roubo
Frase do dia — 102
«O bairro é seguro (sic). A incidência de roubos é muito pequena naquela região.»(*)
Marcio G. Murari, titular da DIG ― Delegacia de Investigações Gerais, ao relatar um assalto praticado na casa paroquial de Franca (SP), em que quatro padres foram rendidos por quatro assaltantes que lhes surrupiaram pertences, dinheiro, celulares e automóvel. As vítimas foram, ainda por cima, ameaçadas de morte pelo facínoras. In Folha de São Paulo, 11 fev° 2014.
(*) Fica-se aqui a imaginar como será viver num bairro inseguro.
A bicicleta do senhor padre
Todos os domingos, num lugarejo do interior, dois padres costumavam cruzar, de bicicleta, cada um a caminho de sua paróquia para rezar a missa. Certo dia, um deles vinha a pé. Surpreso, o outro padre parou, cumprimentou e perguntou:
«Onde está sua bicicleta, Padre João?» «Sumiu! Acho que foi furtada do pátio da igreja.»
«Que absurdo!» ― exclamou o ciclista. «Eu tenho uma ideia para saber quem é o culpado: na hora do sermão, cite os 10 mandamentos. Quando chegar ao “Não roubarás”, faça uma pausa e percorra os fiéis com o olhar. O culpado com certeza vai-se denunciar!»
No domingo seguinte, os dois cruzam de novo na estrada. Ambos de bicicleta. O que tinha dado a ideia diz:
«Parece que o sermão deu certo, não é, Padre João?»
«Mais ou menos», ― responde ele ― «na verdade, quando cheguei ao “Não cobiçarás a mulher do próximo”, acabei por me lembrar onde é que tinha deixado a bicicleta.»
Bandidos da pesada
José Horta Manzano
Notícia de última hora vinda do Rio de Janeiro nos dá conta de que 6 vigas de aço, de 20 toneladas(!) cada, foram surrupiadas de um depósito na zona portuária. As peças provinham de um viaduto atualmente em demolição.
Fico aqui a imaginar um bando de meia dúzia de profissionais experimentados e bem treinados visitando noturnamente o depósito onde estavam as vigas. Posso vê-los chegando com um enorme caminhão, um guindaste, cabos de aço e todo o aparato necessário para a boa execução da encomenda. Dá pra supor que tenham feito o estardalhaço que se costuma ouvir nessas horas. E tem mais. Caminhões não costumam carregar mais do que 18 ou 20 toneladas. Portanto, das duas uma: ou trouxeram uma frota, ou fizeram várias viagens. No entanto, ninguém viu nem ouviu nada. É surpreendente, para dizer o mínimo.
Antigamente se costumava dizer que o cidadão honesto pegava no batente enquanto o bandido vivia vida folgada. Mas os tempos mudaram. A crise já está se alastrando para a ladroagem. São os amigos do alheio que agora têm de pegar no pesado.
Guilhotina?
José Horta Manzano
O repórter Fábio Fabrini andou esmiuçando dados da Controladoria-geral da União, o organismo encarregado de vigiar o uso das verbas federais e certificar-se de que estão sendo bem utilizadas.
Em pesquisa por amostragem, a CGU constatou que 73% das prefeituras haviam fraudado verbas destinadas à Instrução Pública. Utilizando subterfúgios diversos, autoridades de 3 em cada 4 municípios(!) desviaram uma parte do dinheiro que era destinado a promover a educação básica de seus jovens.
Há até casos de dinheiro sacado em espécie «na boca do caixa»! E a gente que imaginava que esses casos de roubo despudorado se restringissem ao nível federal…
Veja você: há 75% de risco de o município em que reside o caro leitor estar incluído no rol dos fraudadores. Se roubar já é crime feio, roubar dinheiro destinado à instrução das crianças é asqueroso, repugnante.
Guilhotina anda meio fora de moda. Mas prisão perpétua ainda é pena considerada politicamente correta na grande maioria dos países. São muito poucos os que, como o Brasil, aboliram tanto a pena capital quanto a prisão perpétua.
Que se aproveite esta temporada de reformas para reinstaurar a perpétua. Se falta savoir-faire, basta dar uma olhada por cima do muro. Nossos vizinhos e hermanos argentinos, chilenos e peruanos ― cujo arsenal penal inclui a prisão perpétua ― podem nos ensinar como fazer.
Aquele que comete crimes contra a saúde publica ou contra a instrução pública merece passar o resto da vida vendo o sol nascer quadrado.
É tudo nosso
O Rio Tietê, posto ali por Mãe Natureza, foi uma das principais vias de penetração no território da América Portuguesa. Foi por ali que aventureiros burlaram o que tinha sido combinado no Tratado de Tordesilhas e expandiram os domínios da Coroa lusa até o Mato Grosso. Chegaram até as fraldas da Cordilheira dos Andes e só não foram além porque ferozes castelhanos, chegados pelo outro lado, já haviam se estabelecido naqueles pagos e não mostravam intenção nenhuma de abandonar o pedaço.
Já está fazendo meio século que o trecho do Tietê que corta a capital paulista deixou de ser rio. Tornou-se esgoto a céu aberto, uma cloaca, um espetáculo vergonhoso a que todo estrangeiro desembarcado em Guarulhos tem de assistir.
Trafegando pela pista de sua avenida marginal, é inútil tentar mostrar ao visitante a “beleza” da paisagem do lado direito, com direito a Anhembi e sambódromo: o que lhe atrai a atenção é o esgoto, do lado esquerdo. Um vexame permanente.
Depois de décadas de hesitação, o Departamento de Águas finalmente decidiu plantar ali 40 mil árvores para amenizar a feiura das águas pretas. Mesmo atrasada, foi uma boa iniciativa. Antes tarde que nunca.
Pois o inventário do fim do ano passado revelou que, entre deperecimento natural, vandalismo e furto, 4 mil árvores haviam desaparecido. Uma em cada dez!
Com razão, todos protestam quando corre a notícia de que o deputado Fulano ou o ministro Beltrano, baralhando o público e o privado, se apoderou de nacos do patrimônio público. O mais curioso é que os que mais gritam são muitas vezes os mesmos que se apossam das mudas plantadas e pagas com o dinheiro de todos.
Fico imaginando o sujeito tomar emprestada a caminhonete de um amigo, vir até a avenida que margeia nossa cloaca, estacionar no meio daquele tráfego selvagem e arriscar a vida para roubar, para seu uso particular, um pedaço do patrimônio público. Edificante, não é?
Brasil, um país de todos ― essa é a versão oficial. Há uma outra, menos glamorosa: Brasil, país onde muitos se esfalfam para que uns poucos vivam no bem-bom.



