Delatar? Nunca!

José Horta Manzano

Doutora Dilma Rousseff, quando ainda estava aboletada no trono-mor do Executivo, chegou a declarar: «Não gosto de delatores». São palavras que podem soar heroicas na boca de guerrilheiros mas destoam quando pronunciadas por presidente da República.

Quando doutor Palocci, depois de certo período à sombra das grades de Curitiba, decidiu abrir o bico e começar a contar o que sabia, José Dirceu incomodou-se. Despeitado, deixou claro que «é melhor morrer do que perder a dignidade e se tornar delator».

Quanto ao Lula, nosso guia, já garantiu, em falas e discursos, que «não delatará jamais».

Essas manifestações me deixam encucado. Se esses funestos personagens estão sendo instruídos por seus defensores a dizer essas patacoadas, constato que estão malbaratando dinheiro grosso com advogados pouco sutis. (E o pior é que não se sabe de onde vem o dinheiro com que o batalhão de causídicos está sendo remunerado.)

Raciocine comigo. Se o distinto leitor se encontrasse, por um capricho do destino, envolto num imbróglio sem saber como nem por que ‒ numa situação kafkiana ‒, como é que reagiria? Em outras palavras, que reação se espera de um inocente? A resposta é evidente: o inocente vai simplesmente negar ter participado do crime do qual é acusado. Não vai bancar o marrudinho, que não vale a pena.

Quando doutora Dilma, José Dirceu e o Lula assumem pose de herói revolucionário e asseguram que não delatarão jamais, é sinal explícito de que têm o que delatar. É cristalino, né não?

Vamos resumir. Quem nada tem com o peixe, não tem o que delatar. Dado que essa possibilidade não lhe passa pelo espírito, o acusado nem vai mencioná-la.

Já aqueles que declaram que não delatarão porque decidiram calar-se, dão bandeira. Mostram que têm, sim, conhecimento do crime e possivelmente até participaram dele. Dão tiro no próprio pé. Não fica heroico, fica patético. Ou será que eles imaginam que todos os magistrados sejam ingênuos?

Carta recebida

Prezado editor deste blog,

Lamento informar que uma de suas colunistas estará temporariamente impedida de enviar novas colaborações.

by Garance Lobotomie

by Garance Lobotomie

D. Myrthes Suplicy Vieira foi inesperadamente acometida por um surto de insanidade, tendo sido forçada a se internar em clínica psiquiátrica para tratamento emergencial, ainda sem data definida para alta. Segundo os psiquiatras que a atenderam, o problema ocorreu após um período de intenso e prolongado estresse com o atual quadro social e político de nosso país.

Aparentemente, o surto foi motivado pela leitura de duas reportagens, a saber:

Interligne vertical 16 3Ke“Vigilante morre atropelado com um tiro na cabeça” – conforme é narrado pelo jornalista, dois soldados da PM paulista registraram um boletim de ocorrência numa delegacia, informando que tinham atendido a um chamado para socorrer um homem que teria sido atropelado, sendo que o motorista do veículo teria se evadido do local sem prestar atendimento à vítima. Quando a ambulância de resgate chegou ao local, os ditos PMs teriam dispensado o veículo e impedido que os paramédicos tocassem o corpo do rapaz, alegando que ele já estava morto e que cabia a eles preservar o local do crime. No dia seguinte, no entanto, o legista designado para o caso entregou um laudo em que atestava que a morte se devera à perda de massa encefálica decorrente de um tiro na parte de trás da cabeça.

Louco 1“Procuradores da Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro processam dois cidadãos por financiamento de campanha eleitoral” – segundo a nota, um deles teria doado a exorbitante quantia de R$ 15,00 para a campanha de um deputado; os procuradores, então, solicitaram imediatamente ao juiz a quebra do sigilo fiscal do tal cidadão, embora o pedido tenha sido negado pela juíza responsável pelo caso diante da “insignificância” da contribuição. O outro caso, considerado um pouco mais grave e prontamente acolhido pelo juiz, refere-se à doação de quantia ainda maior (R$ 50,00) igualmente para financiar campanha eleitoral. O advogado contratado pelo réu manifestou sua indignação com o “absurdo” da decisão de envolver a justiça num caso de pouca relevância nacional, dado que mesmo que o cidadão fosse julgado culpado ele seria condenado a pagar uma multa de algo em torno de R$ 150,00. Já o réu-cidadão, ao ser entrevistado por uma emissora de televisão, encarou despudoradamente a câmera e disse: “Doei sim. No próximo ano, vou dobrar a meta e doar R$ 100,00 para ver no que vai dar.”

No final da tarde, já combalida com essas notícias, D. Myrthes teria assistido a um vídeo divulgado no Facebook em que a presidente da República discursa para um grupo de sindicalistas e pergunta desafiadoramente: “Quem tem a força moral, o caráter ilibado… suficiente para atacar a minha honra? Quem?!”

Cachorro 25Louco 2Na sequência, D. Myrthes teria começado a apresentar um quadro de forte agitação psicomotora e passado a proferir frases desconexas, em que apenas palavras isoladas faziam algum sentido: “non-sense”, “puro Kafka”, “golpismo”, “motivos nobres para transgressões”, “moralistas imorais”, etc. Depois, num gesto tresloucado, ela jogou-se ao chão, ficando de quatro, rosnando e agitando o traseiro, roubou a ração de suas cachorras e, ao ser confrontada por elas, mordeu as duas. Mais tarde, recolheu-se embaixo do armário da sala e recusa-se a tomar banho.

Isso posto, temo que a coluna que o senhor abriga em seu blog fique indisponível por várias semanas.

Grata pela atenção,

Secretária da Clínica Veterinária Acãochego

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.