O que sobra desta vida

Gruta de Lascaux, França: pinturas rupestres

 

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 31 março 2025

O homem das cavernas caprichou na surpreendente arte pictórica, que acabou deixando para a posteridade rastros de sua existência. De fato, numa esplêndida prova de que os humanos de tantos milênios atrás já eram capazes de elaborar pensamento abstrato, pinturas rupestres feitas por artistas daquelas eras chegaram até o presente. Algumas delas são de beleza artística tão notável que poderiam rivalizar com a arte de nossos tempos.

Pinturas rupestres têm sido descobertas em cavernas do mundo todo: Américas, Europa, Sibéria, Extremo Oriente, Austrália. Embora alguns espécimes possam ser considerados obras de arte, sua importância transcende considerações meramente artísticas. Bem mais que isso, estão entre os parcos testemunhos dos primórdios de nossa espécie.

Num formidável salto no tempo, vamos passar agora da pré-história à história tal como a entendemos. Com a sociedade já organizada em vilarejos e burgos, com Estados governados pelo mais forte fisicamente, pelo mais inteligente ou pelo herdeiro de linhagem aceita como legítima, não se dissipou a aspiração ancestral do ser humano por deixar algum traço de sua passagem.

As tentativas individuais dos que viveram em tempos antigos e trataram de deixar uma marca perene nem sempre foram coroadas de sucesso. Guerras, invasões, terremotos, desmoronamentos, incêndios, inundações, erupções vulcânicas, vandalismo e abandono deram conta de esboroar orgulhosas construções, que acabaram virando pó. Palácios, estátuas, faróis, casas e mausoléus perderam-se no tempo.

O que, de verdade, sobra desta vida não são objetos materiais, por mais que sejam significativos. O prolongamento de cada indivíduo se faz através do que sua obra tem de imaterial. Temos, na história do Brasil, um caso curioso e que vem a propósito.

Dom Pedro II, nosso segundo e último imperador, esteve no trono por 58 anos, até que um golpe de Estado o depôs e o despachou para a Europa. Sua filha, a princesa Isabel, não chegou a ser coroada, logo nunca pôde ostentar o título de imperatriz. No entanto, numa ausência do imperador, coube-lhe assinar a Lei Áurea, a que libertou os últimos escravos. Por esse único gesto, é mais festejada que o próprio pai. Entre os vultos do império, a princesa é, no imaginário popular, a magnânima, figura simpática apesar de nunca ter tido cetro, nem manto, nem coroa.

Mas o mundo é vasto. É raro que personagens fiquem na lembrança por uma simples assinatura, como nossa princesa. É mais frequente que a inscrição na História seja fruto de uma sequência de medidas, fortes e impactantes, impostas com energia, que atinjam as estruturas da sociedade mundial. Os personagens que maior probabilidade têm de inscrever seu nome pelos séculos vindouros são os grandes líderes cujo legado tenha alcançado a façanha de perturbar a marcha da História – para melhor ou para pior.

Dito assim, pode parecer simples. Não é. O século 20 deixou uns poucos exemplos significativos. Adolf Hitler foi, sem dúvida, o personagem que mais fortemente sacudiu as bases da sociedade. Seus atos provocaram a inteira reestruturação política do mundo. Nenhum outro dirigente conseguiu, sozinho, causar tamanha revolução. O próprio Stalin não foi iniciador, mas continuador, da difusão do sistema comunista.

O século atual, a menos que um imprevisto lhe trunque a ascensão, já conhece o personagem que fará tremer as bases da sociedade: é Donald Trump. Talvez por dar-se conta de que o tempo lhe é contado, o presidente americano tem utilizado o poder que a força bélica e a capacidade econômica de seu país lhe conferem para atordoar um mundo até então embevecido com um já longevo statu quo.

Pela novíssima cartilha – que ainda ninguém decifrou –, inimigos de ontem são prestigiados e saem da berlinda, enquanto os amigos de sempre são hostilizados e tratados como inimigos. Os demais permanecem num temporário limbo, à espera de conhecer o destino que lhes será imposto pelo novíssimo “imperador do mundo”.

Neste momento, é impossível saber como estará a sociedade global ao fim do mandato de Mr. Trump. Ainda não se consegue predizer para que lado evoluirá o mundo. Conseguiremos retornar ao statu quo ante bellum – o estado em que estavam as coisas antes da guerra?

Sem medo de errar, podemos profetizar que não, que nada voltará a ser como antes. O mundo estará melhor? Pode ser, mas há controvérsia.

