Sexo por obrigação

 

Myrthes Suplicy Vieira (*)

De todos os pronunciamentos delirantes a respeito da condição feminina, sua estrutura psíquica e interpretações quanto à sua disponibilidade para o sexo feitos ultimamente por integrantes da ala masculina ultraconservadora brasileira, o mais surpreendente e intrigante foi sem dúvida o registrado pela pena do digníssimo procurador de São Paulo, Anderson Gois dos Santos.

Num e-mail enviado a seus colegas da Procuradoria, ele propõe textualmente que “é de fundamental importância recuperar a ideia do débito conjugal no casamento”. E acrescentou, para perplexidade geral: “A esposa que não cumpre o débito conjugal deve ter uma boa explicação, sob pena de dissolução da união e perda de todos os benefícios patrimoniais”.

Fiquei tão impactada com o caráter medieval da proposta que fui pesquisar na Internet o que significa aos olhos da lei o débito conjugal e como esse conceito se insere na jurisprudência brasileira. Descobri que ele teve origem no Direito Canônico e foi absorvido no Código Civil de 1916. Depois que a constituição de 1988 introduziu a necessidade de observância do direito à dignidade de toda pessoa humana e a igualdade de direitos entre homens e mulheres no casamento, a tese perdeu amparo legal, embora hoje em dia ainda existam casos de pedidos de divórcio aceitos em tribunal por ter a mulher se recusado a fazer sexo com o marido.

Dado o furor condenatório com que juristas e colegas procuradores receberam a proposta, acusando seu autor de estar disfarçadamente defendendo a legalidade do estupro marital, ele achou por bem se antecipar e esmiuçar as ‘terríveis’ consequências sociais da não-aprovação de sua proposta: a recusa feminina em cumprir suas obrigações sexuais teria o potencial de levar a “traições desnecessárias” [não deixou claro se, no seu entender, haveria alguma forma de traição necessária], consumo de pornografia e acúmulo de pedidos de divórcio.

Arrogou-se ainda o direito de pontificar sobre questões fora de sua área de especialização, fazendo uma incursão amadora, típica de almanaque de farmácia do início do século 20, ao território da psicologia e da psiquiatria. Associou o feminismo a um “transtorno mental” ainda a ser catalogado num futuro CID [Classificação Internacional de Doenças], apontou as causas do distúrbio como “problemas com os pais na criação” e “muita mágoa no coração”. E foi além, descrevendo no mais misógino dos estilos a luta pelo empoderamento feminino como uma “tentativa de suprir profundos recalques e dissabores com o sexo masculino, gerado por suas próprias escolhas de parceiros conjugais”. Culpa da vítima, é claro.

Confesso que fiquei na dúvida se o foco de sua intervenção era efetivamente o de discutir os aspectos psicossociais pertinentes às obrigações conjugais ou se, além e acima dessas preocupações, pairava na mente dele a urgência de encontrar formas jurídicas seguras de proteger o patrimônio financeiro do homem casado, livrando-o da necessidade de dividi-lo com uma esposa não merecedora de tal ‘privilégio’.

Não pretendo ir a fundo na exploração das impropriedades científicas nas quais ele incorreu ao se manifestar sobre traumas psicológicos, dificuldades de identificação com o papel sexual e motivações aberrantes que comporiam em tese o perfil das mulheres feministas. São tantos e tão complexos os fatores envolvidos nessa questão que prefiro me abster, por puro cansaço e tédio antecipado. Deixo a cargo dos especialistas em psiquiatria a revelação de quais e quantos transtornos mentais estão na base da virilidade tóxica, essa sim uma doença passível de enquadramento num próximo CID.

Entretanto, reservo-me o direito de apontar a sobreposição ilógica de conceitos díspares que permeiam o raciocínio do douto procurador. Lídimo representante do pensamento binário, ao misturar num mesmo balaio a recusa a fazer sexo com o parceiro oficial e o comportamento feminista, ele deixa entrever que aposta que feminista é toda mulher que não gosta de homem. O que, convenhamos, deve ser fonte de muita angústia e ansiedade para ele.

No entanto, o que mais chamou minha atenção na proposta de revitalização da norma de “débito conjugal” foi a desconsideração – intencional ou acidental – da existência também da obrigação do marido em manter relações sexuais regulares com sua esposa. Passei horas me divertindo com a possibilidade de inversão do raciocínio, isto é, a eventualidade de uma mulher ingressar na justiça com uma queixa contra o esposo por ele ter falhado em cumprir suas obrigações sexuais no casamento e consequentemente pleitear que ele fosse destituído dos direitos à divisão do patrimônio do casal.

Em meio a piruetas mentais, acabei concebendo a seguinte cláusula contratual pré-matrimonial que poderia ser exigida pela mulher: “A parte masculina do presente contrato compromete-se a realizar o ato sexual com a parte feminina no mínimo 3 (três) vezes por semana, por todo o tempo que durar a convivência do casal, independentemente da presença de fatores limitantes à atividade, como idade, doenças físicas e mentais, abatimento com a situação financeira, consumo de bebidas alcoólicas ou drogas psicoativas e outros elementos intervenientes ocasionais, com penetração obrigatória em cada coito e número indeterminado de tentativas, até que a parte feminina atinja o orgasmo ou se declare plenamente satisfeita. Se, para tanto, a parte masculina não corresponder às expectativas de desempenho da parte feminina, assim descumprindo a presente cláusula, sob qualquer tipo de alegação, estará ele sujeito à pena de dissolução unilateral do contrato conjugal e perda do direito à divisão dos bens patrimoniais auferidos pelo casal”.

