Curtidas e likes

O Globo, 3 fev° 2024

José Horta Manzano

Leitores poderão até reclamar que estou me preocupando com coisa de pouco interesse para cidadãos equilibrados. Respondo que não se trata realmente de preocupação, estou é curioso com os comos e os porquês. Mas vamos aos fatos.

Dona Marta Suplicy, que no mês que vem completa 79 aninhos (nem parece!), mudou de partido e voltou ao PT que havia abandonado 9 anos atrás. Por que voltou? Terá mudado o PT ou terá mudado ela? Ninguém sabe. Voltou explicando: “Sou petista raiz”. (Se for verdade, por que, diabos, abandonou seu partido de coração?)

A razão oficial da volta é conhecida: Madame vai se candidatar a vice-prefeita da capital paulista na chapa do sulfuroso Guilherme Boulos. O motivo verdadeiro do passo ousado é menos comentado. Por que razão uma senhora com currículo exuberante – já foi deputada federal, ministra do Turismo, ministra da Cultura, senadora, vice-presidente do Senado e prefeita de São Paulo – se rebaixa, em fim de carreira, a candidatar-se a substituta do prefeito, cargo de importância secundária?

Que o Lula, aos 77 anos, tenha se arriscado a tentar reconquistar o cargo de presidente, dá pra entender. Afinal, ele queria provar a si mesmo (e ao mundo) que a prisão não tinha acabado com ele. Era pra ser a grande revanche do tipo: “Quiseram me enterrar? Não conseguiram!”. Na verdade, acredito que Luiz Inácio teria se contentado com os louros da vitória, sem o ônus de ter de batalhar quatro anos no cargo de presidente. Depois de subir a rampa, foi-se o sossego e o Lula se tornou prancha de tiro ao alvo – recebe zilhões de críticas e reclamações todos os dias.

Tornar-se famoso e conhecido por amplo público é sonho de muita gente. A vida moderna oferece numerosas possibilidades de chegar lá. Redes sociais, BBBs, canais de influenciador(a) estão aí pra gerar ‘likes’ pra quem quiser. Hoje em dia, cidadão que não consegue um punhado de curtidas por dia sente-se como o infeliz que “passou pela vida, não viveu”.

Na minha humilde opinião, dona Marta (do PT, como dizia Maluf) já é dona de uma robusta coleção de ‘likes’, granjeados durante as décadas que passou na política. Acredito que candidatar-se, a esta altura dos acontecimentos, ao posto mais insignificante de sua vida política não vai glorificar seu currículo.

Se perder a eleição, pior ainda.

A festa continua

Carlos Brickmann (*)

Na época em que o Macaco Tião, chimpanzé nascido e alojado no Zoológico carioca, fez sucesso como candidato no Rio, um dos seus slogans era ótimo: “Vote no Macaco Tião. O único que já vem preso”.

Pois o Macaco Tião, 14 anos após sua morte, 32 anos após ser candidato, acaba de perder a exclusividade: Cristiane Brasil, presa preventivamente, foi aprovada como candidata do PTB à Prefeitura carioca. Mesmo se acontecer uma condenação, diz o partido, ela continua candidata, já que a Lei da Ficha Limpa só a atingiria se fosse condenada em segunda instância. Cristiane é acusada de participar do núcleo político de uma organização especializada em fraudar licitações entre 2013 e 2017. Já teve problemas anteriores, por outras acusações. Em 2018, foi escolhida ministra pelo presidente Michel Temer, que retribuía o apoio de seu pai, Roberto Jefferson, supremo cacique do PTB, mas sua posse foi vetada pela Justiça.

Cristiane Brasil pode ser eleita para a Prefeitura? Não está entre as favoritas. Mas Wilson Witzel também não estava entre os favoritos e ganhou a eleição para governador. Além disso, o eleitorado do Rio tem caprichado nas eleições: dos ex-governadores do Rio, cinco foram presos (sendo que um, Sérgio Cabral, continua na cadeia), e outro, Wilson Witzel, foi afastado, com risco real de impeachment e acusações que podem levá-lo a processo penal. Cristiane Brasil pode ser eleita para a Prefeitura, por que não?

O texto é um excerto. Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e blogueiro.

Ainda não é hora

José Horta Manzano

É brincando que se dizem as verdades. É na hora da descontração que cada um desnuda sua verdadeira personalidade. Quem nasceu pra tostão não chega a merréis. Adote o distinto leitor o ditado que lhe parecer mais adequado.

Sábado passado, a convenção partidária que chancelou a candidatura de dona Dilma a suceder a si mesma no cargo de chefe do Executivo da República contou com a presença do indispensável Lula, condimento de todas as batalhas.

Segundo relato do repórter da Agência France Presse ― ecoado pela Folha de São Paulo ― nosso messias estava bem-humorado. Os (raros) repentes de bom humor do antigo presidente costumam gerar apreensão entre assessores. Periga sair alguma sandice. Tiro e queda, foi o que aconteceu.

“É a primeira vez que uma equipe de futebol perde por excesso de qualidade dos nossos estádios. A Inglaterra não estava acostumada a jogar em um campo da qualidade dos que temos aqui” ― foi o que declarou um atrevido Lula, que continua a crer que o mundo gira em torno de sua pessoa.

Estadio 1Com certas coisas, não se deve brincar. Ao enfatizar que a eliminação dos visitantes se deveu à qualidade excepcional dos estádios brasileiros, deixou implícito que as outras seleções europeias ― as que não foram eliminadas ― dispõem de estádios melhores. Denegrir a nação que inventou o futebol não cai bem na boca de um líder partidário que, ainda por cima, já foi até presidente do País. Por que essa ofensa dirigida gratuita e especificamente aos ingleses?

Considerando que ele já conseguiu proezas como conciliar revolução proletária com peleguismo e firmar aliança com Collor, Maluf e Sarney, Lula mostrou uma faceta intolerante e preconceituosa.

Na cabeça de nosso guia, o excesso de qualidade de nossos estádios deve rimar com o excesso de democracia da Venezuela, distorção devidamente detectada e denunciada por ele em 2005.

Ainda não chegou a hora de fazer pouco daquele povo. No dia em que os súditos britânicos decidirem vir tratar da saúde em nossos hospitais públicos e estudar em nossas universidades, aí sim, poderemos nos vangloriar.