Mudança de endereço

Você sabia?

José Horta Manzano

Em (quase) todos os países do mundo, o cidadão escolhe onde quer morar, compra ou aluga sua moradia, e se muda. Até este ponto, imagino que em qualquer parte do planeta funcione (quase) igual. É a partir daí que começam as diferenças.

No Brasil, após a mudança, tchau e bênção. Ninguém fica sabendo onde foi parar o indivíduo. Se ele for organizado, vai providenciar espontaneamente a mudança de endereço nos documentos que trazem essa indicação, como o título eleitoral, por exemplo. Muitos nem isso fazem. Moram num endereço e permanecem inscritos noutra região, às vezes noutro Estado.

Nos países mais regulados, cada município mantém um cadastro dos habitantes. Na Suíça, por exemplo, a coisa é levada extremamente a sério. O cadastro é exaustivo, exato e mantido em dia. Cada morador é registrado na prefeitura, com nome, endereço, telefone e outros dados pessoais.

A consequência tanto pode ser uma vantagem quanto uma desvantagem. Quando se procura localizar alguém, seja por que motivo for, o registro é um ponto muito positivo, essencial mesmo. Já para quem tem culpa no cartório e gostaria de sumir do mapa, este não é o país ideal.A Lusitana

Quando da mudança de casa, o cidadão tem a obrigação de anunciar sua partida do endereço antigo e, em seguida, sua chegada ao novo endereço, ainda que seja no mesmo município. Os que moram de aluguel ― a maioria ― nem precisariam, na prática, cumprir essa formalidade. Os senhorios cuidam de fazê-lo: o antigo anuncia a partida, e o novo anuncia a chegada do morador.

Mas as autoridades são intransigentes: cada habitante, que lhe agrade ou não, tem de fazer o anúncio por si mesmo. Pode ser pessoalmente ou por correio, tanto faz. Mas as autoridades, bondosas, concedem um ‘amplo’ prazo de até 14 dias entre a mudança e o aviso.

Além de anunciar à prefeitura, o indivíduo tem, naturalmente, de cuidar de avisar seu banco, seu empregador, as companhias de eletricidade, telefone e tevê a cabo, as companhias de seguro, e quaisquer outras associações ou instituições às quais esteja ligado. Tem também ― e isto é obrigatório ― de comunicar a alteração de endereço aos serviços que cuidam do registro dos automóveis.

E ai de quem se esquecer de avisar a prefeitura! Uma vez, faz muitos anos, num tempo em que eu, chegado havia poucos anos, ainda não estava a par dessas picuinhas, mudei de endereço. Anunciei minha partida da morada antiga, mas não imaginei que também tivesse de avisar lá onde cheguei. Achei que fosse automático, que os municípios se comunicassem. Não era bem assim. As prefeituras se comunicam, sim, mas isso não dispensa o cidadão de cumprir as formalidades tim-tim por tim-tim.

Alguns dias depois de minha mudança, numa bela manhã ensolarada, tocam a campainha. Abro. Eram dois policiais uniformizados. Após um cumprimento polido mas sisudo e formal, disseram a que vinham: tomar satisfações sobre o anúncio incompleto de minha mudança. Fiquei muito embaraçado. Foram indulgentes e não me multaram, mas saí correndo para formalizar minha chegada junto às autoridades locais e para completar, assim, o ritual.

Foi a primeira vez que a polícia veio me procurar em casa. E espero que tenha sido a última.

De caniço e samburá

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Este não pode

Você sabia?
José Horta Manzano

Na maior parte dos países europeus, a pesca de lazer é regulamentada. Não pesca quem quer, onde quer, como quer, nem quanto quer. Tem de ser tudo direitinho, como manda o figurino.

Alguns anos atrás, recebi por alguns dias a visita de um amigo japonês. Era verão, estávamos na França à beira de um lago, e meu amigo ― pescador diletante ― exprimiu seu desejo: gostaria de pescar por aqui. Que peixe dá?