Cheguei até a fantasiar uma cena de novela rural ilustrativa desse novo enquadramento jurídico: uma “coronela”, empresária de sucesso no ramo agropecuário, entra no quarto do casal e dirige-se ao marido, que está deitado, de pijama e cueca furada, fingindo dormir, com as seguintes palavras: “Levanta já daí, seu imprestável! Vai se lavar porque hoje eu vou te usar”. Ou ainda, num contexto mais urbano, uma cena em que a mulher informasse ao parceiro intimidado por não conseguir uma ereção: “Vamos logo que hoje eu estou sem tempo e sem paciência. Se você não der no couro, vou dar para o primeiro que passar pela minha porta”.

Voltando a falar sério, qualquer que seja o ângulo pelo qual a proposta do procurador seja examinada, fica claro que não se trata apenas de anacronismo obscurantista: é um total desconhecimento da fisiologia humana e do funcionamento psíquico. Como associar sexo a obrigação se estamos falando de uma pulsão animal natural e instintiva que tem como principal propósito o prazer e o alívio das tensões? Como garantir a necessária lubrificação na mulher e a ereção masculina se na cabeça dos parceiros há um imperativo categórico de desempenho imediato? Até mesmo entre animais inferiores na escala filogenética, se a fêmea da espécie não consente com a cópula, mesmo estando no cio, ela simplesmente não acontece. Não há nada que o macho possa fazer para dissuadi-la da recusa, a não ser estupra-la, é claro – mas, se isso acontecer, quase certamente ocorrerá em meio a muita luta, sangue e provável despedaçamento de corpos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

As palavras que escondem os fatos

Carlos Brickmann (*)

O ex-presidente Jânio Quadros era mestre nisso: pendurou chuteiras na porta de sua sala (para indicar que não pretendia mais disputar eleições), apareceu com uma calça por cima da outra, a de cima arregaçada para mostrar a de baixo, simulando distração.

O então prefeito César Maia, no calor do verão carioca, saiu de casa todo agasalhado, entrou num açougue e pediu sorvete. Doidos? Não: doido é quem pensa que isso é para valer. Na verdade, queriam manter-se nos holofotes e escolher o tema das discussões.

A reunião de Bolsonaro com os diplomatas para falar mal das urnas em que se elegeu por mais de vinte anos foi absurda. Ou não: para o presidente, é melhor que discutam o inglês mambembe de sua assessoria e a ideia boba, e não o preço do leite e da carne. Alta de preços é tema de interesse de toda a população. Uma chatíssima discussão cheia de fatos duvidosos não causa prejuízo eleitoral nenhum.

Quem não é bolsonarista critica; quem é fará tudo para explicar como aquela atitude foi brilhante ou correta. E ninguém vai mudar de ideia por causa disso. Boa parte dos eleitores não vai perder seu tempo discutindo fragilidades cibernéticas e como corrigi-las.

Ah, confirma que o presidente pensa num golpe? De novo, os bolsonaristas negam que ele pense num golpe e, se ele tentar o golpe, descobrirão um bom motivo para o apoiar. E os antibolsonaristas estão convencidos de que ele só pensa nisso.

Esse tipo de discussão serve apenas para ocultar o que deve ser discutido.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

Os esbirros de Bolsonaro

Ruy Castro (*)

Às vezes falo aqui nos esbirros de Jair Bolsonaro. Já foi uma palavra comum na imprensa, mas ficou fora de moda, daí leitores me perguntarem o significado. Houve quem a confundisse com espirro, sem saber que, achando repulsivos os espirros de Bolsonaro, eu jamais macularia esse espaço com eles. Para outros, talvez eu quisesse escrever esporro, o que faria sentido – nunca houve presidente tão estúpido e dado a governar por esporros. E ainda outros arriscaram esparro e esbarro. De fato, as duas palavras têm a ver: esparro é aquele que dá um esbarro na vítima para o punguista bater-lhe a carteira. Bolsonaro fica bem nos dois papéis, de esparro e punguista.

Esbirro, tecnicamente, é um agente da polícia, um guarda, um guarda-costas. Mas é ainda sinônimo de beleguim, que, nos dicionários, remete a tira, capanga, jagunço, quadrilheiro, alguém entre a lei e fora dela. Os esbirros a que os velhos jornais se referiam eram a guarda pessoal de Getulio Vargas no Catete, comandada por Gregorio Fortunato, e os de Carlos Lacerda na Guanabara, em torno de Cecil Borer. Muita gente foi para o Caju ou para o Pronto-Socorro depois de passar por eles.

Bolsonaro ampliou o conceito de esbirro. Não se limita mais àqueles rapazes carecas e sarados, incrustados no Bope, na PM e até na Câmara dos Deputados, que ele e seus filhos gostam de condecorar. São agora qualquer um a quem ele delega o trabalho sujo, como o de executar certas medidas cruéis e violentas –Marcelo Queiroga, Augusto Heleno, Braga Neto, Luiz Eduardo Ramos, Fábio Faria, Mario Frias, Sérgio Camargo.

Esbirros que ficarão na história foram também Eduardo Pazuello, Abraham Weintraub, Fabio Wajngarten, Ernesto Araújo, Ricardo Salles, Sergio Moro, muitos mais. Não importa que alguns se tenham voltado contra o chefe. Um dia, ladraram e morderam em seu nome.

Os esbirros de Bolsonaro se julgam finos. Mas não são, não. Esbirro é esbirro.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

O vexame

Reinaldo Azevedo (*)

A vergonha a que [Bolsonaro] submeteu o país na reunião com embaixadores, deixando-se ladear por generais não menos golpistas do que ele próprio, indica que é chegada a hora de reagir.

O país precisa saber onde estão os empresários que consideram a democracia inegociável e onde estão os negociantes de democracia. A hora é agora, não depois.

Como se viu, na conversa com os embaixadores, Bolsonaro sugere que está apenas defendendo a democracia. Nunca a pistolagem antidemocrática, que se fantasia de verde-amarelo, chegou tão longe.

