Portugal: Lula na cadeia

José Horta Manzano

Neste domingo os eleitores portugueses votam para renovar o Parlamento. Dependendo do resultado, o deputado André Ventura, líder do “Chega” (partido de ultradireita), ficará bem posicionado para ocupar o cargo de primeiro-ministro. Seu partido exibe, com orgulho, o apoio de Jair Bolsonaro.

Quinta-feira última, Ventura fez um discurso de campanha. Apesar do ar irônico, foi veemente ao afirmar (com todas as letras que o falar lusitano lhe permite):

“O senhor presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não vai entrar em Portugal. Nós não vamos deixar que entre em Portugal.”

(Neste ponto, pausa para uma chuva de aplausos e coro de “Ventura, Ventura”, que o deputado incentiva, regendo a cadência com a mão direita)

Mais adiante, animado pelos aplausos, adota palavreado sarcástico. Adverte “todos os que estão pra vir neste 25 d’abril” (cinquentenário da Revolução dos Cravos, que enterrou a ditadura em Portugal em 1974), que sejam “prudentes na compra da passagem”. E cita de novo “senhor Lula da Silva” ao repetir que, se ele aparecer, “ficará no aeroporto de Lisboa”. E martela: “Se insistir, vai pra uma cadeia, mas ele já sabe o que é isso, portanto também não será uma grande novidade pra ele”.

O discurso foi blablá de bravateiro, visto que o Lula já pagou pelo que fez, seu processo foi encerrado e ele não tem por que temer fanfarronices. Já é diferente o caso do Bolsonaro, mentor do deputado português. Com as investigações que carrega às costas, inclusive na Corte Internacional de Justiça, é o capitão quem arrisca ser preso assim que puser os pés fora do país.

Uma lição se pode extrair da fala do deputado, um ensinamento que o Lula deveria reter. Vai aqui abaixo.

Tirando dirigentes do nível de Bolsonaro, que felizmente são poucos, não é comum ouvir insultos pesados e gratuitos dirigidos contra mandatários estrangeiros. Se o deputado português sentiu-se à vontade para zombar tão violentamente do presidente de nossa República, não é somente por ser ele da extrema direita. Tem mais.

Com seus malditos palpites dados em público em assuntos dos quais não entende patavina, o Lula tem aberto o flanco. Ao posicionar-se ao lado de Putin e contra a Ucrânia, ao condenar Israel e aliviar a barra do Hamás, ao defender Maduro e denunciar a oposição, Lula põe-se do lado sombrio da História. Ao dizer “sombrio” refiro-me realmente à falta de luz. Lula prefere seguir o caminho das sombras, cercado de gente ao lado de quem um ser bem informado jamais tomaria uma cervejinha.

Aberto o flanco, Lula se expõe e vira alvo fácil dessa malta cuja violência começa nas palavras e vai sabe-se lá até onde. Vamos partir da hipótese que, em vésperas de eleição, o deputado esteja tentando granjear uns votos a mais. Portanto, ele não havia de estar discursando unicamente para seus fiéis eleitores. Tinha na mira também eleitores de outras correntes políticas. O que ele disse foi dirigido a todos, não somente aos seus. Se disse o que disse, é porque se sentiu convicto de que suas palavras não escandalizariam ninguém.

Tivéssemos nós um presidente “normal”, um homem que mostrasse equilíbrio e escrutínio, um ataque como esse do deputado dificilmente ocorreria. Se ataque houve, é porque o eleitor português, seja de direita, centro ou esquerda, não é bobo: está a par das trapalhadas internacionais de nosso presidente. Tripudiar sobre o Lula parece estar se tornando algo como jogar cocô na Geni, um ato corriqueiro.

Lula que se cuide. A insistir no caminho pantanoso em que está metido, quem vai acabar no brejo é sua reputação.

Assistir no youtube a fala do deputado (2 min).

