Os zigue-zagues de Trump

José Horta Manzano

Donald Trump tem personalidade forte e imponente. É do tipo que costuma ganhar no grito: quando ele troveja, espera que todos abram imediatamente o guarda-chuva. Não suporta que um indivíduo o enfrente, nem que fosse apenas continuando de pé, ao relento, guarda-chuva fechado.

Mais de uma vez já ouvi a anedota que contam sobre suas partidas de golfe. Como se sabe, ele é apaixonado por esse esporte e, volta e meia, convida gente graúda para jogar com ele, políticos, dignitários, personalidades estrangeiras. Logo antes do início da partida, um de seus guarda-costas sussurra discretamente ao pé do ouvido do visitante: “Deixe que ele ganhe”. É que Donald não suporta perder. Para ele, qualquer jogo é bom desde que ele ganhe. A derrota pode deixá-lo num estado de fúria incontrolável – um perigo!

Sua relação com Putin tem variado ao longo do tempo. O ditador da Rússia, homem forte e poderoso, exerce um certo fascínio sobre Trump, que o admira e respeita. Só que, como veremos logo abaixo, essa admiração e esse respeito só vão até o ponto em que Trump também se sente admirado e respeitado. Seu sentimento não é, portanto, incondicional. Assim, pode desvanecer rapidamente.

Já antes de seu primeiro mandato, Trump elogiava Putin. No começo de 2022, quando as tropas russas ainda estavam se preparando para invadir a Ucrânia, Trump lançou um baita elogio a Putin chamando-o de “gênio”. A Donald, a ideia de invadir um país vizinho para conquistar território pareceu fantástica. Talvez a ideia de conquistar o Canadá no porrete já estivesse germinando em sua mente.

Conforme a guerra se desenvolvia, a apreciação de Trump por Putin oscilou entre sorrisos e dentes arreganhados. Trump chegou a criticar certas ações de Moscou, como o sequestro de crianças ucranianas, mas a careta sempre durou pouco.

Uma das promessas mais midiáticas de Trump durante sua campanha eleitoral do ano passado foi a de “acabar com a guerra da Ucrânia em 24 horas!”. Ninguém, no fundo, botava muita fé, mas, como se costuma dizer, promessa é dívida. Ficamos todos curiosos à espera do que estava pra acontecer; queríamos saber como é que Trump ia se virar para parar essa guerra.

Desde que assumiu o posto de presidente, Donald bem que vem tentando domar Moscou e Kiev. Foi bem acolhido por Moscou, mas encontrou um Putin tão flexível quanto uma porta de aço. Fechada. Um Putin que só pararia de bombardear o vizinho se os 20% de território ucraniano que havia invadido lhe fossem atribuídos. Quanto a Zelenski, apesar da tunda pública que lhe deram no Salão Oval, bateu pé firme: “Não posso ceder 20% do território pátrio assim, de mão beijada, ao invasor; vamos lutar até o último homem”.

Diante disso, Trump começou a se enervar. Não é homem de entrar numa briga e sair de mãos no bolso, sem vencer e sem conseguir nada de nada. Deve ter considerado que, politicamente, enfrentar Putin não era boa ideia. Além de inflexível, o ditador russo está sentado em cima de imenso arsenal nuclear.

Seja por que razão for, Trump decidiu dar mais uma guinada em seu zigue-zague. Anunciou esta semana sua intenção de liberar, em favor da Ucrânia, certa quantidade de baterias de defesa antiaérea, arma de defesa que tanta falta está fazendo diante dos ataques quotidianos de mísseis e drones qua a Ucrânia vem sofrendo.

Se não mudar de ideia amanhã, como volta e meia faz, Trump estará dando continuidade à ajuda americana que, há 3 anos, vem permitindo à Ucrânia conter o avanço russo.

Com isso, sai de cena a aberração de uma aliança entre russos e americanos, coisa que não se via desde 1945 e que não faz sentido no contexto atual. As coisas voltam a seu lugar.

É sempre “nós x eles”, mas… “nós pra cá e eles pra lá”.

