Aula de línguas

José Horta Manzano

Com boa vontade, se consegue encontrar o lado bom de coisa ruim – e vice-versa. Até da crônica policial dos jornais, espremendo bem, algum ensinamento bom às vezes sai.

As aventuras de nosso horrível capitão já estão cansando. Tanto problema mais importante no Brasil, e só se fala dele. Agora até o Trump resolveu dar seu pontapezinho no formigueiro nacional. Uma canseira.

Donald deve imaginar estar tratando com Zambeze, Tanganika ou Bechuanalândia (pra não ofender ninguém, são países que, se existiram um dia, já sumiram). Só faltava agora o Brasil modificar suas leis para satisfazer aos caprichos daquele ogro ignorantão. Só cretinos acreditariam nessa possibilidade. E parece que houve gente que acreditou firme. Cretinice não paga imposto. Tsk, tsk…

Bom, eu dizia que as notícias policiais abrem as portas do aprendizado de dezenas de línguas estrangeiras. Duvida? Pois é como lhe digo. Tome, por exemplo, a sugestiva expressão tornozeleira eletrônica. Já é poética em si, mas há línguas que preferiram adicionar-lhe charme e a chamam de bracelete eletrônico. Um encanto, pois não? Não corresponde à realidade, mas… quem se importa com a licença poética? A conhecida “caixa preta” do avião é cor de laranja e ninguém reclama.

Aqui abaixo vai um apanhado de manchetes que colhi na mídia. Em cada uma, grifei em vermelho a expressão tornolezeira eletrônica. Algumas são facilmente reconhecíveis; quanto a outras, precisa afiar os olhos e procurar bem.

Então? Pronto para aprender o nome do cobiçado acessório que Bolsonaro já começou a portar? Antes disso, só uma observação. Dizem do ex-presidente que ele é um “quase-presidiário”. Pois eu diria que é mais que isso: já é um presidiário. Se não, vejamos:

é vigiado 24h por dia

está proibido de entrar nas redes

está proibido de sair de casa das 19h às 7h

está proibido de sair de casa nos fins de semana

está proibido de passar perto de embaixadas

está proibido de entrar em contacto com os corréus

está proibido de falar com o filho que sabe inglês

E então? Não lhe parece um verdadeiro regime de presidiário? Deveriam até descontar estes meses dos quarenta anos de sentença que deve receber.

Agora vamos às manchetes e a nosso curso “Aprenda 14 línguas em 7 minutos!”.

 

Em francês: bracelet électronique

 

 

 

Em catalão: braçalet electrònic

 

 

 

Em alemão: Fußfessel (Fussfessel)

 

 

Em tcheco: elektronický náramek

 

 

Em inglês: ankle monitor

 

 

 

Em espanhol: tobillera electrónica

 

Em italiano: braccialetto elettronico

 

Em letão: piešķirts potītes


Em lituano: apykoję

 

Em polonês: elektronicznej bransoletki

 

Em húngaro: elektronikus nyomkövetőt

 

Em romeno: brățară electronică

 

Em sueco: fotboja

 

Em finlandês: nilkkapanta

 

 

Com dois TT

José Horta Manzano

De criança, eu achava um charme ter letra dupla no nome. Dois zz, dois mm, dois ff – qualquer letra valia. Só não valia dois ss ou dois rr, que eram letras comuns demais e não dariam graça ao nome. Infelizmente, meu nome não tinha letras duplas. Tive de me conformar e passar a vida inteira sem o que me parecia o “charme do nome”.

Constato hoje que a ideia de charme evoluiu. O povo não parece mais vidrado em letra dupla, como era meu caso. Nestas décadas mais recentes, a moda é acrescentar ao prenome (digo bem acrescentar, nunca eliminar) letras ao acaso, como um jogo em que dadinhos são lançados ao alto e… onde caírem, caíram.

Eu disse “letras ao acaso”, mas tenho de clarear a explicação. Nessa curiosa ideia de lançar dadinhos com letrinhas, não se usa todo o alfabeto. Só umas poucas letras são utilizadas: H e Y principalmente.