(*) Reinaldo Azevedo é jornalista, analista político e blogueiro.

Mais compliance e menos complacência

Eduardo Affonso (*)

A intolerância e a impunidade não vicejaram no Brasil da noite para o dia. Faz tempo que vimos tolerando os intolerantes e tendo pena dos impunes.

O casal que assassinou a atriz Daniella Perez passou menos de sete anos na prisão. Se na Black Friday tudo custa a metade do dobro, pelo Código Penal os descontos são bem mais vantajosos: vão de 60% (crimes hediondos) a 83,33% (crimes comuns).

A progressão da pena também já beneficiou a moça que mandou executar os pais, a mulher que atirou no marido e o esquartejou, o casal que asfixiou a filha de 5 anos e a jogou pela janela, o goleiro que matou a ex-amante e deu sumiço no corpo. Em breve, entrarão nessa lista a dona de casa que envenenou os filhos do marido, o vereador que espancou até a morte o enteado de 4 anos e mais alguns milhares de feminicidas, infanticidas, parricidas e afins. Entre estes, se condenados, o policial que invadiu uma festa e assassinou o aniversariante (por “provocações políticas” ) e o médico que estuprou sabe-se lá quantas gestantes durante o parto.

O bom senso recomenda não ir ao supermercado quando se está com fome ou querer mudar as leis em momento de comoção (estômago vazio e desejo de vingança são péssimos conselheiros). Mas não há como não sentir certo desconforto com um sistema penal que tão depressa deixa tantos criminosos livres, leves e soltos.

Esse tipo de pensamento é tachado de “cultura do punitivismo”. Mas, se a pena serve para que o Estado reeduque e reinsira na sociedade aqueles que infringiram a lei, qual será o tempo necessário para que um psicopata ou um fanatizado voltem, regenerados, ao convívio social?

Não é de uma hora para a outra que um médico decide pôr em risco a vida da parturiente e do nascituro, com doses excessivas de sedativos, e consumar um estupro – em pleno centro cirúrgico, diante de uma equipe médica. Até adquirir tamanha desenvoltura, houve um longo aprimoramento da técnica. Muitos sinais devem ter sido percebidos – e ignorados.

– Para prender Lula, vai ter que matar gente – ameaçou Gleisi Hoffmann em 2018.

Meses depois, Bolsonaro conclamava os acrianos:

– Vamos fuzilar a petralhada.

Em 2017, Benedita da Silva se amparava na Bíblia para profetizar que “sem derramamento de sangue, não há redenção”. A mesma Bíblia invocada meses antes por Bolsonaro:

– Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem.

Avisos de radicalização não faltaram – e foram relevados. Eram “em sentido figurado” – pelo menos até a semana passada.

A demora da Justiça em perceber que não está fazendo jus ao nome pode levar o pêndulo para o lado oposto da leniência, a demanda por penas severas demais. E termos sido tão condescendentes com a radicalização política, a uma ruptura de consequências imprevisíveis.

Nada que um pouco mais de compliance (conformidade com as leis e padrões éticos) e menos de complacência não ajudassem a resolver.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Bolsonaro e os militares

Bolsonaro e chefes militares em reunião

Marcelo Godoy (*)

O Brasil tem atualmente na função de ministro da Defesa o general Paulo Sérgio Oliveira que, durante recente reunião ministerial, tratou das urnas eletrônicas, plantando dúvidas como a de que as Justiças Eleitorais dos Estados não fariam a soma dos votos para presidente.

Qualquer escrevente do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo sabe o tamanho dessa impostura. A magistratura paulista pode dar seu testemunho da lisura das eleições. Duvidar dela é ofender a honra de centenas de juízes que trabalham a cada ciclo eleitoral. E quem o faz tem apenas um objetivo: manter as sinecuras de uns tantos espertalhões em Brasília.

(*) Marcelo Godoy é jornalista especializado em assuntos militares. O texto foi extraído de artigo de 11 jul° 2022.

Eremildo, o idiota

Elio Gaspari (*)

Eremildo é um idiota e acredita em tudo que o governo diz. Ele aplaudiu de pé o decreto que obriga os postos de gasolina a mostrar a evolução do preço do litro.

O cretino sugere a expansão da medida. As quitandas seriam obrigadas a mostrar o preço do tomate, do arroz e do feijão antes da posse de Bolsonaro. A gasolina, por exemplo, custava R$ 2,60.

(*) Elio Gaspari é jornalista. O texto é parte de artigo publicado em 10 jul 2022 n’O Globo. Aqui para assinantes.

Brincando com fogo

Carlos Brickmann (*)

Chega! A escalada de provocações está criando um ambiente político em que alguma tragédia acabará acontecendo. Os dois principais candidatos têm adeptos fervorosos, que odeiam o adversário. Há grupos perigosos de ambos os lados: ou milicianos ou invasores (e destruidores) de propriedades. Para os dois principais candidatos, ideias, rumos, planos são bobagens. Ambos se oferecem como produtos contrabandeados: “La garantía soy yo”. Que se pode esperar de uma campanha suja, marcada por raiva e agressividade?

Já existem faíscas. Jogaram fezes e urina no carro do juiz que ordenou a prisão do ex-ministro acusado de terceirizar a distribuição de verbas. Já deram um tiro nas janelas do jornal Folha de S.Paulo. Jogaram uma garrafa de urina e fezes (deve ser padrão), numa garrafa com explosivos, no comício de Lula no Rio. Há dias, militantes de um grupo comunista impediram uma palestra de políticos adversários na Unicamp – numa universidade!

Por enquanto a coisa está limitada à grosseria e à falta de educação. Mas basta que um desses grupos nojentos encontre alguém irritado que acelere o carro e atropele alguém, ou um dos milhares de clientes das lojas de armas, para que haja a tragédia completa. Vamos fingir que não vemos até que alguém seja morto? A eleição existe para que o eleitor escolha seus dirigentes sem a necessidade de luta armada. Se é para haver luta armada, para que eleição?