Dirigentes provincianos

José Horta Manzano

“O Brasil se solidariza com a Rússia” – foram as palavras que Jair Bolsonaro, então presidente da República, dirigiu a Putin quando de sua visita ao Kremlin naquele fevereiro de 2022. O horizonte da Europa se assombreava naqueles dias, com a perspectiva da invasão da Ucrânia pelas tropas russas, na guerra que estouraria uma semana depois e que dura até hoje.

“Eu espero que o Biden ganhe as eleições” – foram as palavras de Lula da Silva em fevereiro deste ano em entrevista a um canal de tevê.

Há certas coisas que um presidente não deve dizer, certos pareceres que ele não pode dar, certas opiniões que ele não precisa externar. Pelo menos em público. Em privado, em sua sala de visitas diante de amigos e longe da imprensa, está livre para dar opiniões pessoais. Assim mesmo, é sempre bom ter cuidado porque, como se sabe, amigos são amigos até o momento em que deixam de o ser.

Já em público é outra conversa. As opiniões de um chefe de Estado têm o dom de comprometer o Estado inteiro.

Bolsonaro bajulou Trump e aplaudiu Putin, mas insultou a primeira-dama francesa e ofendeu o presidente argentino.

Lula apoiou a reeleição do presidente da Argentina e aplaudiu o Partido Socialista português, mas encrencou com Milei e desdenhou o presidente da Ucrânia.

Tanto Bolsonaro quanto Lula fizeram o que não deviam. Mostrar preferência por um dirigente estrangeiro, especialmente em época de eleições, é comportamento desajeitado, leviano e perigoso.

Quando o dirigente adulado perde, como é que fica? Digamos que Biden venha a perder, o que é não é improvável, com que cara Lula vai encarar Trump?

Em vez de atiçar Luiz Inácio e incutir-lhe doses de antiamericanismo radical, o “assessor” Amorim deveria abrir os olhos do presidente para evitar esse tipo de comportamento e fugir a futuras saias justas.

Se nossos provincianos dirigentes fossem mais cuidadosos no trato internacional, enfrentariam um caminho menos pedregoso.

Bill Gates e o SUS

José Horta Manzano

Passou debaixo do radar um artigo que saiu semana passada na Folha de SP. O escrito trata dos comentários feitos por Bill Gates em suas páginas nas redes sociais.

Como se sabe, Mr. Gates é o fundador da Microsoft. Hoje, à beira dos 70 anos, está afastado da firma que criou. Além de bilionário – ou talvez por causa disso –, ele aparece entre os maiores filantropos de todo o mundo.

Em 2000, cedeu 5 bilhões de dólares de sua fortuna pessoal para criar a Fundação Bill & Melinda Gates. Ao longo dos anos, a dotação inicial cresceu até atingir cerca de 35 bilhões de dólares, capital que hoje sustenta a Fundação.

A instituição dedica-se a financiar grandes causas, sobretudo ligadas à saúde mundial. Aids, tuberculose, malária e poliomielite estão entre suas áreas de atuação. Bill Gates soube direcionar sua imensa fortuna para amparar causas que países pobres, sem ajuda, não conseguem cuidar.

Voltemos aos comentários do filantropo. Foram elogios rasgados endereçados ao SUS, o Sistema Único de Saúde brasileiro. “Nenhum país é perfeito, mas o Brasil é a prova do que acontece quando um país investe no cuidado com os mais vulneráveis: o retorno tende a ser grandioso” – foi uma de suas frases, postadas no Instagram. Mr. Gates ainda anexou um gráfico sobre a queda nos índices de mortalidade infantil no Brasil.

E seguiu, admirativo: “Em cerca de 30 anos, o Brasil conseguiu reduzir a mortalidade materna em 60% e diminuiu a mortalidade infantil em 75%, o que supera amplamente as tendências mundiais. Ainda por cima, aumentou a expectativa de vida de seu povo em cerca de dez anos.”

Bill Gates foi mais longe em seus posts. Deu uma rápida visão geral sobre a criação do SUS no fim dos anos 1980. A par disso, saudou a grande ideia de estarem atualmente em atividade 286 mil agentes comunitários de saúde, disponíveis para quase 70% dos brasileiros.

O filantropo, habituado a operar em países em que o Estado é inexistente ou quase, revelou sua admiração pelos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, que ajudam a extrair famílias da miséria negra e que são responsáveis pela diminuição da mortalidade infantil.

