Eskindô x Se acabô

José Horta Manzano

Enquanto uns vão de eskindô, outros amargam um se acabô. Tirando um ou outro acometido de amnésia etílica, todos ficaram sabendo do constrangedor espetáculo oferecido este fim de semana ao mundo por Donald Trump, no papel de “quem manda aqui sou eu”.

Esquecido de que Zelenski não havia entrado de penetra, mas a convite, Trump desancou o visitante e humilhou-o diante de câmeras e microfones. Puseram-se em dois – o dono da casa e seu vice – para descer a lenha no ucraniano. Para coroar, puseram o visitante pra correr, expulsando-o antes que fizesse o pronunciamento final.

Todas as análises que li desde então foram unânimes em expressar espanto e mal-estar. De memória de jornalista acreditado junto à Presidência americana, nunca se viu (nem se imaginou) cena desse tipo. Por detrás de portas cerradas, ninguém garante que já não tenha havido murros na mesa, brados de protesto, gestos de ameaça. Diante de câmeras e microfones, no entanto, jamais se tinha visto algo parecido.

Apesar de a cena parecer ter sido espontânea, gerada pelo calor da hora, tenho palpite de que não foi exatamente assim. A meu ver, houve preparação minuciosa, combinação prévia, verdadeira emboscada. Vejamos.

Não é todo dia que se vê o presidente americano discutir política externa com um colega estrangeiro diante de um batalhão de jornalistas munidos de gravadores, holofotes e câmeras. O que se costuma ver são cinco minutos de sorrisos para permitir fotos que vão estampar as reportagens. Discussões, nunca.

Assim sendo, o assunto não era para ser discutido naquele momento. Se o foi, é porque o desmonte da imagem do ucraniano Zelenski tinha sido minuciosamente preparado. A certa altura, Trump deu a primeira paulada, sinal de que a encenação podia começar. Logo em cima, seu vice, sem que lhe fosse solicitado, entrou no meio da conversa para sentar a pua no infeliz visitante que, com conhecimentos insuficientes de inglês, titubeou, dançou e rolou.

Estamos diante de um caso estranho. Numa guerra que já dura três anos, causada por uma potência que despachou suas forças armadas para invadir o país vizinho, a maior potência bélica do planeta apoia abertamente o agressor e não o agredido. Trump, no fundo, está rebaixando seu próprio país a um nível que imaginávamos reservado a dirigentes periféricos, como Lula, que também destratou o presidente ucraniano e deu apoio a Putin, o invasor.

Trump não sabe ainda, mas atitudes como a que ele tomou no Salão Oval diante do presidente Zelenski vão na contramão de seu desejo de fazer que os EUA voltem a ser grandes (Make America Great Again). No dia seguinte ao do bate-boca, os países que, confiantes, tinham se abrigado desde 1945 sob o guarda-chuva nuclear americano entenderam que a aliança estava morta.

A Europa entendeu que, sem o apoio militar dos Estados Unidos, corre perigo existencial. A Rússia, por seu lado, também entendeu que, com um Trump indiferente, é chegada a hora de recompor a Grande Rússia, como nos tempos da URSS. Quem sabe qual será a primeira das novas vítimas? Um país báltico? A Romênia? A Finlândia? É bem capaz de acontecer antes do que imaginamos.

Rearmar-se leva tempo, mas a Europa já está no bom caminho. O Reino Unido e a França são países dotados da arma atômica. A Alemanha acaba de pedir à França que estenda sua proteção nuclear ao território alemão. As coisas estão se mexendo com rapidez.

Como vão ficar os que confiaram na proteção dos EUA? Taiwan, cobiçado pela China continental? O Japão, desarmado há 80 anos e confiante na proteção americana? A América Latina que, fascinada pela Florida e pelos EUA, rejeita ser colonizada pela Rússia ou pela China?

Ninguém garante que Trump pendure as chuteiras no encerrar deste mandato. Pode ser que ouse entortar a Constituição e propor-se para mais quatro anos. Pode ser também que o próximo presidente seja o atual vice, J.D.Vance, que tem comportamento ainda mais ignorantão e agressivo que o chefe. Portanto, não é possível cravar, neste momento, que daqui a 4 anos estaremos livres desse pesadelo.

Trump pode até tirar algum proveito de sua guerra de tarifas de importação. Mas periga ver uma debandada de bons e antigos aliados. Ninguém quer ter aliado não confiável.

O edifício e a maquineta

José Horta Manzano

O portentoso (e modernoso) edifício retratado aqui abaixo, obra do arquiteto Niemeyer, é a sede do TSE ‒ Tribunal Superior Eleitoral. Fica em Brasília. Especificidade brasileira, a instituição está encarregada de organizar e administrar eleições. Em outros países, uma simples comissão subordinada à Justiça comum faz o trabalho. Entre nós, decidimos pensar grande: há todo um aparato nacional para cuidar do assunto. Afinal, somos um país grande e rico, que diabos!

Deixo ao distinto leitor a tarefa de calcular, por alto, quanto nos deve custar o funcionamento da estrutura. Começa com os ministros togados de Brasília e se expande pelas 27 filiais estaduais, também chamadas de tribunais. A manutenção do imponente prédio brasiliense, dos palácios estaduais e de todo o pessoal há de custar os olhos da cara.