Não é exagero: a Primeira Guerra Mundial começou com um atentado.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

“Escolha moral é para quem não tem fome”

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Você concorda com essa afirmação? Pense um pouco: se, por um lado, ela explica por que o furto famélico encontra muitas vezes uma jurisprudência de tolerância e até de não-punição, por outro, pode servir de argumento para, por exemplo, justificar a reeleição de Bolsonaro, diante do pacote de bondades que ele acaba de implementar com o auxílio luxuoso do Centrão. Mesmo que os beneficiados estejam profundamente insatisfeitos com os atos de seu governo e condenem vigorosamente a defesa que ele faz da compra de armas em vez do feijão.

Antes de esclarecer quem foi que disse essa frase, proponho que você reflita sobre qual seria sua escolha caso estivesse na mesma situação das pessoas que se viram forçadas a abandonar seus princípios e valores morais para não ver sua família morrer de fome. Se você acha que está imune por ser uma “pessoa de bem”, incorruptível, que está acima das paixões humanas mais comezinhas, detentora de uma postura ética inabalável quaisquer que sejam as circunstâncias externas, eu o convido a pensar duas vezes. Responder com orgulho, dizendo que preferiria morrer de fome a se dobrar à tentação de roubar um pedaço de carne, um pacote de arroz, pão ou leite, revirar latas de lixo ou correr atrás de um caminhão para pegar ossos descartados, é se atribuir uma natureza essencialmente angelical – ou, pior, divina – mas que, em nenhuma hipótese, guarda relação com a frágil e imperfeita condição humana.

Absolutamente tudo já foi dito a respeito dos problemas cognitivos, disciplinares, diplomáticos e administrativos do ex-capitão. É chegada a hora de analisarmos com coragem o perfil de seus eleitores em potencial. Tradicionalmente, os eleitores do Nordeste e de outras áreas carentes da periferia do país foram acusados de serem os responsáveis pela manutenção de oligarquias perversas no poder, por aceitarem cair na armadilha do voto de cabresto, em troca de uma dentadura nova ou um par de alpargatas. Agora, num cenário desolador de pandemia, desemprego, redução de poder aquisitivo e desesperança entre os mais jovens, são os eleitores ‘nem-nem’ [que não querem a volta de Lula nem a reeleição de Bolsonaro] os mais propensos a mudar sua intenção de voto e cristãmente oferecer a outra face e dar uma segunda chance ao Anticristo em pessoa, imaginando que ele saberá finalmente orientar sua reeleição para o atendimento das demandas mais primárias do povo sofrido e contemplá-lo com novas benesses. Ao menos é isso o que indicam as mais recentes pesquisas eleitorais.

É preciso admitir: somos todos tão reféns da violência política e ideológica obscurantista de Bolsonaro quanto as mulheres vítimas de violência doméstica que decidem voltar para os braços de seus agressores alegando que “ruim com ele, pior sem ele”. E, parafraseando meu colega de profissão, Gasparetto, só se desilude quem se ilude.

Será a fome uma força-motriz superior à comoção pela morte de mais de 670 mil brasileiros e à indignação com o brutal retrocesso da democracia brasileira, além do descarado desmonte dos projetos de proteção ao meio ambiente e da educação de qualidade que poderiam garantir nosso futuro? Se você pensa que sim, lembre-se que a fome já ameaça a vida de 33 milhões de conterrâneos e coloca contra a parede 61 milhões que vivem em insegurança alimentar. Se essa turma toda resolver, de fato, abrir mão de uma escolha moral nas próximas eleições, estaremos definitivamente fritos. Por isso, antes de começar a atacar nas redes sociais esse “povinho alienado”, o gado bolsonarista, os evangélicos fundamentalistas, e reclamar pela enésima vez que “brasileiro não sabe votar”, reflita sobre os fatores estruturais que deram origem à nossa tenebrosa desigualdade social e a mantêm incólume até hoje. E pare de poupar os farialimers, os empresários ligados ao agronegócio e os economistas que colocam o equilíbrio fiscal acima do bem-estar e da qualidade de vida da população.

Identificar seu ‘lugar de fala’ na análise do quadro eleitoral pode ser uma providência necessária mas não suficiente. Há uma série de tarefas mais sérias e mais urgentes a realizar antes de outubro próximo. A primeira delas, me parece, é que você se desvie das polêmicas externas de ocasião e encare a frio de que forma você historicamente contribuiu com seu voto para perpetuar a eleição de pretensos salvadores da pátria de todas as colorações ideológicas.

Aprender a distinguir as consequências de votar em um nome forte o bastante para se opor “a tudo o que está aí” e da escolha consciente de um projeto de país talvez seja a tarefa mais difícil que o aguarda. Se a terceira via não lhe apetece porque você não quer “perder o voto”, pense que mais uma vez você está impedindo a renovação dos quadros políticos nacionais e empurrando todo mundo a fazer mais uma impossível “escolha de Sofia”. Embora a jornada de mapeamento honesto de suas próprias motivações seja longa e dolorosa, é fundamental que você entenda que eleição presidencial não é o mesmo que votar em um ‘reality-show’ para decidir quem fica e quem sai. Achar que democracia é apenas depositar seu voto na urna, lavar as mãos e voltar para casa à espera do milagre da multiplicação dos pães é a forma mais segura de fomentar o desastre.

Portanto, se você não passa fome (ainda), a única escolha legitima que tem a fazer é se juntar às forças de oposição para promover a conscientização – de famintos e não-famintos – a respeito do que é cidadania responsável. Deixar-se levar por falácias do tipo “É tudo farinha do mesmo saco” não ajuda a fazer avançar nossa carcomida República.

