes trazer. É o que se quer.

10h10

Relógios novos – Todos marcam 10h10 (clique para ver)

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a graciosa leitora já tenham reparado numa característica dos relógios novos expostos à venda: todos marcam 10h10. Se não prestou atenção, pode botar reparo. É curioso, não? E qual seria a razão dessa uniformidade? Teorias, há várias.

A mais sofisticada conta a história da introdução da hora de referência universal (GMT). Foi um acordo multinacional assinado ao fim da Conferência Internacional de Washington de 1884. Vinte e cinco países debateram durante quase um ano. A adoção não foi  por unanimidade: dos 25 países participantes, só 22 aprovaram que o meridiano de Greenwich fosse oficializado como marco zero das longitudes. Brasil e França se abstiveram, enquanto a República Dominicana votou contra. Mas a maioria venceu e a introdução da hora universal foi oficializada. O documento final foi assinado exatamente quando os relógios marcavam 10h10. Por esta hipótese, a hora mostrada até hoje pelos relógios novos seria uma homenagem ao Acordo de Washington.

Uma segunda explicação, embora também histórica, é um bocado tétrica. Relata que o infeliz Luís 16, rei da França destronado pela Revolução Francesa, subiu ao patíbulo exatamente às 10h10 para ser guilhotinado. O relato é de arrepiar. Muitos acreditam que, até hoje, os relógios novos marcam a hora desse regicídio.

Uma terceira versão, não de todo fantasiosa, fala da mensagem positiva transmitida de modo subliminar pelos ponteiros apontando pra cima, formando o V da vitória. De fato, um par de ponteiros marcando 8h20 (e apontando para baixo) evocaria tristeza e desencorajaria clientes potenciais.

Há uma última explicação, que aliás me parece lógica e credível. A marca comercial do relógio costuma aparecer no alto do mostrador, logo abaixo do número 12. Com o relógio marcando 10h10, o nome comercial cabe entre os ponteiros e fica visível. E ainda homenageia o Acordo de Washington e o rei decapitado. De quebra, o V transmite mensagem positiva. Que mais se pode desejar?

O Estadão continua a vasculhar os presentes dados a Bolsonaro nos anos em que ele foi presidente. Descobriram mais um estojo da Maison Chopard (Genebra) contendo: uma caneta, um par de abotoaduras, um anel, um masbaha (rosário muçulmano) e… um relógio Rolex. Todas as peças são de ouro branco e cravejadas de diamantes. Um mimo estimado, por alto, em meio milhão de reais, estimação que me parece até baixa levando em conta o prestígio do joalheiro genebrino. Pode valer bem mais que isso.

O conjunto, cuja foto está aqui abaixo, foi oferecido pelo príncipe da Arábia Saudita diretamente a Bolsonaro. Entregue em mãos. Sem cerimônia, o então presidente entendeu que o presente era objeto de uso pessoal. Não foi esclarecido qual seria a contraparte de tamanha “generosidade” dos príncipes árabes. Um dia talvez fiquemos sabendo.

Uma olhada ao relógio informa que ele não marca 10h10. Sabendo que todos os relógios novos (mormente os de luxo) mostram a mesma hora, conclui-se que Bolsonaro, o feliz destinatário do regalo, já tinha usado a joia antes mesmo de confiá-la aos almoxarifes do Planalto para ser fotografada, registrada e encaminhada a seu acervo pessoal.

Fica agora a curiosidade. Em que ocasião o capitão teria dado corda no relógio, acertado a hora e afivelado a pulseira?

Dificilmente teria sido no dia em que comeu farofa com as mãos – o relógio teria aparecido na foto.

Tampouco foi no dia em que convocou o corpo diplomático para dar a Suas Excelências a crucial informação de que as eleições brasileiras eram fraudadas.

Uma possibilidade é que ele tenha usado o Rolex numa motociata.

Ou talvez, hipótese plausível, tenha simplesmente dormido com ele e sonhado que era imperador.

Fugir para a Arábia?