Assim mesmo, a julgar pelos eleitos, é dinheiro desperdiçado. Ainda se a pesada e caríssima estrutura produzisse bons frutos, vá lá, ninguém reclamaria. Mas o gasto exorbitante do dinheiro do contribuinte, neste caso preciso, não tem melhorado o nível dos eleitos.

by Constantin Ciosu (1938-), desenhista romeno

Domingo passado, o Amazonas votou para governador. Cassados o titular e o vice, não houve jeito senão convocar novas eleições. Para prestigiar o pleito, doutor Gilmar Mendes visitou a capital do estado no dia do voto. Entre outras declarações, ensinou que a urna eletrônica ‒ da qual tantos desconfiam ‒ é testada a cada eleição.

Devo confessar que desconhecia esse fato. Procurei me interessar. Como é feito o contrôle? Segundo doutor Mendes, escolhe-se aleatoriamente certa quantidade de urnas. Para cada uma delas, será conferido se a totalização corresponde à planilha oficial enviada a Brasília.

Como é que é? Ou entendi mal, ou esse teste não testa. O que se quer saber não é se os mesários transmitiram total falsificado. Só faltava. O que se quer é ter certeza de que a totalização automática da urna, ao final do voto, reflete com fidelidade a escolha dos eleitores. A verificação evocada pelo doutor não garante que o próprio software instalado na maquineta já não venha viciado.

Já disse e repito: os únicos capazes de garantir a lisura da totalização de cada aparelhinho são os que produziram o software. E, naturalmente, seus mandantes. Na falta de prova escrita e tangível, pode-se apenas conjecturar sem poder afirmar. Alguns países democráticos e avançados chegaram a testar a geringonça. Não adotaram. Continuam a votar com a boa velha cédula de papel. «Por algo será» ‒ alguma razão há de haver, como dizem os espanhóis. Sabidos, os latinos também já tinham constatado que «Scripta manent» ‒ o que está escrito permanece.

O trem-bala

José Horta Manzano

Uma primeira licitação está sendo preparada para a construção de um trem-bala ligando três grandes núcleos urbanos brasileiros: São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro. O valor estimado? Uma bagatela: 35 bilhões. Estimativa inicial, natualmente, sujeita a dobrar ou triplicar nos próximos anos. Mas isso é detalhe. O que são 50 ou 100 bilhões para um país rico e sem problemas como o nosso?

Primeira consideração:
São Paulo, Campinas e o Rio de Janeiro são cidades servidas por aeroportos de primeira linha. Uma ponte aérea funciona há mais de 50 anos entre o Rio e São Paulo, com partidas a cada 10 minutos. Quem tem pressa chega logo.

Train 2Segunda consideração:
Os mais de quarenta mil mortos (40’000!) em acidentes rodoviários que o Brasil registra a cada ano revelam uma desgraça nacional, um descalabro. Assistimos, indiferentes, a um genocídio continuado. Uma diminuição no volume de tráfego rodoviário seria mais que bem-vinda.

Terceira consideração:
Falta visão aos políticos brasileiros. Simplesmente porque são gente despreparada para as funções que pretendem exercer. A mentalidade que trouxe os primeiros povoadores europeus da terra tupiniquim continua valendo entre eles: après moi, le déluge. Depois de mim, pode vir até o dilúvio, porque estou aqui apenas para passar bem e ganhar dinheiro fácil. Se a coisa ficar preta, me mando pra Miami. Tchau e bença.

Quarta consideração:
Desde que se implantaram no Brasil nos anos 50, os fabricantes de automóveis, além de montar carros, montaram um grupo de pressão ― em bom português, um lobby ― destinado a abortar todo plano de expansão da rede ferroviária. As pressões foram tão fortes que desde então o governo central deixou até de investir na manutenção da malha existente. O resultado conhecemos todos: os caminhos de ferro do Brasil foram sucateados.

Conclusão:
Mesmo sem levar em consideração os inevitáveis «ajustes» de última hora, 35 bilhões de reais já é muita coisa. Melhor seria se o governo central investisse essa enxurrada de dinheiro na reabilitaçãTrain 3o do transporte ferroviário.

Na Europa, tirando algum caso muito especial e localizado, o transporte público intermunicipal se faz por estrada de ferro. Os trens são frequentes, limpos, bem cuidados, respeitam o horário, viajam a velocidades de cruzeiro entre 100 e 140km/h. Há sistemas de assinatura para viajantes frequentes: paga-se por mês ou por ano, com bom desconto. Tanto se pode escolher assinar por um determinado percurso ou pela rede nacional.

Aviões não se arriscam a levantar voo ou a pousar sob certas condições meteorológicas. Automóveis e ônibus não conseguem trafegar em pistas alagadas. Os trens são mais confiáveis. Chuva, vento, nevoeiro, frio, calor, neve, gelo ― nada impede que cumpram o prometido. O trem leva seus passageiros do centro de uma cidade até o coração de outra. Confortável e silenciosamente e, o que é ainda mais importante: sem poluir.

No Brasil, o material ferroviário foi liquidado, mas sobrou o traçado das linhas. Pode não parecer, mas a existência dessas rotas já é um grande passo: elimina ― ou diminui drasticamente ― o gasto com expropriações.

Por que não reabilitar a linha Campinas-SP-Rio, já existente? Que se refaça o traçado de certas curvas para permitir velocidade mais elevada. Que se reinstalem os dormentes. Que se invista em material, que se reabram as antigas estações, que se construam novas. Tudo isso custará infinitamente menos que um trem-bala. E ainda sobrará muito pano para mangas. Se as malversações permitirem, vai dar para reabilitar toda a rede ferroviária do Sudeste brasileiro.

Conosco ninguém podosco.