Ah, já ia me esquecendo de contar que não foi nenhum economista, sociólogo, psicólogo ou filósofo que disse a frase acima. Ela apareceu de surpresa, no meio do capítulo final de uma novela, na boca do protagonista, um indivíduo que hesitava o tempo todo entre assumir de vez sua vilania ou fazer acreditar que era apenas vítima impotente de um destino cruel.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A Amazônia não é brasileira

Ascânio Seleme (*)

São tolos e mal informados os que pensam que a Amazônia é brasileira. Não é. A floresta não pertence a Brasil, Colômbia, Venezuela, Peru, Equador, Guianas. Sua imensidão territorial se estende por esses países e colônias, mas sua importância ultrapassa toda e qualquer fronteira.

Parece que ainda vai demorar muito até que se perceba que, para salvar o mundo, será necessária uma política globalmente estruturada para defender a Amazônia. Pode ser tarde.

Por ora, quem tenta proteger a floresta de seus algozes são homens bons como Bruno Pereira e Dom Phillips. E esses são sistematicamente sabotados por governos ou assassinados por pessoas com interesses contrariados.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo.

Os EUA à beira da ruptura

Laurent Sagalovitsch (*)

Se os Estados Unidos continuarem a se dilacerar desse jeito, vai acabar chegando um momento em que o país terá de fazer uma escolha terrível: ou uma guerra civil ou uma separação em duas entidades distintas. Não haverá outra opção possível, considerando que o vão que separa o lado progressista do outro, chegado a um conservadorismo retrógrado, se alarga a cada dia que passa.

Uma nação só faz sentido se seus habitantes compartilharem pelo menos alguns ideais em comum, um punhado de grandes princípios em torno dos quais a vida em sociedade consegue se articular. Não se trata de serem todos uniformemente semelhantes, mas de se entenderem pelo menos um pouco sobre valores que garantem a cada um o direito de levar a vida como melhor lhe parece, sob o império de uma lei igual para todos.

Isso é ainda mais verdadeiro num regime democrático, em que a pluralidade de opiniões contribui para a riqueza do país. Podemos não estar de acordo em nada, mas pelo menos concordamos em achar que todas as opiniões têm seu valor, desde que se inscrevam tanto no respeito das liberdades individuais como no rigoroso respeito das instituições.

Pois hoje, nos Estados Unidos, não somente ninguém mais está de acordo sobre nada – sobre o aborto, sobre as armas de fogo, sobre o papel da religião, sobre o meio ambiente, sobre a economia – mas até a vida democrática, em sua expressão eleitoral, não suscita mais consenso. A divisão é tão profunda que ninguém mais está disposto a aceitar a chegada de um presidente qui não seja de seu campo político.

Assim sendo, fica difícil enxergar como um país desse jeito poderia continuar a funcionar. Se não somente eles se opõem em questões de sociedade mas, além disso, questionam o próprio princípio de alternância no topo do Estado, é sinal de que se encontram de facto em estado de guerra latente, de enfrentamento ideológico que a qualquer momento pode degenerar em violência e sangue.

Atualmente, o que é que têm em comum os eleitores republicanos com seus compadres democratas? A resposta é simples: nada. Um nada que revela a oposição entre uma parte do país, pronta para despencar numa espécie de ditadura religiosa a um pulinho do obscurantismo, e uma outra, que cultiva o princípio da liberdade, da tolerância e do progresso social. Estamos de fato diante de uma ruptura, uma confrontação entre duas visões do mundo em que cada lado chega a negar ao outro a possibilidade de existir.

A verdade é que é difícil imaginar como, dilacerado por tantas divergências, o país poderia continuar a existir como nação. Os Estados Unidos, do jeito que se apresentam hoje, não fazem mais sentido. Parecem um trem com duas locomotivas, uma na frente e outra atrás, puxando em sentidos opostos, uma em direção a uma sociedade mais respeitosa de suas minorias, mais apta a encarar os desafios ecológicos dos séculos vindouros, e a outra se dirigindo para um modo de funcionamento em que pressupostos religiosos – tão inúteis quanto discutíveis no plano ético – procurassem trazer o trem de volta aos séculos passados.

Os EUA têm de se reinventar, e para isso, em vez de depurar suas querelas existenciais no sangue – guerras civis são em geral as mais cruéis, os EUA sabem disso muito bem – optar pela única solução capaz de manter a paz civil: a separação de papel passado. Ou seja, um bloco progressista enraizado na costa do Pacífico ao qual se juntariam o nordeste do país e outros estados dispersos aqui e ali, e um bloco nacionalista-conservador-religioso situado entre os dois oceanos, no coração do país.

Não sei que forma poderia tomar uma reorganização desse porte. Uma divisão pura e simples com criação de duas novas nações, ou uma espécie de confederação sem fronteira física mas com dois governos bem distintos, duas Constituições, dois presidentes – duas entidades capazes de comerciar reciprocamente sem se meter nos negócios internos uma da outra. Cada cidadão poderia escolher estabelecer-se na parte do país que melhor correspondesse a sua sensibilidade. Não seria uma guerra, só um divórcio amigável em que cada um trataria de viver sua diferença sem procurar impor ao outro seu modo de vida e sua maneira de pensar.

(*) Laurent Sagalovitsch é escritor e articulista franco-canadense.

Traduzido do original francês por este blogueiro.

ETs

Carlos Brickmann (*)

Um sábio empresário disse certa vez a este jornalista que se alguma coisa só existe no Brasil, e não é jabuticaba, não presta. Pois vamos em frente.

Como se sabe, o Senado não costuma trabalhar às sextas-feiras. Mas nesta sexta, 24, o Senado trabalhou: comemorou o 75º aniversário do Dia Mundial dos Discos Voadores, por iniciativa do senador Eduardo Girão, do Podemos do Ceará.

