A arma do povo

José Horta Manzano

Estava observando fotos dos comícios do interiorzão nos anos 1950. Aquilo, sim, é que era fervor popular! Candidatos espremiam o gogó para transmitir sua mensagem em linguagem que a plateia pudesse entender. E, ao final, saíam carregados nos ombros do povaréu.

Faixas ondulantes ameaçavam: «Voto, a arma do povo». Na época, passava batido, mas hoje, pelo ideário da democracia amadurecida que pretendemos ser, é fortemente recomendado banir esse tipo de vocabulário belicoso. Aliás, pensando bem, é mesmo incongruente chamar voto de arma.

O fato de eleições políticas serem evento maior mascara seu verdadeiro caráter. Não é forçado comparar eleição nacional a eleição de representante sindical. Ou de síndico de condomínio. Em todos esses casos, a operação se trava num grupo que escolhe um dos seus para representar a todos. Ou que vota pra designar o chefe. Trocando em miúdos, é isso aí. E pode guardar o troco.

Comício em 1955 ‒ Voto: a arma do povo

Quem escolhe dirigente ou representante não usa arma, mas exerce vontade própria. A escolha do vocabulário, no fundo, mostra se o povo entendeu o que quer dizer viver em democracia.

Em choque frontal contra essa evidência, candidatos destas eleições de 2018 ressuscitam vocabulário que deveria estar morto e enterrado. Ouvem-se, aqui e ali, discursos que conclamam a combater, destruir, aniquilar um adversário visto invariavelmente como inimigo.

Os que compartem essas ideias e usam vocabulário desse calibre não fazem um favor à democracia, essa mesma democracia que lhes permite discursar livremente. Dão tiro no pé.

Um pensamento sobre “A arma do povo

  1. “A escolha do vocabulário, no fundo, mostra se o povo entendeu o que quer dizer viver em democracia.” —> Tava pensando nisso outro dia…………escutei em diversos momentos da minha vida que a democracia é a ditadura da maioria, inclusive nos tempos de escola (quando se constrói um conjunto de conhecimentos que o individuo possivelmente carregará o resto da vida, e os mais irresponsáveis espalharão como verdade)………demorou um pouco para eu entender o porque essa definição genérica e reducionista para democracia é um absurdo, e que, ao contrário disso, a democracia pretende construir um sistema de governo que não permita que uma maioria subjugue \ oprima \ reprima \ aniquile \ destrua \ fuzile a(s) minoria(s) que compõe a sociedade (mesmo que figuradamente, ironicamente ou só de brincadeirinha)……….enfim, acredito que esse tipo de ideia, e subjetivação, que converte conceitos acadêmicos e complexos em simplicidades ordinárias, que se tornam verdades para sustentar ideias toscas, nos trouxe até os dias bisonhos que vivemos…….teoria muito bem ilustrada, para mim, na recente frase do Barack Obama, em Illinois, no seu primeiro discurso depois de deixar a presidência dos EUA: How hard can that be, saying that Nazis are bad?……..e dá para encaixar aí uma pá de substantivos que saiu da lista dos bads para a dos neutros recentemente……………..

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