Angola, pobre mas vigilante

José Horta Manzano

Angola? O que é que você sabe de Angola? Muito pouco, não é? O que todos aprendemos na escola é que o país se formou ao longo dos quase cinco séculos que durou a colonização portuguesa.

Fique também sabendo que o comandante luso Diogo Cão aportou por aquelas bandas alguns anos antes do desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro.

Claro está que o país não existia ainda como entidade política naqueles tempos recuados. Como do lado de cá do Atlântico, os novos chegados criaram entrepostos em diversos pontos do litoral, estabelecimentos esses que não necessariamente mantinham contacto entre si. Não havia telefones nem GPS naquele tempo.

Com o passar dos anos, as terras africanas ― assim como as americanas ― atraíram aventureiros de outras origens. Ingleses, franceses, holandeses, espanhóis, muitos se interessaram pela exploração das riquezas.

A costa africana que, conforme a Bula Intercaetera e o Tratado de Tordesilhas, deveria ser reservada à exploração portuguesa foi-se esfacelando. Os proprietários que o decreto papal havia designado como «legítimos» não eram numerica nem militarmente suficientes para garantir a posse do longuíssimo litoral do continente.

Os portugueses se saíram bem na defesa de seus estabelecimentos americanos. Já na costa ocidental da África, conseguiram segurar somente o arquipélago de Cabo Verde e mais alguns minúsculos territórios esparsos. Preferiram concentrar suas forças para assegurar a posse da então chamada África Ocidental Portuguesa, embrião da atual Angola.

A Revolução dos Cravos, que sacudiu Portugal em 1974, provocou súbita e desastrada descolonização. Tudo o que restava do império ultramarino foi abandonado. Angola mergulhou num longo período de caos e de lutas cujas cicatrizes ainda estão hoje sendo tratadas.

Angola

Angola

Apesar da pobreza em que vive grande parte da população, os dirigentes do país vêm mostrando, estes últimos anos, uma clarividência que gostaríamos de enxergar nos mandachuvas de nosso ultraorganizado Brasil.

Faz já uns 20 ou 30 anos que seitas neopentecostais ditas «evangélicas» proliferam em terra tupiniquim. Em nome da liberdade de culto, inscrita na Constituição de nossa República Federativa, o governo central tem dedicado pouca atenção à espantosa e desordenada multiplicação desses agrupamentos.

É importante que liberdade de consciência seja garantida a cada cidadão. Sem isso, estaríamos escorregando para uma ditadura. No entanto, há princípios que primam sobre outros. A obrigação maior de um Estado civilizado é proteger os mais frágeis entre seus cidadãos. As variadas bolsas têm, mal e mal, dado conta das necessidades materiais básicas do brasileiro.

No entanto, a proteção há de ser mais ampla. Não basta aplacar a fome dos que não têm como prover a seu próprio sustento. Há quantidade de brasileiros que, embora consigam garantir seu prato de comida sem ter de esperar pela esmola de quem quer que seja, não dispõem de estrutura intelectual suficientemente sólida para resistir a charlatanismos vários.

Ao mesmo governo que mitiga a fome cabe também defender a população contra flagrantes abusos que vêm sendo cometidos. O País está cheio de espertinhos que se valem da ingenuidade de pessoas simples. Muitos andam enchendo os bolsos à custa da credulidade alheia. Além de ser coisa muito feia, abusar da fragilidade de outrem é crime. Mas vem passando impune no Brasil de todos.

Pela pluma de Patrícia Campos Mello, a Folha de São Paulo nos informa que os governantes de Angola ― o pobre e sofrido país africano ― têm tomado iniciativas para proteger sua população mais frágil contra o que consideram «propaganda enganosa».

Recomendo a leitura da reportagem. É edificante. Enquanto a ex-colônia portuguesa, machucada e cansada de guerra, se preocupa com a proteção de seus cidadãos mais fracos, a Câmara Federal brasileira escolheu um pastor neopentecostal racista e homófobo para comandar sua Comissão de Direitos Humanos. De direitos humanos!

E pensar que os «emergentes» somos nós…

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