Na sessão, o ex-deputado Wilson Picler disse que quase um terço dos brasileiros acreditam em ETs; e mais da metade dos ateus e agnósticos creem em discos voadores e seres espaciais, “mais em ETs do que em Deus”. Girão disse que o Brasil é o primeiro país a reconhecer que discos voadores existem e são extraterrestres. Chamou a sessão de “histórica”.

Fome, guerra, inflação? São temas que podem esperar a semana que vem.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

A reforma da gramática

Eduardo Affonso (*)

A tentativa de implantar uma linguagem neutra, obrigando 213 milhões de brasileiros a incorporar novos substantivos (amigue, alune, patroe, empregade), pode até não ser uma ideia ruim de todo.

Se essa turma voltar ao poder (e ela está à frente nas pesquisas de intenção de voto), teremos a chance única de pegar carona no fim do machismo tóxico do idioma, aproveitar o inevitável processo de realfabetização e liquidar vários outros problemas da língua.

Com os novos adjetivos (progressiste, gorde, fasciste, golpiste), podíamos dar um jeito nos verbos irregulares.

Não há criança que não diga “eu fazi” antes de ser repreendida e adestrada a dizer “eu fiz” – que não faz nenhum sentido e vem sem qualquer explicação.

“Fazi” é, intuitivamente, o certo – e o cérebro (principalmente o infantil) é inteligente o bastante para entender conceitos, generalizá-los e colocá-los em prática. Cada verbo irregular é obstáculo ao aprendizado, uma freada brusca nas sinapses, um “volte duas casas” na compreensão de como funciona essa abstração maravilhosa que é a linguagem.

Se a criança diz “eu comi, eu li, eu corri”, por que haveria de estar errada ao dizer “eu queri, eu sabi, eu trazi ou eu cabi”? Acabemos com o falocentrismo do masculino genérico e com as irregularidades verbais, de uma tacada só.

Como vamos ter novos pronomes inclusivos (elu, minhe, nenhume, outre, cuje), que tal eliminar os privilégios ortográficos? Poderíamos começar pela palavra “exceção”, que costuma ser escrita das mais variadas formas – excepcionalmente, até da forma correta.

Pronomes neutros e tratamento igualitário à grafia – isso, sim, é uma pauta democrática. Se o som é de S, só o S deve ter lugar de fala (ops, de escrita). Não à apropriação fonética feita por Ç, SS, SC ou X. Exceção vira “esesão” – e, assim, até ministros do atual governo serão capazes de escrever palavras difíceis como “acesso” e “impressionante” (doravante, tudo com S). O mesmo valerá para o que soe como Z ou como J. Quem corrige prova do Enem poderá se ater apenas ao conteúdo, sem uma síncope a cada batatada ortográfica.

Com particípios também passados a limpo (eleite, derrotade, auditade, ressentide), será hora de abolir o hífen. Por que guarda-chuva tem hífen e mandachuva não tem? Por que não tem hífen em camisa de força e tem em água-de-colônia? “Fora, hífen!” viria se juntar às faixas de “Fora FHC!”, “Fora Temer!”, “Fora Bolsonaro!” e “Fora ____!” (preencher com o nome do próximo presidente que não for de esquerda). Vírgula separando o vocativo, por favor.

Mas pode-se também partir para a terceira via, que é ensinar a língua como se deve, entendendo que mudanças ocorrem naturalmente e que as supostas imperfeições têm uma história e só tornam o idioma mais belo, mais humano. Que não se obriga ninguém a nada, seja na linguagem, seja na política: conversa-se, articula-se, dialoga-se, trocando o “vencer” pelo “convencer” (etimologicamente, “vencer junto”).

Emília, a boneca de pano que resolveu reformar a natureza, colocou abóboras em árvores e jabuticabas em plantas rasteiras. Quem leu Monteiro Lobato sabe no que deu.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.

Para Bolsonaro, Dom e Bruno não tinham nome

Vera Magalhães (*)

Das muitas demonstrações de falta de empatia de Jair Bolsonaro com o assassinato sórdido de Dom Phillips e Bruno Pereira, enfim confirmado depois de nove dias de desaparecimento e buscas, é espantoso que o presidente não os tenha nunca, em momento algum, chamado pelo nome.

“Esse inglês”, “os dois”, “ambos”. Para o homem que governa o Brasil, duas pessoas que morreram fazendo seu trabalho e lutando pela preservação da Amazônia e pelos direitos dos povos indígenas não tinham rosto, não tinham identidade, não tinham propósito.

(*) Vera Magalhães é jornalista.

Corrupção bolsonarista

Conrado Hübner Mendes (*)

Bolsonaro representa fração da velha política patrimonialista que dedica 100% de sua carreira a parasitar o bem público para fins pessoais. Não tem ideias, proposta política ou visão de futuro. Nunca participou de qualquer projeto coletivo ou se mobilizou por qualquer causa.

Para além da retórica em defesa da ditadura, da tortura e da violência policial, que lhe rendeu votos mas não se traduziu em ato para melhorar vida de policiais, teve vida política inócua e preguiçosa. Não consta, como deputado, uma única realização digna de nota no processo legislativo. Foi se esgueirando pelas brechas da ilegalidade tolerada.

(*) Conrado Hübner Mendes é doutor em Direito e em Ciência Política.

Do golpismo ao banditismo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Os mais jovens podem não saber, mas presidente golpista não é novidade por estas bandas. Basta folhear um livro de história para descobrir uma penca deles. Aliás, ao fazê-lo, a mais ingênua das criaturas vai entender que nossa república começou precisamente com um golpe.

O que há de novo no pedaço é um presidente que escala do golpismo de ocasião para o banditismo mais deslavado e explícito. Questão de caráter, não de contingências políticas ou ideológicas. Quem não o conhecia em 2018 e o comprou por medo de que o Brasil avançasse para um patamar um pouco menos desigual que o diga. Quem já o conhecia e, mesmo assim, apostou que ele se corrigiria e respeitaria ao menos as instituições republicanas e o decoro do cargo agora está de pires na mão, implorando pela clemência de seus pares para retomar algum grau mínimo de cidadania.

