Quando se faz uma análise, é preciso criar distanciamento. Se o analista está envolvido emocionalmente com os fatos a serem analisados, inevitavelmente os fatores que favorecem suas hipóteses interpretativas acabarão sendo destacados e colocados em segundo plano ou ignorados os fatores que destoam de suas ilações.
Assim é na psicoterapia e assim é também nas pesquisas de intenção de voto. Não há nenhuma garantia de que a interpretação dada corresponde plenamente às motivações de quem verbaliza esta ou aquela predisposição.
Existe um teste psicológico que evidencia indiretamente esse fenômeno: o TAT, Teste de Apercepção Temática. São apresentadas ao indivíduo cerca de 10 pranchas previamente selecionadas pelo examinador a partir da idade e gênero do respondente, todas em branco e preto e apresentando imagens ambíguas, reforçadas negativa ou positivamente pelo efeito claro-escuro. Pede-se então que a pessoa conte uma história a respeito de cada situação apresentada: o que está acontecendo, os pensamentos e sentimentos dos personagens naquele contexto e o provável desfecho da situação. A partir das narrativas construídas pelo entrevistado, é possível detectar seus padrões de pensamento, motivações inconscientes e mecanismos de defesa – os quais se apresentam como temas recorrentes, que, por sua vez, permitem a investigação de conflitos emocionais subjacentes.
No caso das pesquisas eleitorais, há sempre o entrelaçamento de uma profusão de razões pelas quais a pessoa declara pretender votar neste ou naquele candidato. Pode haver pressão de pares ou superiores hierárquicos no trabalho, influência familiar, interferência de crenças religiosas, experiências pessoais negativas em eleições passadas, rejeição ou aderência a valores sociais conservadores ou progressistas, percepção de futuros benefícios pessoais, disputas nas redes sociais, impacto das propagandas políticas, etc. Pode até ser que o voto tenha sido comprado ou barganhado em troca de cargos no futuro.
Numa sociedade desigual como a nossa, em que se perdeu há muito tempo a noção de bem comum, é praticamente impossível desassociar a intenção de voto de aspectos fortemente contingentes à classe social e à condição atual de vida do eleitor. O identitarismo vem ganhando cada vez maior relevância para entender como cada estrato lida com temas complexos, como democracia, soberania, patriotismo, igualdade de acesso à informação, viabilidade de projetos de governo relacionados à educação, saúde, trabalho e segurança, relações internacionais, estímulo ou repressão a grupos minoritários, dentre vários outros.
Outro fator complicador na interpretação de tendências é que as pesquisas tradicionais de intenção de voto trabalham exclusivamente com números, deixando de divulgar as motivações que estão por trás da intenção declarada, como os desejos e medos de cada setor do eleitorado. Cabe às pesquisas qualitativas (raramente divulgadas) fazer um levantamento prévio dessas condicionantes e informá-las à coordenação geral da pesquisa para que seja dimensionada a amostra e elaborado o questionário, que, somados, vão produzir o resultado quantitativo.
Duas tendências sobejamente conhecidas introduzem um novo fator perturbador para a interpretação correta das porcentagens de apoio e rejeição a cada candidato. Neste país não se vota em ideias, nem em partidos: vota-se na pessoa mais conhecida e com perfil mais populista ou no candidato mais polêmico, aquele capaz de reembaralhar todas as cartas políticas, eliminando as candidaturas hegemônicas tradicionais e se apresentando como o melhor para promover mudança exatamente por ser um “outsider”.
A outra tendência majoritária complicadora é que ninguém quer “perder seu voto”, ou seja, mesmo não concordando com o perfil, a honestidade e a credibilidade das promessas de um candidato, vota-se nele por “ser o único capaz de derrotar” o concorrente rejeitado. Assim, o que as pesquisas divulgadas mostram, na realidade, é a quantidade de “antivotos”.
Tenho evitado a todo custo me posicionar nesta eleição. No meu entender, a sorte já estava lançada muito antes do início das campanhas eleitorais. Nossa sociedade nunca engoliu plenamente a ideia de punir com a prisão pela primeira vez na história do país um ex-presidente, bem como seus apoiadores envolvidos nas manifestações antidemocráticas do 8 de janeiro. Os repetidos problemas de saúde do ex-presidente agravaram ainda mais a crença de que ele é apenas uma “vítima inocente” de ideologias de esquerda. Em decorrência, os ânimos de seus defensores acirram-se cada vez mais contra o Judiciário brasileiro.
Não pretendo desestimular ninguém, mas guardo a convicção de que a batalha para a reeleição do atual presidente já está perdida. Os impropérios e a hostilidade dirigidos aos simpatizantes do ex-presidente ao longo de toda a campanha (“gado” alienado) só serviram, ao meu ver, para aprofundar a ânsia de retaliação e devolver a humilhação sentida ao longo dos últimos 4 anos. Considerando tudo isso, creio que há muito pouco a se fazer para reverter o resultado. Isso não quer dizer que não estou empenhada na luta pela defesa da democracia. Ao contrário, quero lembrar de uma frase de Viktor Frankl: “Quando já não podemos mudar uma situação, temos o desafio de mudar a nós mesmos”.
Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.
