Inútil troca de insultos

José Horta Manzano

Desde que Javier Milei, atual presidente da Argentina, fazia campanha eleitoral, já lançava insultos a nosso presidente tratando-o de “corrupto” e “ladrão”. Clamava que “o lugar de Lula é na cadeia”. Não sei se esse comportamento extravagante lhe valeu alguns votos a mais – é possível, neste mundo há bobo pra tudo.

Por seu lado, nosso Luiz Inácio não deixou os desaforos sem resposta. Torceu ostensivamente contra Milei. Deixou de comparecer à sua cerimônia de tomada de posse, atitude fortemente deselegante. É insultante deixar o presidente hermano assim, com a mão estendida no vazio.

Milei comprou a briga e botou o sarrafo mais alto. Faltou à cúpula do Mercosul, deixando assim meia dúzia de colegas chefes de Estado falando sozinhos, entre eles. Em linguagem diplomática, sua ausência soou como se ele dissesse: “Eu sou superior a todos vocês e não estou disposto a me misturar com essa ralé”.

A partir daí, os encarregados do cerimonial dos lugares em que os dois perigam estar presentes ao mesmo tempo (G20, por exemplo) caminham pisando em ovos para garantir que os dois jamais tenham de sentar lado a lado.

Na minha visão, esse tipo de querela pode ser admitida entre adolescentes. Já entre chefes de Estado vizinhos, hermanos e sem nenhum contencioso, é briga totalmente absurda. Aquele famoso “quando um não quer, dois não brigam”, que Lula opinou quando a Rússia invadiu a Ucrânia, teria de ser aplicado justamente num caso como este.

Foi Milei quem começou, estou de acordo. Os insultos de Milei foram gratuitos, emitidos sem provocação, estou de acordo. Lula faltou à posse do colega por temer ser vaiado em Buenos Aires, estou de acordo. Só que agora, chega. A brincadeira acabou, os dois foram investidos no cargo de chefe de Estado. Ficam pra trás as brigas pessoais e entram em cena os ritos do cargo.

Luiz Inácio, que é o mais velho e mais experiente, devia mostrar o caminho ao fogoso vizinho. Não é assim que um chefe de Estado deve se comportar. Atitudes assim não constroem, só dividem e destroem. Que se convide o argentino para uma visita oficial ao Brasil. Que se prepare recepção com a pompa devida a visitantes de primeira grandeza.

Fico feliz de constatar que a diplomacia do Itamaraty, apesar de Lulamorim, não parece ter sido contaminada por essas infantilidades. Na sequência da decisão de Milei de não reconhecer a “vitória” de Maduro, o ditador venezuelano cortou relações diplomáticas entre Caracas e Buenos Aires e ordenou a partida imediata do pessoal diplomático argentino.

Acontece que, além dos funcionários, a embaixada argentina em Caracas abriga meia dúzia de refugiados políticos. Que fazer? A Argentina pediu e o Brasil atendeu imediatamente: nossos diplomatas em Caracas vão substituir os argentinos que tiveram de ir-se. Vão dar o expediente burocrático (emissão de passaportes, por exemplo) e vão cuidar dos refugiados (que, sem isso, perigavam morrer de fome).

Na diplomacia mundial, é relativamente frequente que um país cuide dos interesses de outro cuja embaixada teve de ser fechada. A Suíça é muito solicitada para esse tipo de serviço. Por exemplo, desde que os EUA e o Irã cortaram relações diplomáticas, em 1980, a Suíça representa os interesses americanos em Teerã (Irã).

Em nosso atual episódio sul-americano, o Brasil aceitou imediatamente a solicitação argentina e já está exercendo as funções de representante diplomático de Buenos Aires em Caracas.

Aconteceu tão rápido, que eu me pergunto se Lula foi posto a par. Seja como for, a agilidade e a prestimosidade do Itamaraty continuam em plena forma. E isso é excelente notícia.

O que sei é que Milei , em publicação nas redes, agradeceu efusivamente pela colaboração do Brasil. Lula perdeu a oportunidade de fazer as pazes ao convidar o rapaz para uma visita e uma conversa olho no olho. Ou talvez ainda não seja tarde.

“Ô, Lula, vê se dá um jeito nesse menino travesso!”

Carta aberta ao chanceler

Excelentíssimo Senhor José Serra,

Antes de mais nada, permita-me congratular-me com Vossa Excelência pela direção auspiciosa que a diplomacia brasileira assumiu sob seu comando. Foi guinada importante, verdadeira recondução do comboio a trilhos que nunca deveriam ter sido abandonados.

