A ingenuidade bolsonarista: entre bravata e realidade

by Darío Castillejos
desenhista mexicano

José Horta Manzano

Sempre que vêm a público, figuras preeminentes do bolsonarismo dão involuntária demonstração de suas qualidades. Tais virtudes revelam-se menos admiráveis do que imaginam. Sobressai um traço comum a muitos: uma surpreendente e persistente ingenuidade – disfarçada, às vezes, com tintas de coragem, ousadia ou patriotismo.

A retórica do ataque substitui o argumento racional. A crítica vira insulto. E, quando a realidade não se curva às expectativas do grupo, ela é simplesmente negada. Se algo dá errado, a culpa nunca é do autor, mas sempre de terceiros: da mídia, do Supremo, do “sistema”, ou de inimigos imaginários cuidadosamente cultivados.

Há também um traço de fé no inacreditável. Uma crença quase infantil na própria impunidade, como se bastasse dizer-se “patriota” para tornar-se imune. E há sempre a compulsão à mentira – não como instrumento estratégico de convencimento, mas como pilar de uma construção paralela, em que a verdade é moldada ao gosto do freguês.

Vejamos alguns exemplos concretos.

Daniel Silveira, ex-deputado, ficou famoso por seus ataques virulentos ao Supremo Tribunal Federal. Em vídeos nas redes sociais, insultou ministros, ameaçou-os fisicamente e tentou posar de herói nacional. Estava convencido de que sua imunidade parlamentar o protegeria de qualquer consequência. Não perdeu por esperar. Acabou preso, processado e condenado. Pagou caro por sua ilusão de invulnerabilidade. Ironicamente, pagou com privação da liberdade que tanto dizia defender.

Carla Zambelli talvez tenha levado a ingenuidade a um novo patamar. Envolveu-se com um estelionatário autodenominado “hacker”, com o objetivo de invadir sistemas da Justiça Eleitoral. Uma iniciativa ousada – temerária até, de qualquer ponto de vista. Após processo e condenação, fugiu do país, acreditando que sua cidadania italiana a blindaria de toda punição e lhe garantiria driblar o encarceramento. Durante a fuga, não resistiu à tentação de provocar o Judiciário brasileiro pelas redes sociais, vangloriando-se de ser “intocável”. Resultado: acabou localizada e presa. Hoje divide cela com outras três detentas numa prisão romana. Em vez das regalias a que certamente teria direito em cárcere tupiniquim, enfrenta a realidade crua do sistema penitenciário europeu, enquanto espera o julgamento do pedido de extradição feito pelo Brasil.

Eduardo Bolsonaro, por sua vez, optou por um exílio voluntário nos Estados Unidos. Não para fritar hambúrguer, como em sua fase anterior, mas para fazer lobby junto a aliados de Donald Trump. Seu objetivo: punir o inimigo número um da família, o ministro Alexandre de Moraes. Esqueceu, porém, que o STF é um órgão colegiado, dotado de forte espírito de corpo. Imaginou que, ao pressionar um único magistrado, poderia amedrontar os demais. Erro de cálculo. O Supremo não cedeu, e o tiro saiu pela culatra. A retaliação não veio contra o ministro, mas contra o agronegócio brasileiro, com o aumento de tarifas americanas que atingiu diretamente exportadores. Para completar, Eduardo dificilmente voltará ao Brasil sem enfrentar alto risco de ser preso.

Conclusão
Esses casos revelam um padrão inquietante: a bravata bolsonarista cresce à sombra de uma suposta proteção – seja a imunidade parlamentar, a cidadania estrangeira ou o distanciamento geográfico. Quando a rede de proteção falha, sobra desespero, vitimização e surpresa diante das consequências, como se o mundo real não funcionasse com regras claras.

O mais intrigante, porém, é que, antes do malogrado golpe do 8 de janeiro, muitos bolsonaristas agiam como se o sucesso da empreitada já estivesse garantido. Comportavam-se como personagens de um roteiro em que o final feliz – a tomada do poder – era inescapável e estava sacramentado. Essa confiança cega tem origem no convívio fechado dentro de uma bolha ideológica. Nela, informações circulam sem contestação, e mentiras repetidas ganham status de verdade absoluta.

Em última análise, a ingenuidade não é apenas um traço de personalidade de alguns indivíduos, mas um componente estrutural do bolsonarismo. Alimentada por desinformação, reforçada por lideranças irresponsáveis e sustentada por uma fé peregrina na própria narrativa, ela transforma cada erro de avaliação em tragédia pessoal – e, por vezes, em dano coletivo.

Enquanto permanecerem presos a essa bolha, seus integrantes continuarão a cometer os mesmos erros: superestimar suas forças, subestimar a inteligência alheia e mal avaliar as consequências. Nesse jogo de ilusões, a realidade sempre chega – e costuma ser implacável.

Incidente diplomático

Eduardo Affonso (*)

– Sr. Modesto Araújo, quero te apresentar aqui o novo chapeiro.

– Mas, seu Jaílson, esse não é o…

– Ele mesmo, o Ednardo. Meu filho.

– Ele tem experiência com chapa, fritura, essas coisas?

– Ele é diplomata. Fez Instituto Rio Branco. Foi embaixador na China. E já comeu pastel frito, não comeu, Ednardo?

(Ednardo concorda com a cabeça)

– Pois é, já comeu. E comeu na China, onde fritam muito pastel. É o chapeiro ideal para a JB Lanches.

– É que pastel não é feito na chapa…

– Modesto Araújo, você não está entendendo. Ele é meu filho. Portanto, está mais que qualificado para o posto de chapeiro.

– É que o fato de ele ser um diplomata… será que não vai atrasar um pouco o serviço? Ele pode querer negociar o hambúrguer bem passado por um ao ponto, não chegar nunca a um acordo com o cliente se o ketchup tem precedência sobre o alface, e aí a fila não anda…

– Com meu filho de chapeiro aqui, quando o presidente da França vier comer uma esfirra, vai falar direto com ele, sem nem fazer o pedido no caixa. Se for um xeique saudita, ele frita a coxinha de acordo com os preceitos do Alcorão. De protocolo ele entende. E de cerimonial. Ele sabe que o canudo fica à direita do copo de refrigerante e os sachês de mostarda vêm hierarquicamente embaixo dos de maionese.

– O senhor é que manda, seu Jaílson. Eu sou só o gerente desta franquia da JB Lanches. Se o senhor diz que o seu filho embaixador vai ser um bom chapeiro…

– Ele fala “quibe” e “esfirra” em vários idiomas Sr. Modesto Araújo. Fala aí “quibe” e “esfirra” em árabe, Ednardo, pro Modesto ver que você é a pessoa mais capacitada para o cargo.

(Ednardo tosse, coça a cabeça e começa a balbuciar alguma coisa.)

– Viu como ele fala? Vai lá, meu filho, que a chapa é tua. E se o pessoal do RH criar algum problema, é você quem vai pra chapa, Modesto, e ele fica de gerente.

(Modesto Araújo abaixa a cabeça, resignado. Gritos atrás do balcão. Era o pessoal do RH com o Bepantol na mão tentando – tarde demais – explicar pro embaixador Ednardo que a chapa é quente).

(*) Eduardo Affonso é arquiteto e colunista do jornal O Globo.