Assim, tenho visto Jhonny, Jhonatan, Davyd, Alyce, Olyvia. Apesar de tudo, letras duplas ainda chegam a encantar. Já vi Weslley, Ellyana.

Dessa sopa de letrinhas, tem saído um duo milionário. Quando usado em dupla, o T, uma letra que está mais pra jogo da forca do que pra baú de Ali Babá, pode ser o gatilho para a entrada de dinheiro na vida de uma pessoa.

Gusttavo Lima e Anitta, ídolos comparáveis a Francisco Alves e Linda Batista de nossos tempos, são a demonstração do poder midiático do T. (Quando digo “poder midiático”, não penso na mídia, mas no rei Midas, aquele que transformava em ouro tudo o que tocava.)

Nossos dois personagens, duplamente tezados, passaram do nada à riqueza bilionária em função da duplinha TT, à qual tudo devem. E pensar que, no original, nenhum dos nomes – nem Gustavo nem Anita – aceita o duplo TT. Gustaf (ou Gustav) é nome masculino escandinavo. Oito reis suecos, incluindo o atual, levavam esse nome. E nenhum deles precisou acrescentar um T ao nome. Será porque já nasceram ricos.

Já Anita é diminutivo de Ana, nome feminino velho como a Bíblia. O que Ana costuma ter é duplo NN (Anna), inclusive no Brasil pré-reforma ortográfica de 1943. A rigor, nossa moderna Linda Batista poderia ter escolhido Annita, com dois NN, forma que não chocaria. Na hora do lance, o dadinho deve ter escorregado para o lugar errado.

Hoje fiquei conhecendo mais uma jovem iniciante na carreira, que adotou o duplo TT. Trata-se de bonita moça que responde pelo exótico nome de Anttónia Morais, outra jovem que deve ter acreditado no poder “midiático” da duplinha mágica. Ela parece ter entrado com pé direito no caminho da glória: vestiu joias de R$ 800 mil pra pisar o tapete vermelho de Cannes.

Da próxima vez que eu for criança, vou transformar meu Horta em Hortta. Será caminho certeiro para a riqueza bilionária. Desta vez, já ficou tarde.

A herança e a pontuação

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor e a graciosa leitora já tenham ouvido esta historinha. Mas sempre vale a pena ver de novo.

Um homem rico agonizava em seu leito de morte. Pressentindo o fim próximo, pediu papel e caneta, e escreveu:

DEIXO MEUS BENS A MINHA IRMÃ NÃO A MEU SOBRINHO JAMAIS SERÁ PAGA A CONTA DO PADEIRO NADA DOU AOS POBRES.

Mas morreu antes de fazer a pontuação. Para quem o falecido deixou a herança? Os pretendentes mencionados no testamento eram quatro.

1. A irmã foi a primeira a chegar. Pediu uma cópia do papel e pontuou assim:
Deixo meus bens a minha irmã, não a meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

2. O sobrinho veio em seguida e refez a pontuação:
Deixo meus bens a minha irmã? Não! A meu sobrinho. Jamais será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

3. Chegou o padeiro e pediu cópia do original. Foi sua vez de pontuar:
Deixo meus bens a minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro. Nada dou aos pobres.

4. Por último, vieram os pobres da cidade. Um deles, sabido, fez esta pontuação:
Deixo meus bens a minha irmã? Não! A meu sobrinho? Jamais! Será paga a conta do padeiro? Nada! Dou aos pobres.

A historieta mostra a importância da pontuação. Sem pontos, exclamações, vírgulas & companhia, o texto pode ficar ambíguo ou até confuso.

A historinha da herança, que corre há anos pelas redes, foi bolada justamente para divertir. A intenção do autor foi por certo provocar umas risadas do leitor.

Meu bom amigo Aldo Bizzocchi, que é doutor em Linguística e amante das letras, me enviou uma historinha que lembra a do testamento. Só que… é verdadeira! A chamada foi recortada do site de notícias G1. Aqui está:

De tão mal escrita, a frase pode até dar a entender que quatro filhos da infeliz senhora tenham sido mortos no tribunal. (Com a ousadia típica dos executantes ligados ao nascente narcoestado brasileiro, um quádruplo assassinato praticado dentro do Palácio de Justiça já não mataria ninguém de susto.)