Pela mídia, fiquei sabendo das mais recentes notícias sobre o posicionamento firme do Brasil em face do sinistro espetáculo que se vem desenrolando na vizinha Venezuela. Regozijo-me pelo discurso incisivo pronunciado dia 1° de novembro por nossa embaixadora junto à ONU.

escrita-5Em certos momentos, o veludo dos códigos diplomáticos tem de ser posto de molho. Há horas em que é preciso arregaçar as mangas, mostrar os músculos e deixar clara a posição do país. Foi o que fez nossa embaixadora, por certo sob orientação de Vossa Excelência. O discurso da representante brasileira não podia ser mais explícito ao pedir às autoridades venezuelanas que garantam o total exercício dos direitos constitucionais e que tomem medidas para realizar o referendo revogatório sem demora, de forma clara, transparente e imparcial. Foi pronunciamento límpido e cristalino.

Em resposta, a chanceler da Venezuela ‒ homóloga de Vossa Excelência ‒ declarou que «não reconhece o governo de Michel Temer». Mas não parou por aí. Afirmou que «houve um golpe de Estado no Brasil» e concluiu o ultraje asseverando que «esse governo golpista é formado por um grupo de corruptos.»

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

Nos tempos em que ofensa se lavava com sangue, tal invectiva constituiria um casus belli, razão suficiente para retrucar com armas. Felizmente, os costumes se suavizaram, mas certos insultos não podem passar em branco. Os brasileiros esperam de Vossa Excelência uma reação à altura do orgulho ferido. É insuportável ter de ouvir desaforos da representante oficial de um Estado. De um vizinho ainda por cima. Dizer que não reconhece nosso governo golpista ultrapassa todo limite.

Se a República Bolivariana não reconhece nosso governo, não temos outro caminho senão deixar de reconhecer o deles. A partir daí, a consequência inevitável é uma só: o rompimento de relações diplomáticas. Temos a obrigação de ensinar a nossos vizinhos ignorantes com quantos paus se faz uma canoa em Pindorama. Sinto pena pelo infeliz povo do outro lado da fronteira, mas, infelizmente, os medalhões bolivarianos não entendem outra linguagem que não seja a da força bruta.

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

by Eduardo Sanabria (1970-), desenhista venezuelano

A hora é agora. A querela não pode ficar no nível de bate-boca entre comadres. Torcemos para que Vossa Excelência não esmoreça e tome a atitude drástica que a situação está a exigir. Amanhã, passada a tempestade, o próprio povo venezuelano lhe agradecerá.

Respeitosamente,

José Horta Manzano

Frase do dia — 215

«A reação da blogueira Yoani Sánchez – criticando as libertações de presos que abriram caminho para o restabelecimento das relações diplomáticas dos Estados Unidos com Cuba – queimou o filme da moça. Ela parecia uma jovem libertária do séc. 21 e mostrou-se uma velha guerreira do séc. 20.»

Elio Gaspari em sua coluna d’O Globo e da Folha de São Paulo, 21 dez° 2014.

Efeito colateral – 2

José Horta Manzano

Um dia, já faz muitas décadas, os Estados Unidos e a República Popular de Cuba ficaram de mal e cortaram relações diplomáticas. E como é que ficou?

Engana-se quem achar que os dois países simplesmente se deram as costas e nunca mais se falaram. São vizinhos de andar, separados por um braço de mar de 160 quilômetros, unidos por interesses comuns. Pelo menos um milhão de cubanos vivem nos EUA.

Havana, Palacio Presidencial

Havana, Palacio Presidencial

Desde que o último espanhol deixou Cuba, em 1898, os Estados Unidos passaram a ser o país de referência tanto para o povo quanto para o governo da ilha. Uma briga entre eles é como desavença em família. Dois parentes podem até cortar relações, mas continuam mandando recado por intermédio de algum pombo-correio.

Apesar das aparências, Washington e Havana nunca cessaram de se falar. O congelamento de relações foi só de fachada – como são todas as contendas entre países. E quem foi o estafeta, aquele que leva a notícia de um e traz a do outro? Pois foi a Suíça, distinto leitor.

A partir de 1961, os interesses americanos passaram a ser representados pela embaixada da Suíça em Havana. Trinta anos depois, com o esfacelamento do império soviético, o governo cubano entendeu que era hora de preparar o reatamento. A partir de 1991, a embaixada suíça em Washington foi encarregada de defender os interesses cubanos.

Washington, Palácio Presidencial - The White House

Washington, Palácio Presidencial – The White House

Nós – a plebe – não somos informados de certas coisas. Só sabemos o que chega até a mídia. Disseram-nos, meio por alto, que o Vaticano e o Canadá participaram das negociações entre os vizinhos brigados. Não será surpreendente que a Suíça também tenha dado sua contribuição. Afinal, não haviam de afastar aqueles que agiram como pombo-correio durante mais de meio século.

Não saberemos nunca dos detalhes. E é melhor assim. Certas coisas, mais vale ignorar. Fica uma certeza: o governo suíço, embora tenha discretamente mostrado satisfação com a quebra do gelo entre os vizinhos briguentos, exibiu sorriso meio amarelo.

Perdeu o estatuto de intermediário. Daqui pra diante, além de não mais receber pelos serviços de estafeta, deixará de estar a par das futricas, dos segredinhos, dos trambiques, das traições, das negociações secretas. Tornou-se vítima colateral.