Eu não sabia, mas fui-me informar. As variedades de peixes consegui logo descobrir, esse não foi o problema. A complicação veio em seguida. Para pescar na França, precisa ser membro de uma das 4200 associações reconhecidas pelo estado. Os sócios pagam uma anuidade que lhes dá o direito de pescar.

Mas a França é país altamente turístico. Os visitantes de passagem, como meu amigo, não foram esquecidos. Pode-se pagar por uma autorização temporária de uma ou duas semanas. Sai proporcionalmente mais caro, mas, pelo menos, o turista poderá empunhar seu caniço dentro da lei.

Dentro da lei? Um momentinho, ainda faltam algumas instruções. As associações de pescadores amadores fornecem um manual com as regras a serem absolutamente respeitadas. Não é um manualzinho, é um livrão, mais impressionante que esses catálogos escritos em 42 línguas, que acompanham os eletrodomésticos.

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Este pode

Meu amigo japonês quase caiu de costas quando ficou sabendo. Disse que, no Japão, a coisa é bem diferente. A pesca de lazer é livre, cada um pesca o peixe que quiser, onde preferir. No entanto, neste vasto mundo, nem que o pescador se chame Raimundo encontrará a solução. (Com a necessária piscadela cúmplice a Drummond.)

Leigo no assunto, sou incapaz de traduzir em tupiniquim o jargão do mundo da pesca amadora. As técnicas descritas no manual são sete. Há cinco tipos diferentes de material de base, sem contar os accessórios. A pesca pode ter lugar em água doce em movimento, em água doce parada, no mar próximo à terra, em mar aberto. A variedade de iscas, nós, linhas é vasta. Há lugares onde é permitido pescar. Vinte metros mais à frente, já pode ser proibido. O bom pescador terá obrigatoriamente de carregar ― no bolso ou no samburá ― um mapa especificamente desenhado para a pesca naquela precisa região.

Não se pesca a qualquer momento do ano, não. Tudo varia conforme a região, o tipo de linha, o tipo de material, o ponto do rio ou do lago. Certas espécies podem ser pescadas o ano inteiro, enquanto outras só podem ser apanhadas algumas semanas por ano.

Há variedades de animais protegidos. Se, por desventura, um deles vier a ser capturado, tem de ser solto e devolvido imediatamente à água. O bom pescador tem de ir à faina munido de uma régua. Cada espécie de peixe tem um comprimento mínimo, abaixo do qual terá de ser devolvido à vida.

E ai de quem ousar desobedecer. Fiscais estão à espreita para aplicar multa aos contraventores. E a multa pode ser pesada, cuidado!

Meu amigo japonês achou que era mais simples comer um sushi num restaurante típico. Mesmo que não fosse preparado na hora, na frente do freguês…

Cachorros suíços

Você sabia?

Bouvier bernois

Filhotes de bouvier bernois

José Horta Manzano

Na Suíça, os proprietários de cães têm de pagar uma taxa anual ao município. Assim é. A câmara de cada localidade fixa o montante. Geralmente fica em torno de 100-150 francos por ano e por cachorro (250 a 350 reais, ao câmbio atual). Os aposentados têm direito a desconto ― válido, no entanto, só para o primeiro animal. A partir do segundo, já vale a taxa habitual.

Além disso, já faz quase 10 anos que a lei obriga todos os proprietários de cachorros a mandar introduzir, por via subcutânea, um chip em cada um de seus animais. É uma intervenção relativamente simples, feita por qualquer veterinário. O chip fica posicionado na altura da veia jugular esquerda e contém a identificação do animal e do dono. Caso o bicho se perca, será facilmente trazido de volta ao proprietário legítimo.

Estarão aí as primícias do que o futuro reserva a nossos netos? Será que estamos assistindo a uma avant-première de como os humanos serão identificados daqui a alguns anos?

Quem viver verá.