Seria o caso de o governo propor a Bill Gates participar de uma campanha institucional do SUS, como tantos programas de autolouvação que costumam ser montados. Talvez ele aceite, não custa tentar.

O artigo original está aqui (para assinantes da Folha de SP).

O cara

José Horta Manzano

Que saudades do tempo em que, ao abrir o jornal, a gente dava de cara com notícias boas. E olhe que não faz tanto tempo assim. Lembram-se quando, numa cúpula realizada seis anos atrás, Obama se referiu ao Lula com palavras elogiosas?

Pois é, parece que faz muito tempo. Momentos de magia costumam ser varridos pelo tempo. Desaparecem na impiedosa névoa do passado, aquela que apaga ilusões momentâneas e escancara realidades menos charmosas.

Estive lendo dia destes um relato daquele acontecimento, feito na hora, a quente. O artigo continua atual, não ganhou uma ruga. Que julguem meus distintos leitores.

Interligne 18h

Obama é brother de Lula

Tiago Luchini (*)

Livro 1É o comentário do momento! Todo mundo está falando sobre isso e a mídia, como sempre, adora. Numa reunião do G20, as lentes da BBC captaram uma interação entre Obama e Lula. Resultado? A mídia reporta “Barack Obama afirmou que Lula é o ‘político mais popular da Terra’. Além disso, Obama também disse que adora Lula e que o brasileiro tem ‘boa pinta’.”

Vale assistir ao vídeo e ponderar:

1) Obama começa dizendo: “This is my man!” que traduziram como “Este é o cara”. Na prática é uma expressão em inglês usada quando você não tem muito que dizer quando encontra alguém e quer ser camarada, simpático. É algo bem comum e, até certo ponto, bem breguinha. Eu traduziria como “Este aqui é meu chapa!” ou “meu brother!”, dependendo da escolha. Só estou mudando a gíria de década.

2) Obama continua querendo ser simpático. O cara é carismático. Aí ele solta um genérico “amo este cara… ele é o mais popular da Terra”. Uma sacada de humor bem feita. Você desloca uma caraterística contundente sua para um terceiro. É agradável e arranca um sorriso das pessoas. Kevin Rudd, primeiro-ministro da Austrália, percebe a piadinha e completa: “O político mais popular de longo mandato”. Rudd não foi tão bom quanto Obama, mas valeu pelo embalo. E o cara é australiano, tinha de soltar uma piadinha. Em tese, eles são bons nisso.

Lula e Obama3) O Lula, como sempre, não sabe de nada. É de dar dó a sensação de perdido dele. É verdade, não gosto do governo do Lula, mas ele parece um cachorrinho perdido no meio de ferozes pit-bulls. É inevitável não pensar como tratamos os estagiários e novatos nas nossas empresas. Lula é o típico estagiário sem-noção.

English 14) A puxadinha que Lula dá em Obama para chamá-lo para mais perto é… triste. Que líder nacional esse que temos que não tem uma mínima noção de comportamento multicultural? Ah, sim, ele nem fala inglês. Mas que vá ler um livro a respeito. Tenho um de cabeça para indicar mas… o cara nunca leu nenhum! Sim, é nosso presidente!

Se eu fosse o Lula, cortaria direto no “This is my man!” – tudo dependendo do meu humor (está aí um dos motivos pelos quais eu nunca serei presidente – o futuro de uma nação não pode estar nas mãos de alguém com humor tão instável quanto o meu). Mas o diálogo iria provavelmente assim:

Obama: “This is my man!”

Lula doutor 2Luchini: “You know what? You are my man too! That’s the beauty of being part of the same big, black family!” (“Quer saber? Você é meu chapa também! Taí a beleza de fazer parte da mesma grande família negra!”)

Retornaria com a mesma moeda, com o mesmo humor e seria simpático da mesma maneira, provocando sorriso nos outros. Até o coitado do Rudd ficaria mal numa saída bonita dessas. Que fazer? Temos aquilo que merecemos.

Interligne 18h

(*) Tiago Luchini é diplomado em Administração de Empresas pela Universidade MacKenzie de São Paulo. É também titular de MBA pela London Business School (UK) e pela Universidade de Columbia (EUA). Vive em Nova York. O texto citado foi escrito em abril 2009.