Crepúsculo do trumpismo

José Horta Manzano

No concerto das nações, a esculachada que Trump levou com as eleições legislativas desta semana trouxe um balé gracioso como a juventude que essa brisa canta. De fato, as novas gerações, menos agarradas a posições políticas solidificadas, como no passado, deram importante contribuição à vitória dos Democratas. Para cinquentões e sessentões que votaram vida toda nos Republicanos, é quase impossível depositar na urna uma cédula para outro partido – cheira a traição.

Trump e seus correligionários contavam com essa característica própria dos países em que o bipartidarismo domina o cenário político. Mas não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Cantemos alvíssaras pela boa-nova.

Primeiro nós, no Brasil, e agora o povo dos EUA acabamos de atestar que não estamos interessados em governantes arbitrários, atrabiliários ou autoritários. Esse tipo de regime tem razão de ser em países em que as instituições estão carcomidas a ponto de não mais permitirem volta atrás. China e Rússia estão nesse caso. Turquia e Nicarágua estão a caminho. As recentes eleições provam que o Brasil e os EUA lograram dar um basta antes da beira do precipício.

Acontece que o mundo não está todinho sintonizado na mesma onda. Ao lado dos muitos que se sentiram aliviados com a derrota de lavada sofrida por Trump, há os que se sentem agora incomodados, talvez até desamparados.

Putin detestou, pois Trump representava um freio à ajuda que os EUA de Biden propiciaram à Ucrânia martirizada. A partir do ano que vem, quando o novo Congresso assumir, os Estados Unidos deverão deixar mais claro seu apoio aos ucranianos.

O Irã há de estar esperançoso, com o ocaso dos assessores “bota pra quebrar” que rodeiam em torno de Trump. De seu ministro da Guerra que chegou a dizer “Adoro fazer guerra”, por exemplo. O clima tende a se acalmar naquela região, para alívio de todos os vizinhos, monarquias árabes principalmente.

Os presidentes de nossos países vizinhos, mormente os que exibem certa tendência à autocracia, não estão mais tão sorridentes. O pai-de-todos que os apoiava de Washington entrou numa ladeira declinante, inquietante para os êmulos latino-americanos.

Last but not least, estão os membros do clã dos Bolsonaros e diversos elementos fugidos da Justiça brasileira, ora homiziados em solo americano. Esse pessoal fugiu daqui por desconfiança e acabou se tornando alvo da desconfiança do povo de lá. Pularam da panela direto para o fogo.

Eduardo B. é o que mais arrisca, por residir no Texas, estado recentemente convertido aos Democratas. Como se sabe, vassoura nova varre bem. Não me espantaria se ele fosse forçado a mudar-se para a Florida, pra fazer companhia às pencas de bolsonaristas que lá se encontram. Será recebido com simpatia e, de quebra, sempre poderá desanuviar andando de xícara na Disneylândia.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.