Em 5 de fevereiro de 2019, poucos dias após Bolsonaro completar um mês de governo, escrevi um texto alertando para os tempos sombrios que nos aguardavam sob sua batuta. Nele estavam registrados, além dos óbvios defeitos de caráter do recém-eleito, os projetos macabros que alimentaram a escolha de ministros, assessores, líderes do governo e presidentes de estatais. Prevendo que a explosiva mistura de religiosos fundamentalistas e militares subservientes ocupando cargos técnicos nunca poderia dar certo. Num dos trechos fiz questão de escrever que “por medo dos bandidos, a maioria concordou em pagar a milicianos para cuidar de sua proteção pessoal”. Vidência, visionarismo, mediunidade? Não, simples experiência de vida, atrelada a algum conhecimento de psicologia clínica – ainda que a psicologia, como ciência, não lide com questões de caráter.

Como dizia um espírita famoso e colega de profissão (Gasparetto), só se desilude quem se ilude. Quem passou a vida tentando mudar as crenças e comportamentos de seus pais, companheiros, filhos, amigos ou chefes – e se frustrou redondamente – sabe bem do que estou falando. As pessoas apaixonadas costumam acreditar que o outro possa mudar “por amor” a elas. Ledo engano. Se isso já não vale para as relações pessoais, imagine então o que pode ser esperado nesse ninho de serpentes peçonhentas que é a política brasileira.

O desrespeito às leis e às instituições é marco simbólico de toda a carreira pública de Jair Bolsonaro. Inútil elencar os escabrosos atos tresloucados do ex-capitão, cada um pode localizar algum malfeito mais a seu gosto. Mas ainda vale a pergunta: Como acreditar que um indivíduo incapaz de separar o que é público do que é privado poderia da noite para o dia se transformar em estadista respeitável internacionalmente? Ingenuidade tem limites, ora bolas.

Mais além da obsessão por transgredir, no entanto, está o cinismo covarde, a hipocrisia, a insensibilidade e a desfaçatez premeditada dessa criatura. Essa talvez seja a verdadeira e única novidade na presidência em todos os tempos. Antigamente, os políticos pegos com a boca na botija ainda se davam ao trabalho de fazer pronunciamentos indignados, repletos de linguagem empolada e termos incomuns da norma culta, destinados a convencer os mais crédulos de que eram seres impolutos, exemplos de probidade administrativa e simples vítimas de “perseguição política”. Hoje em dia, se já não bastasse a linguagem chula típica de botequim de beira de estrada e de prostíbulo com que o atual mandatário se dirige à nação, temos de lidar com o contínuo arremesso de responsabilidades à distância e de nos haver com bravatas inconsequentes, mentiras e desmentidos, seguidas por novas mentiras e novos desmentidos.

Não bastasse o golpismo explicitado nas manifestações do 7 de setembro passado e rapidamente minimizado como infeliz resultado do “calor do momento”, o Anticristo tupiniquim agora anuncia destemido a repetição da façanha para este ano. Quer mostrar de forma cabal “de que lado o povo está”. Fiquei pensativa: lembrei do apelo do “não me deixem sozinho” de Fernando Collor, que deu no que deu. Mas, ainda perplexa, me indago: e se as ruas e praças das capitais se encherem com multidões de devotos violentos repetindo a plenos pulmões “eu autorizo”, como reagirão as oposições e o Judiciário? Haverá guerra civil, cancelamento das eleições ou a pressão interna e internacional se encarregará de botar freio no ânimo demolidor do déspota?

Não fosse suficiente a sustentação indisfarçada de alguns militares de alto coturno para a aventura golpista, ele agora decide fechar com chave de ouro sua carreira de banditismo profissional com um inédito crime de lesa-pátria: ir buscar o apoio do presidente dos Estados Unidos para tentar impedir a ascensão de seu adversário. Aparentemente, continua apostando no cansaço e no esgarçamento das forças democráticas. Resta saber se vamos ser capazes de ressuscitar os caras-pintadas, pegar em armas mais uma vez para defender a pátria dos seus algozes ou se Deus, brasileiramente, vai dar um jeitinho de demonstrar que ele não é nem imorrível nem imbrochável.

É, pois, em nome de Marielle, de Bruno Silveira e Dom Phillips, de tantos jornalistas atacados grosseiramente, das crianças e jovens pretos da periferia mortos por violência policial, dos mortos pela pandemia e dos que estão perto de morrer pela fome que eu pergunto: como você vai justificar – não só para terceiros, mas principalmente, para sua própria consciência – sua intenção de votar nele outra vez? Ou vai continuar achando que o tal bicho-papão do “comunismo” é um mal maior a ser enfrentado?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

É fome

Carlos Brickmann (*)

Num país em que cada parlamentar tem até 80 assessores, em que os ministros do Supremo têm funcionários para puxar suas cadeiras, em que o presidente precisa colocar seus gastos no cartão em sigilo para evitar escândalo, em que candidatos usam bilhões públicos para a campanha, há gente que não sabe quando vai comer. Os campeões de gastos brigam entre si. Os famintos que se danem.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação e colunista.

O golpista

Ascânio Seleme (*)

Se as pesquisas continuarem mostrando que o crescimento de Lula se consolida, aumentando a possibilidade de vitória já no primeiro turno eleitoral, Jair Bolsonaro vai antecipar sua tentativa de golpe para o dia 7 de setembro. Será uma nova setembrada, como a do ano passado, mas desta vez com mais violência e sem freios.

Não tenha dúvida de que o presidente do Brasil vai incentivar a invasão do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral. De maneira mais clara e direta do que em 2021.

