Janus

Janus
by Andrey Kokorin,
desenhista bielo-russo

José Horta Manzano


“A gente está aqui para defender a anistia!”

“Ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes!”

“Nós não vamos mais aceitar que nenhum ditador diga o que a gente tem que fazer!”

“Chega do abuso, chega!”


Quem disse isso? Jair Bolsonaro? Um dos seus filhos, talvez? Ou, com certeza, algum exaltado pastor de almas num discurso inflamado?

Não, nenhum desses personagens. Engana-se quem ticou uma das opções acima. O autor dessas frases contundentes é, nada mais nada menos, que Tarcísio de Freitas, antigo militar, hoje governador de São Paulo, eleito graças à indicação de Bolsonaro, antigo chefe de quem é pupilo.

Pronunciou essas palavras de guerra aberta contra o Poder Judiciário em comício que teve lugar dias atrás, no 7 de setembro, na avenida Paulista, São Paulo. Foi naquela mesma manifestação em que tremulou uma gigantesca bandeira dos EUA, curioso símbolo de vassalagem a potência estrangeira, assomado bem no dia em que se comemora nossa independência de uma potência estrangeira…

Desde que virou governador, Tarcísio tem se equilibrado na crista do muro estreito que separa o golpismo, entranhado na doutrina bolsonarista, da democracia, almejada por todos os brasileiros de boa fé. Tarcísio ora pende para um lado, ora para o outro. Com bom talento de equilibrista, tem surfado conforme sopram os ventos da atualidade, piscando o olho para o povo de lá, acenando para o de cá.

Janus é o deus romano dos começos e dos fins, das boas escolhas, da passagem e das portas. Deu nome a janeiro, o mês que se situa na passagem entre dois anos; que dá adeus ao ano velho e saúda o novo. É um deus sábio, bastando ver como consegue se desligar do passado e se inserir no presente.

Nosso Tarcísio, calculista que só ele, chegou a um ponto em que foi compelido a tirar a máscara e mostrar a cara. Não havia mais como contemporizar numa situação como a que vive o país. Com o julgamento de Bolsonaro & demais golpistas entrando na fase final, espera-se, de cada um, que assuma sua posição no tabuleiro político – e que a declare, alto e bom som.

Na hora H, o governador de São Paulo deu um salto do muro e escolheu cair do lado do golpismo. Deitou, rolou e se lambuzou. E, ao levantar, revigorado e reembebido da doutrina que professou desde sua fase de aprendizado junto ao clã dos Bolsonaros, pronunciou memorável (e definitiva) arenga, da qual tirei as frases que encabeçam este artigo.

Janus é o símbolo dos começos e dos fins. Preside também às boas escolhas. Tarcísio de Freitas vestiu a máscara do deus romano. Muitos acreditaram que ele tivesse absorvido um pouco da sabedoria da divindade, mas foi ilusão. Na hora H, já se pôs a fazer escolhas erradas e mostrar que não passa de um Bolsonaro 2.0, que já começa mal.

Eleitores do Brasil, tomem cuidado! Quem já começa insultando o STF antes mesmo de se inscrever como candidato à Presidência, está pondo as cartas na mesa. Ninguém vai poder dizer que não sabia. Tarcísio de Freitas tem uma dívida de gratidão para com seu padrinho, Jair Bolsonaro. E pretende pagá-la sendo-lhe fiel nas palavras e nos atos.

É bonito ver a gratidão de um beneficiário! Mostra não ser mal agradecido, o que é um bom traço de caráter. Pena que, neste caso, o padrinho é um pilantra. Agora, todo o Brasil se dá conta de que este futuro candidato a presidente já dá a largada com o rabo preso. E logo com quem…

Passamos quatro anos como espectadores, paralisados diante de uma tensão insuportável entre o presidente da República e os magistrados do STF. Agora que estávamos caminhando para a normalização das relações entre os Poderes, não queremos recomeçar a luta, com um eventual novo presidente que, desde que se candidatou, já mostrou como será a toada.

Xô, gente encrenqueira e oportunista! Já temos o Trump para semear pedras no nosso caminho. Não precisamos de mais um estagiário.

Trem de ferro

José Horta Manzano

Estrada de ferro é de esquerda ou de direita? Numa época de polarização, em que todo detalhe tem de levar uma etiqueta, gostaria de saber de que lado fica o transporte ferroviário.

Se o investidor for uma empresa particular, o trem será obviamente de direita, coisa de capitalista; já se o investidor for o governo, o trem fica mais à esquerda. Na medida que beneficia o trabalhador, proporcionando-lhe transporte de boa qualidade por preço módico, estrada de ferro é certamente de esquerda; mas se trouxer bom lucro à empresa que construiu, será de direita.

Bom, acho que podemos ficar até o Natal alinhando argumentos pró e contra sem chegar a uma conclusão. Antes de perder o fio da meada, vamos ao fato concreto.

O governador de São Paulo, personagem cada dia mais difícil de classificar no espectro político, acaba de tomar decisões importantes, que apenas tangenciaram o crivo dos analistas. Doutor Tarcísio de Freitas, verdadeiro Dionísio gestado na coxa de Júpiter (aliás Bolsonaro), decidiu impulsionar o transporte sobre trilhos, modalidade que tem andado em baixa entre nós nos últimos setenta anos.