Descartada a hipótese do acerto de contas na base da faca e da asfixia, resta ler e reler o texto para entender a intenção do autor. Na realidade, ele quis contar o caso todo em uma frase só – uma perda de tempo. Nem vou arriscar reescrever a chamada. Sob risco de criar uma frase incompreensível, é sempre melhor partilhar as ideias em duas ou três frases menores.

Sugere-se ao autor da chamada que pense nisso da próxima vez.

Ídola

Chamada de O Globo

José Horta Manzano

Respeitada por seus próprios pares, a sorridente Rebeca Andrade é uma grande ginasta. Sua atuação nos Jogos Olímpicos de Paris foi magistral, coisa de deixar saudade. Mas daí a tratá-la de “ídola”, vai uma distância que não convém percorrer.

“Ídola” é gêmea idêntica de membra e de mascoto. Podem sair os três por aí, de mãos dadas, cantando ‘Mamãe eu quero’. Vão abafar.

Brincadeiras à parte, vamos lembrar que há substantivos bonzinhos, que tanto aceitam ser do gênero masculino quanto do feminino. Personagem é um deles. Pode-se dizer tanto o personagem quanto a personagem. É acertar ou acertar. Omelete é outro que se encaixa nos dois gêneros.

Mas há outros nomes que não oferecem essa flexibilidade. Têm um gênero só. É o caso das palavras membro (sempre masculina), mascote (sempre feminina) e, naturalmente, ídolo, que fica arrepiado se alguém ousar mandá-lo para o feminino. Em português, ídolo é masculino e ponto final. Não existe ídola”.

A frase da chamada do jornal está tão mal formulada que não vale a pena tentar corrigir. Pra remediar, será melhor descartar a palavra ídola e substituí-la por famosa. Faz o mesmo efeito e não ofende o ouvido (nem a sensibilidade) do leitor.

Levar a breca

José Horta Manzano

O mundo está numa encruzilhada, balançando entre antigas certezas e novas dúvidas. A chegada de Donald Trump à presidência dos EUA deu o pontapé inicial a essa turbulência civilizacional. Como acontece em todo sacolejo, há os que tombam da carroça, mas há os que se seguram firme e às vezes até saem ganhando quando a poeira se dissipa.

A nuvem de pó ainda não permite ver o horizonte com nitidez, mas já se distingue, apertando bem o olho, a silhueta de um país que vai sair desta encrenca melhor do que nela entrou: é a China. Receio que o Make America Great Again, grito de guerra de Trump, vai levar a breca (antiga expressão hoje traduzida por “ir para o brejo”).

O Grande Irmão do Norte periga sair desta aventura diminuído, e a China, aumentada.

Observação
Breca é palavra antiga, que já está morando no porão do esquecimento. Só sobrevive em algumas locuções que também já estão a caminho da aposentadoria. Por exemplo:

Levado da breca
Ex: É uma criança levada da breca.
É uma criança especialmente levada.

Levar a breca
Ex: Achou que ia ganhar a partida, mas levou a breca.
Achou que ia ganhar a partida, mas deu-se mal.

Com a breca
Ex: Com a breca! Por essa eu não esperava!
Putz! Por essa eu não esperava!
(esta expressão é do tempo do Onça)

Ir-se com a breca
E os bons modos desta gente, onde estão? Foram-se com a breca.
E os bons modos desta gente, onde estão? Perderam-se para sempre.

Liquidificador

José Horta Manzano

Sempre me surpreendeu o comprimento da palavra liquidificador. São seis sílabas: li-qui-di-fi-ca-dor. É muita letra pra designar um aparelho relativamente pequeno. Outras línguas encontraram saídas mais curtas. Nós, não. Preferimos escrever por extenso. Na época em que esse aparelho apareceu, algo como liqüex ou liqüinho talvez soasse um tanto chué pra dar nome a objeto tão revolucionário. Há de ser por isso que preferiram palavra de dobrar a esquina.