Mas desde já é bom que ele fique sabendo que não vai dar certo. Pior. Além de dar errado, vai significar o fim de sua carreira política e muito provavelmente o seu encarceramento.

(*) Ascânio Seleme é jornalista. Trecho de artigo publicado no jornal O Globo de 11 junho 2022.

Querides amigues

Vivian Cabrelli Mansano (*)

Vamos conversar com a tia. Não sou homofóbica, transfóbica, gordofóbica. Eu sou professora de Português.

Eu estava ensinando um conceito de Português e fui chamada de desrespeitosa. Ué. Eu estava explicando por que não faz diferença nenhuma mudar a vogal temática de substantivos e adjetivos pra ser “neutre”.

Em português, na maioria dos casos, a vogal temática não define gênero. Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra. Vou mostrar pra vocês:

O motorista – termina em A e não é feminino.

O poeta – termina em A e não é feminino.

Ação, depressão, impressão, ficção – todos os substantivos abstratos com o final ão são femininos, embora terminem com O.

Boa parte dos adjetivos da língua portuguesa podem ser tanto masculinos quanto femininos, sem alteração da letra final. Veja: feliz, triste, alerta, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável.

Colocar um E no final de uma palavra não faz com que ela seja neutra.

A alface – termina em E e é feminino.

O elefante – termina em E e é masculino.

Como o gênero em português é determinado muito mais pelo artigo do que pela vogal temática, se vocês querem uma língua neutra, precisam criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E.

E mesmo que fosse o caso, o Português não aceita gênero neutro. Vocês teriam que mudar um idioma inteiro pra combater o “preconceito”.

Meu conselho é: em vez de insistir tanto na história de gênero, entendam de uma vez por todas que gênero não existe, é um conceito construído pela sociedade.


O que existe é sexo.


Entendam, em segundo lugar, que gênero linguístico, gênero literário, gênero musical, são coisas totalmente diferentes de “gênero”. Não faz sentido mudar gênero de palavras. Isso não torna o mundo mais acolhedor nem menos preconceituoso.

E entendam, em terceiro lugar, que vocês bem que podiam tirar o dedo da tela, parar de falar abobrinha e se engajar em algo que realmente fizesse diferença, em vez de arrumar pano pra manga discutindo coisas sem sentido.

(*) Vivian Cabrelli Mansano é professora de Português.

Soneto premonitório

Eduardo Affonso (*)

Que Nostradamus, que nada! Quem profetizou sobre os eventos neste Brasil do ano da graça de 2022 foi Luís Vaz de Camões, o maior poeta vivo da língua portuguesa (morreu em 1580 apenas para os leitores ingratos).

Está tudo lá, no soneto “Amor é um fogo que arde sem se ver”, publicado há 424 anos sob o disfarce de ser apenas mais um poema a respeito da servidão amorosa.

“Fogo que arde sem se ver” é uma metáfora para Simone Tebet – a senadora sul-mato-grossense que não falta ao trabalho (compareceu a 95% das sessões), não rasga dinheiro público (gastou só cerca de 40% da verba de gabinete e da cota parlamentar), nem responde a processo judicial. Teve atuação firme na CPI da Covid e tem baixa rejeição. Pode crescer e aparecer. A menos que o vice seja o Aécio, porque aí incinera tudo.

“Ferida que dói, e não se sente” é referência a Lula. Responsável pelos maiores escândalos de corrupção da nossa História, há quem acredite que “não tem, nesse país, uma viv’alma mais honesta”. Mas sejamos justos: pelo menos uma vez não faltou com a verdade — foi quando disse que no Congresso havia 300 picaretas. Tanto havia que comprou vários deles, assim que teve oportunidade.

“É um andar solitário entre a gente” remete a Ciro Gomes, que não tem conseguido fazer alianças ou agregar apoios. Com seu destempero e incontinência verbal, parece “querer estar preso por vontade” a uma posição de coadjuvante na disputa.

“É um cuidar que ganha em se perder” alude, obviamente, a Luciano Bivar. Político profissional (não necessariamente na melhor acepção dos termos), neutralizou (e rifou) Sergio Moro e agora pode fazer acordos à direita e à esquerda, acima e abaixo, dentro e fora. Terá R$ 770 milhões para ser fragorosamente derrotado (fará campanha “pró-forma”) e eleger uma megabancada de deputados com poder de barganha. Perde e sai ganhando, seja qual for o futuro presidente.

“É servir a quem vence, o vencedor” descreve João Doria. Levou a melhor nas prévias do PSDB – e só nelas. O partido não o quer e parece que os eleitores também não fazem muita questão. Foi importantíssimo na luta contra a Covid-19, mas a vaidade – como cantou Billy Blanco – põe o bobo no alto e retira a escada.

Em “É ter com quem nos mata, lealdade”, Camões conseguiu retratar, à perfeição, a relação dos bolsonaristas com seu mito. O presidente se opôs à vacinação, ao distanciamento social, ao uso de máscaras – e se a Covid-19 não matou mais foi porque prefeitos, governadores e a população fizeram o que precisava ser feito. Bolsonaro conseguiu ser o pior presidente desde 1889 – o que não é pouca coisa, num país que já teve Sarney, Collor e Dilma.

“Tão contrário a si é o mesmo Amor” fala dos eleitores que tentaram se curar da dilmite tomando Bolsonariol e agora acham que dá para combater bolsonarite com uso de Lulalckmin, um genérico transgênico.

Claro que a profecia camoniana pode ter outras interpretações (quanto mais polissêmica uma previsão, maiores as chances de dar certo). Mas é evidente, ora pois, que Camões (pre)via melhor com um olho só do que Nostradamus com dois.

(*) Eduardo Affonso é arquiteto, colunista do jornal O Globo e blogueiro.