José Horta Manzano

Todo o mundo já sabe, mas não custa repetir para que fique bem claro: o maior pavor do capitão é a cadeia. Por certo, essa não é a preocupação maior nem do distinto leitor nem deste escriba. Mas o capitão arrasta um passado complicado. Ele deve conhecer os motivos pra tanto medo.

Em diversas ocasiões, ele já bradou que ninguém jamais o tiraria do palácio e que nunca iria preso. A contradição da primeira parte de sua profecia já está aí: vai sair do palácio sim, senhor. Falta a segunda parte. Minha avó dizia: “Quem não deve, não teme”. Por que será que ele teme – e treme?

As especulações correm soltas sobre uma eventual fuga de Bolsonaro para o exterior. Não será simples. Se decidir seguir esse caminho em busca de asilo, terá de escolher um país com o qual o Brasil não mantém tratado de extradição.

Uma fuga para um país governado por dirigente autoritário de extrema-direita pode ser uma opção. A Hungria ou a Polônia, por exemplo. Mas… e se o governo de lá mudar de cor política amanhã e anular o asilo, como é que fica? Bora fugir de novo de mala e cuia?

Reinos, sultanatos e emirados do Oriente Médio são outra opção. Por lá, o risco de mudança de regime é quase inexistente. Mas… não deve ser fácil ter de passar o resto da vida numa bolha de ar condicionado, com samambaias artificiais, rodeado de deserto por todos os lados, com temperatura externa próxima de 50 graus. Tem quem aguente: Juan Carlos, que foi rei da Espanha, envolveu-se há dois anos num escândalo de corrupção e refugiou-se no emirado de Abu Dabi. Está lá até hoje.

O site Metrópoles informa que os filhos n°01 e n°03 do presidente estiveram na embaixada da Itália em Brasília terça-feira passada para tentar apressar o processo de reconhecimento da cidadania italiana para o clã. Entrevistado, o filho mais velho disse que deram início ao processo em 2019. Não explicou a razão da súbita pressa em ver o fim do túnel.

É permitido especular que, longe de cogitar uma aposentadoria na gelada Hungria ou no escaldante Oriente Médio, Bolsonaro esteja de olho na obtenção do passaporte italiano para dar o fora daqui. Num primeiro momento, até que parece boa ideia, mas o porto não é tão seguro como ele está imaginando.

Aconteceu não faz dez anos. Nos tempos em que a Lava a Jato comia feio, um senhor chamado Henrique Pizzolato, diretor de marketing do Banco do Brasil, encontrava-se em situação semelhante à do capitão hoje: era alvo da justiça brasileira e possuía dupla nacionalidade – italiana e brasileira. Às vésperas de ser preso, fugiu para a Itália.

Despistou a PF, saiu em direção à Argentina e de lá tomou avião para a Itália. Imaginou-se para sempre a salvo. Estava enganado. Quando souberam de seu paradeiro, as autoridades judiciárias de Brasília requereram sua extradição. Pizzolato tinha confundido a lei brasileira com a lei italiana. Imaginou que, como o Brasil, a Itália não extraditasse seus nacionais. Não é bem assim que funciona.

A lei italiana não impede a extradição de cidadãos do país. Com base no Acordo de Extradição firmado entre a Itália e o Brasil em 1989, cada caso será estudado individualmente. O fujão permaneceu dois anos na Península enquanto a batalha judicial corria solta. Num primeiro momento, sua extradição foi negada pela justiça italiana. O Brasil entrou com recurso, o caso foi para Roma, e a Corte de Apelação finalmente concedeu a extradição. Com o rabo entre as pernas, Pizzolato foi trazido pela PF a Brasília. De jatinho. Do aeroporto, foi direto para a Papuda purgar sua pena.

Se você, distinto leitor, for íntimo do clã do (ainda) presidente, procure fazer chegar este recado à família: “Lembrem-se do Pizzolato!”.

Se fugir já é uma vergonha, imagine só o que deve ser fugir, ser apanhado e trazido de volta pela PF. Vexame supremo! O capitão não vai querer arriscar. Ou vai?

Na ilustração, o avião que trouxe Henrique Pizzolato de volta para o Brasil.