Falando nisso, tenho notado que nós, brasileiros, damos preferência a palavras longas em detrimento das mais curtas. Por exemplo, em vez do velho , o somente parece ser mais apreciado hoje em dia. O só está ficando só, abandonado num canto.

Um outro caso é o do antigo verbo pôr que, caído em desuso e quase em via de extinção, foi substituído por co-lo-car. Outro dia li a surpreendente história de uma jovem que, desertada pelo namorado, decidiu “colocar fogo” no apartamento dele. Fiquei imaginando a moça fantasiada de vestal romana subindo as escadarias do templo levando nos braços uma pira com o fogo sagrado para colocá-lo ao pé da estátua de Vulcano, o deus do fogo original. Isso, sim, seria “colocar fogo”. Fora isso, é melhor dizer ‘pôr foto em’, ‘atear fogo a’ ou, melhor ainda, ‘botar fogo em’. Sem falar no familiar ‘tacar fogo em’.

Outra palavra que espichou foi fim, atualmente substituída por final. Ninguém mais deseja um bom fim de semana, mas um excelente “final de semana”. Talvez a palavra mais comprida dê impressão de prolongar o tempo de descanso.

A simpática aeromoça de antigamente deu lugar à não menos simpática comissária de bordo ‒ título menos caseiro e mais pomposo, sem dúvida. E mais comprido também.

E a hora que virou horário então? A hora legal, ditada pela Divisão do Serviço da Hora, do Observatório Nacional, é hoje conhecida como horário: horário de verão, horário de Brasília. Este blogueiro é do tempo em que a palavra horário era reservada para indicar algo que ocorria em tempo ritmado, cadenciado, limitado como em horário de funcionamento, horário de trabalho, horário de saída dos ônibus.

E o problema, que se está transformando em problemática? Vejo aí contaminação vinda de palavras modernas como informática e telemática. Bom, convenhamos: problemática tem um charme e um perfume erudito que problema está longe de ter.

E assim vamos nós, sempre acrescentando penduricalhos, raramente podando, arcados sob o peso crescente. E vamos em frente, que um dia ainda chegamos lá.

O sabiazão e a sabiazinha

Chamada O Globo

José Horta Manzano

Nos tempos em que não havia avião, humano andava a pé e quem voava era passarinho.

Para indicar o começo do voo da ave, dizia-se levantar voo, alçar voo ou simplesmente voar: “O sabiazão estava descansando num galho; de repente, passou uma sabiazinha e ele voou atrás dela”.

Para informar que o voo tinha acabado, usava-se o verbo pousar: “O sabiá pousou”.

Inventado o avião, os primeiros progressos do novo meio de transporte ocorreram na França. A novas atividades, palavras novas. Os franceses preferiram não utilizar o vocabulário antigo; em vez dele, bolaram as seguintes expressões.

Para indicar que o avião levantou voo, usaram o verbo “décoller” (descolar), palavra que foi aportuguesada e virou “decolar”.

Para indicar o pouso do avião, foi criada a palavra “atterrissage”, que entrou em nossa língua como “aterrissagem”.

Lá pelos anos 1960, surgiram os primeiros voos espaciais habitados. No nariz do foguete, chamado cápsula, é que viajavam os astronautas. Na volta da missão, os soviéticos levavam um tranco ao bater nas estepes do Cazaquistão, enquanto os americanos mergulhavam num “tchibum” caribenho – o tranco era mais suave.

Sentiu-se então necessidade de inventar uma palavra para a volta daqueles que pousavam na água. “Aterrissar” não era um verbo plausível, visto que não caíam na terra. Mais uma vez, os franceses saíram na frente. Com base na palavra “mer” (mar), formaram o verbo “amerrir” e o substantivo “amerrissage”, palavra logo aportuguesada como “amerrissagem”.

Alunissagem, nome que indica pouso na Lua, já está dicionarizada. Para Marte, ainda não foi cunhada uma expressão. Talvez estejam esperando que aquele bilionário assistente de Trump embarque para o planeta vermelho, se encante pelo lugar e… por lá fique.

