Frase do dia – 18


Interligne vertical 12«Pode-se não gostar de Figueiredo, mas ninguém podia tirar de sua biografia o fato de ter assinado a anistia. Agora pode-se acrescentar que não assinou o cheque da Copa [de US$ 3,2 bilhões, em dinheiro de hoje].

A Copa de Lula custará R$ 28 bilhões, ou US$ 12,1 bilhões.»

Da coluna de Elio Gáspari, in Folha de São Paulo, 4 ago 2013

A frase do dia – 06

“Pois quem tem os instrumentos para corromper? Quem recebeu delegação para usar dinheiro público? A quem cabe dar uma solução para a inflação? Quem gastou a rodo com os estádios da Copa? Certamente não foram os marcianos nem a oposição.”

 

Dora Kramer
in Estadão de 20 junho 2013

Interligne 34f

Malfeitos estrangeiros

José Horta Manzano

Às vezes a gente imagina que a corrupção é um mal exclusivamente brasileiro, que absurdos só acontecem em terra tupiniquim, que a malandragem é especificidade nacional.

É apenas meia verdade. Se é fato notório que corrupção, absurdos e malandragem correm soltos em nossas terras e fazem parte da paisagem, não é verdade que o Brasil seja o único lugar do planeta onde essas práticas são corriqueiras.Bola futebol

Sabemos todos que a próxima Copa do Mundo terá lugar em nosso País. Sabemos todos que irregularidades ― para usar um termo eufemístico ― têm ocorrido e que muitas mais ocorrerão nos meses que nos separam do evento.

É razoável imaginar que as edições do campeonato mundial de futebol hospedadas pela Alemanha, pela Coreia, pelo Japão não tenham sido manchadas por trambiques. Se os houve, foram menos escancarados.

Já de uns tempos para cá, parece que a Fifa resolveu tirar a máscara. Não bastasse a escolha da África do Sul e do Brasil, a Rússia está escalada para abrigar a edição seguinte.

O imenso país, que se estende do Báltico ao Pacífico, tem espaço, tem população, tem tradição futebolística. Não é por esse lado que se poderá criticar a escolha. O que atrapalha um pouco o quadro é o fato de a Rússia nunca ter conhecido um governo democrático.

Desde os tempos de Ivan, o Terrível, o território tem sido controlado com mão de ferro. De monarquia feroz, passaram a ditadura comunista. Seguiu-se um governo autoritário que ainda subsiste. A candidatura da Rússia não foi, portanto, apresentada por legítimos representantes do povo, mas pela nomenklatura. É verdade, não se usa mais esse termo, mas a realidade não mudou muito por aquelas bandas. As castas dirigentes ainda hão de continuar sobrevoando o populacho por um bom tempo.

Não é absurdo imaginar que algum mimo tenha sido oferecido aos integrantes do comitê que escolheu a Rússia. Dado que não é costume assinar recibo quando se recebem agrados desse jaez, ficaremos sem saber.
Camelo

Mas o que vem depois é bem pior. Os dirigentes da Fifa decidiram que a edição seguinte, a de 2022, vai-se realizar no Catar. O nome se escreve meio esquisito. Quem preferir, que use Qatar ou até Katar, que fica mais exótico.

Poucos já visitaram esse país, mas os meios de informação de que dispomos atualmente nos deixam a par de muita coisa. Não precisa ser nenhum especialista para saber que o Catar não tem tradição futebolística. Uma rápida pesquisa nos ensina que a superfície do país é de 11 mil km2, a metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. Da população total de menos de dois milhões de almas, metade está concentrada na capital. As duas maiores cidades abrigam 80% dos habitantes.

Mas há pior ainda. O clima é desértico, sem árvores, sem vegetação. Para completar, a média das temperaturas diurnas em junho/julho, justamente quando a Copa será disputada, é de amenos 41°, 42°. Atenção: falo de média. Um dia mais abafado pode empurrar o mercúrio até os 48° ou 50°. Esses valores são, naturalmente, medidos à sombra. Mas nenhum visitante será obrigado a ficar à sombra.

Trinta e duas equipes participarão. Jogarão 64 partidas. Como é que vão se arranjar com as sedes? Todos os jogos no mesmo estádio? Ou novas arenas serão edificadas no deserto? Cá entre nós, nunca o termo «arena» terá sido tão bem utilizado. Em italiano e em espanhol, significa areia.

Dado que é impossível que esses detalhes tenham escapado aos nobres dirigentes do futebol mundial, alguma razão oculta tem de estar por detrás da designação desse micropaís. O fato é que a Fifa, inflexível, mantém sua escolha.

Como diziam os mineiros de antigamente, «debaixo do angu tem carne».

.

Nota: Pode-se entrever um pedacinho da carne escondida debaixo do angu por este artigo. Decididamente, está instituído o programa Bolsa-futebol.