A construção de uma linha de metrô ou de uma ferrovia, por mais curta que seja, leva anos. Em geral, leva mais que um mandato de governador. Vai daí, o mandatário que inaugura a obra pronta dificilmente será o mesmo que iniciou a construção. Talvez esteja aí a principal razão do desinteresse oficial por esse modo de transporte. Embora a via férrea fosse mais interessante para o país, interesses de curto prazo levam à escolha da rodovia.

É admirável ver um governador em meio de mandato assinar contratos para 13 linhas de transporte sobre trilhos cobrindo 890 quilômetros no total. Pode-se apostar que nenhum desses projetos estará terminado antes do fim de seu atual mandato.

Não posso deixar de lembrar de um certo Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, que se aventurou a construir o primeiro trecho de ferrovia do território nacional, inaugurado no longínquo ano de 1854.

Se tivéssemos tido, 170 anos atrás, um empreendedor com ideias semelhantes às do atual governador de São Paulo, talvez o Brasil se tivesse empenhado em construir uma malha densa de vias férreas, que teriam alavancado nosso desenvolvimento. Não aconteceu assim, paciência. Não adianta chorar.

Vamos torcer para que esse novo projeto siga adiante e chegue um dia ao fim. Até lá, quem sabe descobriremos se trem é de esquerda ou de direita.

Mas primeiro vamos ver se as obras terminam antes do dia de São Nunca.

Brincando de candidato

José Horta Manzano

Na hora de votar, paulistas e paulistanos são gente pouco preconceituosa. Não costumam ser mesquinhos. A capital já elegeu prefeitos cariocas (Faria Lima, Celso Pitta), uma prefeita vinda da Paraíba (Luíza Erundina), um mato-grossense (Jânio Quadros). Este último, aliás, antes de chegar à Presidência da República, foi governador dos paulistas durante quatro anos, eleito pelo voto direto. Lembremos que Fernando Henrique, o carioca que viria mais tarde a presidir o Brasil, também foi senador por São Paulo durante oito anos.

Paulistas não gostam é de ver gente que só conhece o estado de ouvir falar se apresentando como “profundo conhecedor” da terra dos bandeirantes. Vez por outra, aparece algum político que, não se sabe por que razão, se recusa a subir um degrau após o outro e prefere ser lançado de paraquedas pra pousar logo no topo da escala.

Não faz muito tempo, o paranaense Sergio Moro arrumou um endereço fantasma e, numa burla às regras, tentou inscrever-se como candidato ao Senado pelo estado de São Paulo. Foi apanhado e caiu do cavalo. Conhecia pouco ou quase nada do estado.

Temos agora o caso do doutor Tarcísio de Freitas, candidato do bolsonarismo ao governo paulista. Nascido do Rio e tendo passado boa parte de sua vida em Brasília, ele tem tanta intimidade com o estado de SP quanto você, distinto leitor, tem com a Mongólia. Pra quem nunca ouviu falar desse senhor, foi diretor de autarquia nomeado no governo Dilma, em seguida ministro nomeado por Bolsonaro. Costumava aparecer na garupa do presidente em alguns passeios de moto à la Mussolini.

A jornalista Bela Megale relata, em artigo d’O Globo, que senhor Freitas caminhava outro dia pelas ruas de Osasco (grande SP), quando um popular lhe perguntou se conhecia o estado. “Conheço mais que paulista” – foi a resposta, petulante e grosseira, ao melhor estilo bolsonarista.

O artigo nos informa também que, antes de bater o martelo, senhor Freitas relutava em aceitar a candidatura à governança de São Paulo, como lhe exigia o capitão. Em vez de candidatar-se a governador por um estado que não conhece, teria preferido representar o estado de Goiás no Congresso, o que lhe permitiria levar vida tranquila e continuar residindo em Brasília. No final, a pressão presidencial foi tamanha que, bom devoto, cedeu.

Agora chegamos ao ponto. Como eu dizia na entrada, não é questão de mesquinharia nem de rejeição ao forasteiro. O que os paulistas teriam preferido era um candidato com raízes no estado, pouco importando seu lugar de nascimento. Afinal, os 46 milhões de habitantes de São Paulo equivalem à inteira população da Espanha ou da Argentina. Se o estado fosse uma nação independente, seu PIB a situaria entre as 20 maiores economias do planeta.

Diga-me agora se é normal que a governança de uma massa de gente e de bens de tal magnitude seja entregue nas mãos de um indivíduo que, além de mal conhecer o estado, carece totalmente de experiência política? E que, ainda por cima, se candidatou de má vontade, só porque Seu Mestre mandou.

Governar o estado mais importante da União não é função para indivíduos desmotivados, que lá estão só porque o chefe insistiu.

Essa clique que se aglutina em torno da Presidência está tratando cargos políticos como bibelôs, que a gente escolhe na prateleira pensando em combinar com a cor da cortina da sala, manda embrulhar e leva embora. Os brasileiros merecem maior consideração.