PS
Se vosmicê chegou até aqui, a expressão “aterrissagem na água”, grafada na chamada de jornal lá na entrada, deve estar lhe parecendo obra de jovem estagiário de poucas letras.

Pró-natalista

José Horta Manzano

Nos tempos de antigamente, quando se costumava guerrear à força dos braços, o lado que dispusesse de mais braços tinha vantagem considerável sobre o adversário, pois podia contar com mais combatentes. Maior exército significava mais gente para segurar baioneta, para sitiar uma cidade, para manipular arbaletas, canhões ou minidrones.

Essa lógica funcionou até pouco tempo atrás. Desde que foram inventados artefatos que, lançados de longe, podem causar tremendo estrago, tornou-se relativa a necessidade de contar com exército mais numeroso que o do inimigo.

Na guerra da Ucrânia, por exemplo, a Rússia, país invasor, conta com população três vezes superior à do país invadido. Em teoria, poderia fazer mingau da Ucrânia. Mas faz três anos que está pelejando, sem sucesso.

Ao término de um período de conflitos, Estados guerreiros – como a França de Napoleão, por exemplo – instauravam políticas natalistas. A intenção era incentivar a população a ter mais filhos, de maneira a fornecer “carne de canhão” para servir às guerras pátrias.

Nestes últimos 80 anos, desde que terminou a Segunda Guerra Mundial, políticas de natalidade deixaram de fazer sentido na bacia atlântica (Europa e Américas). Se as famílias latino-americanas continuaram a fabricar muitos filhos por algumas décadas ainda, foi por falta de instrução adequada, nada a ver com política natalista.

A informação que reproduzi na entrada é de deixar surpreso. É realmente curioso ver aparecerem, na seita dos seguidores de Trump, grupos que veriam com bons olhos a instauração de uma política de natalidade. Para quê mesmo?

Me ocorre que esses grupos enxergam a chegada de clandestinos latino-americanos como ameaça existencial ao equilíbrio racial da sociedade dos EUA. É certamente essa a razão de tais grupos simpatizarem com uma política que promova o aumento da população branca. Na ideia deles, isso pode neutralizar a contaminação da sociedade americana por “latinos” pobres, de pele bronzeada e de baixa estatura.

Agora, um tanto incrédulos quanto à inclinação das jovens damas americanas para gerar mais pequerruchos, vamos endireitar a redação do anúncio da Folha, que está meio torto.

A expressão “Impulso a grupos pró-natalista” parece estranha. Para melhorar, há pelo menos três opções:

“Impulso a grupos pró-natalistas
(natalista pede s no final para concordar com grupos, que está no plural)

“Impulso a grupos pró-natalidade”
(é outra opção para substituir o deselegante “pró-natalistas”

“Impulso a grupos natalistas”
(é a opção mais simples e direta, eliminando o “pró”)

Ágio

José Horta Manzano

Por coerência, quem diz “ágio acima” também deveria dizer “entrar pra dentro” e “descer pra baixo”. O “acima” sobra. Ágio é sempre calculado acima de um valor de referência, nunca abaixo.

Ex:
O dólar está sendo vendido no paralelo com ágio de 10%.
(ou seja, pelo valor do oficial com acréscimo de 10%)

A chamada do jornal deveria dizer:
“Com ágio de 40% sobre o valor cobrado em dinheiro vivo”

Se, ao contrário, o cálculo tivesse de ser para baixo, como um desconto, seria possível usar “deságio”, embora seja termo pouco frequente.

Ex:
O produto está sendo vendido com deságio de 15% com relação ao preço da semana passada
(ou seja, com desconto de 15% sobre o preço da semana passada)

Bispa

José Horta Manzano

Se Sua Excelência Reverendíssima soubesse que está sendo chamada de “bispa” por 10 entre 10 veículos da mídia brasileira, havia de torcer o nariz. Esse feminino caseiro pode até ser tolerado por prelados neopentecostais, mas essa religiosa é autoridade da Igreja Anglicana, derivada do catolicismo e dele bastante próxima.