O treco

O treco imageJosé Horta Manzano
Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° dezembro 2012

Não sei se terá sido sempre assim ou se é porque hoje em dia a informação circula mais solta. Talvez essa danada de internet ― que, em seus primórdios, foi chamada de information superhighway ― esteja justamente cumprindo sua promessa: desvendar fatos e dar publicidade ao que antes se conseguia ocultar com facilidade.

Ou, quem sabe, o secular e proverbial descaso com que temos tratado a instrução pública esteja cobrando a conta. Pode ser que o decantado ‘jeitinho’ que, durante tanto tempo, foi de grande utilidade para encobrir e para emendar imperfeições do funcionamento do País não esteja mais dando conta do recado.

O fato é que, de uns tempos para cá, temos sido surpreendidos por casos assombrosos, daqueles que, alguns anos atrás, nem roçariam a imaginação do mais fértil dos ficcionistas. No entanto, acontecimentos que, em outra época, teriam causado comoção nacional, já não impressionam mais. Inegavelmente, já não se fazem mais escândalos como antes.

Escândalos antigos, esses sim, eram bons. Duravam um tempão, davam pano para mangas. Os mais antigos se lembrarão de aventuras como o sumiço da urna marajoara, que arrastou o velho Adhemar de Barros diante dos tribunais. Foi pelos anos 50 e durou muito tempo. Era como uma novela. Menos frenética que as atuais, mas distilada em capítulos semanais que tratavam de manter aceso o suspense até o desfecho. Que foi pífio, diga-se de passagem.

Os pecados, os malfeitos, as aberrações de hoje já não provocam mais o mesmo frisson. Tudo o que vem em demasia acaba por banalizar-se. O que é demais cansa. O ritmo dos descalabros tem-se acelerado de tal maneira, que um caso empurra o outro para o esquecimento. Nem bem deu tempo de assimilar uma barbaridade, lá vem outra atrás. Nada mais espanta. Não sobra tempo para assimilar e digerir cada fato. Nossa capacidade de nos indignar tem sido posta à prova, como se tivéssemos todos mergulhado num torvelinho. Está cada dia mais difícil acompanhar.

Veja este florilégio do que aconteceu de um mês para cá: tivemos figurões condenados ― pelo tribunal maior do País! ― a penas de prisão; assistimos impotentes a ondas de assassinato como se estivéssemos em guerra; vimos dirigentes de agências reguladoras serem acusados de malversações; descobrimos que quadros eminentes do governo federal tinham sido afastados em consequência de improbidade administrativa; ficamos sabendo que um banco situado num paraíso fiscal reconheceu que um histórico mandachuva tupiniquim ali escondia dinheiro subtraído ao erário.

Os escândalos são tantos e se sucedem em ritmo tão agitado que o cidadão mediano sente dificuldade de acompanhar. Se acontecimentos tonitruantes já não nos causam indignação, que dirá fatos menores. Se escandalões já não nos comovem, escandalinhos, então, passam batidos.

Vou pedir à elegante leitora e ao fino leitor que preste atenção à série de palavras corriqueiras que vem a seguir: livreco, teatreco, baileco, filmeco, repeteco, xaveco, romanceco, cacareco, padreco, jornaleco, boteco. Nessa lista, dois fatos saltam aos olhos. O primeiro, evidente, é que todas as palavras terminam em eco. O segundo é que todas elas trazem uma carga pejorativa, quando não francamente ofensiva. Não será difícil concluir que o sufixo eco, entre nós, costuma ser usado para rebaixar algo ou alguém. Taí um sufixozinho malicioso. A prudência aconselha a escolher outro, que evitar acidentes é dever de todos.

E o que tem esse eco a ver com os malfeitos nacionais? Chego lá. Esta semana foi anunciado que a mascote da Copa-14 foi batizada… Fuleco. Dizem que o nome foi proposto, junto com outros dois, por um comitê designado pela Fifa. Dizem também que esse nome era o melhor dos três. Mais vale nem perguntar quais eram as outras opções.

¡Vaya nombre feo!, se exclamariam os espanhóis. Os adolescentes, os adultos e os anciãos de Xiririca da Serra, tenho certeza, engrossam o coro: que nome mais feio! Enfim, que é que se pode fazer nestes tempos estranhos em que diktats da Fifa sobrepujam as leis da nação? Vamos de Fuleco mesmo, que não há outro jeito. Coragem, cidadãos, ainda nos restam os olhos para chorar.

Ainda bem que, passados os festejos, a ressaca e a dor de cabeça, a mascote há de descer às profundezas do esquecimento e carregar junto seu nome bizarro. Por desgraça, ai de nós, vão sobrar as dívidas e o prejuízo. Afinal, a alegria do povo tem seu preço. Que treco!