PT ou BR

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 jun 2015

Ortografia 2Dia 13 de maio, comemoramos a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão oficial e entrou para a hagiologia nacional. Em Portugal, o 13 de maio celebra a Virgem de Fátima. Este ano, porém, um clamor quase empanou o fervor. É que, justamente nesse dia, entrou oficialmente em vigor, em terras lusas, a grafia determinada pelo Acordo Ortográfico alinhavado em 1990 pelos integrantes do clube lusófono.

No Brasil, a resistência ao AO90 foi pouca, não passou de protestos frouxos. O adiamento da entrada em vigor, programada agora para o fim deste ano, nem tinha razão de ser. Na prática, Inês é morta: a nova grafia já mandou a antiga às favas.

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

Mais do que pelo sol tropical, o brasileiro tem o couro curtido pelas lambadas que levou ao longo dos séculos. Revoluções, golpes de Estado, implantação e supressão súbita de leis, reviravoltas políticas repentinas e constantes, insegurança jurídica causam aflição crônica. Com paciência beneditina e resignação bovina, aprendemos a engolir pronunciamientos e a lidar com eles. Dançar conforme a música não é, entre nós, mera figura de estilo.

Calejados por sucessivas reformas ortográficas, não opusemos grande resistência a essa enésima modificação. O que mais nos incomoda é o pouco tempo que tem decorrido entre remodelações. Pessoas que, em 1990, tinham 55 anos ou mais viram-se obrigadas a aprender a escrever pela quarta vez! Alfabetizadas pela antiga grafia pseudoetimológica, já tinham sido forçadas a se adaptar à reforma de 1943 e à de 1971. A de 1990 amolava, sim, ainda que o desconforto não se tenha convertido em rebelião.

Orthographia 1Já em Portugal, a perspectiva de alterar hábitos de escrita encontrou oposição vigorosa. A resistência não se prendia aos mesmos motivos que provocavam mau humor no Brasil. O problema estava mais para orgulho ferido que para simples aborrecimento.

De um século para cá, houve numerosas tentativas de harmonização da escrita entre Brasil e Portugal. Nenhuma vingou. Em 1907, a Academia Brasileira de Letras propôs novas regras, que não foram seguidas nem mesmo no Brasil. Em 1911, Lisboa alterou profundamente a escrita – mas a novidade só valeu para Portugal. Em 1931, nova tentativa de aproximação gorou. O Brasil fez grande reforma em 1943, ignorada por Portugal. Em 1945, foi a vez de Portugal remodelar sua escrita, sem que o Brasil acompanhasse.

Placa 15O AO90 propunha-se a acertar o passo desse fado do linguista doido. Mas a medida – ressentida em Portugal como insuportável intromissão estrangeira na língua, um crime de lesa-pátria, um terremoto – mexeu com os brios da nação e levantou protesto maciço. Nem a finalidade explícita da reforma, a unificação da língua escrita, aplacou os ânimos.

Conceda-se que, em Portugal, a reforma desfigura uma batelada de palavras de uso frequente, o que explica a grita, os libelos inflamados e a objeção indignada. Gente de peso, figuras públicas, escritores, políticos, linguistas opuseram-se ostensivamente às novas regras. Blogues de resistência cívica continuam na luta ainda agora.

Peço ao distinto leitor a amabilidade de lançar uma vista a estes dois fragmentos.

Interligne vertical 12«Minha mulher a dias, que labuta asinha mas esbanja lixívia em sanitas e autoclismos, queixou-se do novo lanço com portagem que lhe cabe enfrentar, com a carrinha, na hora de ponta. Posto que o trecho tenha ficado giro, sabe a desperdício. Deixa a molesta sensação de cobres terem sido deitados fora.»

«O abaixo assignado promette aos seus freguezes que todas as encommendas effectuar-se-hão com a maior promptidão e exactidão. Tambem encarrega-se de n’ellas ageitar quaesquer eventuaes concertos.»

O primeiro parágrafo, que segue escrupulosamente as normas do AO90, foi escrito em português europeu. Qualquer cidadão luso o lerá sem perder uma palavra. O segundo trecho, calcado em anúncio publicado num jornal brasileiro faz 150 anos, foi grafado no estilo antediluviano da época – mas em português do Brasil.

by Alexandre Affonso, desenhista

by Alexandre Affonso, desenhista

Essas duas passagens mostram que, para a mútua compreensão, pouco conta a grafia. Ainda que se alcançasse a harmonização, o efeito seria o de emplastro em perna de pau. Por mais que se reforme a escrita, a variante europeia e a brasileira seguirão, impávidas, inexorável rota de afastamento.

Pragmáticos e despidos de exaltações nacionalistas, softwares continuam a oferecer ambas as variantes: português-pt e português-br, à escolha do freguês. O AO90 ilustra a desabusada tirada de Horácio: «Parturient montes, nascetur ridiculus mus» – a montanha pariu um ridículo camundongo.