Pode soar estranho por falta de uso, mas a palavra bispo tem feminino. Precisa lembrar do original grego (epískopos). Ele deu a forma episcopisa, aceita na língua portuguesa e mencionada até no Houaiss.

O próprio recorte de jornal estampado mais acima menciona a Diocese Episcopal de Washington.

Falar em episcopisa pode soar meio raro, mas tem um charme indiscutível.

Captar e capturar

José Horta Manzano

O distinto estagiário autor da chamada d’O Globo se enganou, isto é, se curvou a um anglicismo que, embora esteja muito na moda, só apareceu para atrapalhar.

Em nossa língua, temos dois verbos que, apesar de terem a mesma origem, não podem ser utilizados como se sinônimos perfeitos fossem.

O primeiro é capturar e o segundo, captar.

Capturar – exemplos:
Os leões que tinham escapado do zoológico foram capturados pelos bombeiros.
Esta nova invenção promete capturar gases nocivos da atmosfera.
A polícia capturou os foragidos.

Captar – exemplos:
Os primeiros telefones portáteis só captavam o sinal se a antena estivesse a menos de dois quilômetros.
Maria não captou o espírito da mensagem de João.
O reporter fotográfico não conseguiu captar o momento da explosão.

Na língua inglesa, o verbo capture preenche as duas funções: a de capturar e a de captar. Usar, em português, o verbo capturar a torto e a direito, no lugar de captar, é anglicismo desnecessário.

Voltando à ilustração, “o fotógrafo captou os ataques do 8 de Janeiro”. Naturalmente.

Fiat lux

 

 

José Horta Manzano

É natural que Madame queira “dar luz” ao filho. Ela passou as últimas décadas sob os holofotes e se acostumou. Quer agora dar ao herdeiro um pouco da luz que tem recebido.

Brincadeiras à parte, não se deve dizer “dar luz ao pequerrucho”, mas sim “dar o pequerrucho à luz”.

No fundo, o significado das duas expressões até que se aproxima, mas o uso do falante fixou a segunda. No futuro, pode ser até que mude, nunca se sabe.

Toda poderosa

Iemanjá

 

 

José Horta Manzano

É todo-poderosa, com tracinho. Nessa expressão, a primeira parte (todo) resta invariável, visto que está por tudo. Ex:

Todo-poderoso
Na Rússia, Putin é todo-poderoso. (=pode tudo)

Todo-poderosa
No Reino do Mar, Iemanjá é todo-poderosa. (=pode tudo)

Todo-poderosos
Em seus países, ditadores são todo-poderosos. (=podem tudo)

Todo-poderosas
Numa civilização matriarcal, as mulheres são todo-poderosas. (=podem tudo)

Codinome

José Horta Manzano

Quando alguém ou algo é chamado por um nome que não é o seu, há várias maneiras para dar nome ao nome – se é que ouso me exprimir assim.

Entre nós, a forma mais usada é apelido.
Ex: O nome dele é Antônio mas o apelido é Tonico.

Em Portugal, preferem utilizar alcunha.
Ex: Este é o tão falado Rayovaque, cuja alcunha é “Rei”.

Cognome é palavra mais rara. Substitui apelido e alcunha.
Ex: No soldado mais valente, puseram o cognome de “Ludovico”.

Na linguagem da geração Z, está em voga o termo americano nick.
Ex: Ei, galera! A influenciadora é a Kriseldina. O nick dela é Kris.

Foi na ditadura militar que o termo codinome apareceu. É de uso restrito. Costumava ser atribuído aos que pegavam em armas para combater o regime. A ditadura acabou, mas tem gente que usa o termo até hoje.
Ex: O guerrilheiro mais ousado do grupo leva o codinome de “Ludovico”.

No exemplo acima, convém substituir codinome por “nome de código”. O melhor é deixar a expressão codinome morrer de morte morrida. Que se use uma palavra que não evoque período tão obscuro.

Compliance & bullying

José Horta Manzano

Com curiosidade, tenho notado um fenômeno interessante na importação de palavras. Antigamente, palavras estrangeiras que aportavam na língua eram o mais das vezes traduzidas ou adaptadas. Se a tradução ao pé da letra fosse impossível, criava-se expressão equivalente. De meio século pra cá, essa prática feneceu. Termos forasteiros são enfiados em nosso léxico tal e qual, com casca e tudo.

Um exemplo de como se fazia antigamente é aeromoça ‒ quer termo mais poético? Foi criação genial, que deixa no chinelo hospedeira e comissária de bordo. A expressão soa bem, é fácil de pronunciar e dá o recado direitinho.

Bem depois das primeiras aeromoças, quando grandes centros de compras apareceram no Brasil, a preguiça já estava instalada. O primeiro shopping center foi chamado de… shopping center. Em outras terras menos resignadas, a expressão inglesa foi adaptada. Poderíamos, nós também, ter firmado centro comercial, expressão simples, fácil de pronunciar e de sentido evidente. Preferimos guardar o original. Deve parecer mais chique.

Em nossa língua, os adjetivos costumam vir depois do substantivo. Dizemos homem rico e não rico homem, assim como criança inteligente e não inteligente criança. Poucas línguas no mundo seguem esse padrão. Entre as línguas europeias, só conheço as línguas latinas e o polonês.

Assim, nossa tendência é tomar a primeira palavra de uma expressão como a mais importante. Quando expressões inglesas são introduzidas tal e qual em nosso falar, dão origem a reduções curiosas.

Para encurtar shopping center, por exemplo, dizemos shopping. “Vou passear no shopping” (ou no xópi, conforme o gosto). Só que, no original, a palavra importante é center e não shopping. Dizer “Vou passear no shopping” é como se, para abreviar centro de compras, disséssemos “Vou passear no compras”. Peculiar, não? O fenômeno atinge outras expressões importadas com casca e caroço.

Há palavras que chegaram recentemente à língua. Seguindo a tendência atual, não foram traduzidas. O original soa tão chique, não é mesmo? Dependesse de mim, compliance viraria conformidade, que é sua tradução perfeita. Bullying, esse fenômeno que sempre existiu apesar de antes não ter nome específico, dispõe de duas expressões capazes de traduzi-lo: pode-se tanto usar assédio escolar, quanto acosso escolar.

Mas é verdade que expressão vernácula é meio chué. Que vivam os estrangeirismos puros e legítimos!

Oximoro

José Horta Manzano

Foi certamente um descuido, mas o título do artigo acabou formando uma elegante figura de estilo que leva o pomposo nome de oximoro (pronúncia: oximóro).

Trata-se da figura que aproxima dois termos que, por terem significação contrária, não deveriam aparecer na mesma frase. Exemplos típicos são “obscura claridade” ou ainda “luz negra”.

O apagão que joga luz é um brilhante exemplo, se me permitem a forçada de barra.

Por causo que

José Horta Manzano

Nos tempos em que escola ensinava e aluno aprendia, aulas começavam pontualmente. Se um aluno chegasse atrasado, tinha de bater à porta e pedir licença ao professor. O mais das vezes, o mestre consentia em deixar entrar o aluno. Logo em seguida, pedia justificativa para o atraso.

«Desculpa, professora, eu cheguei atrasado por causo que…»

Nesse ponto, o discurso era interrompido de chofre.

«Não se diz ‘por causo que’, menino! O certo é ‘por causa de’».

Meu distinto leitor já há de ter percebido que, nos dias atuais, esse diálogo está fora de moda . De fato, a expressão ‘por causa de’, em via de extinção, foi substituída pela estranha ‘por conta de’.

Não sei quem terá sido o primeiro a abandonar a locução tradicional. Suponho que o modismo tenha logo sido integrado às novelas, que são o meio mais rápido e eficaz de esparramar cacoetes (não só linguísticos) no Brasil.

Na língua falada, é difícil escapar a modismos. Dado que a rapidez da elocução não deixa tempo para refletir, as palavras se encadeiam num semiautomatismo. Na língua escrita, a história é outra. O ritmo mais lento da redação permite ao escriba ser mais cuidadoso na escolha de vocábulos e expressões.

No entanto, mesmo na mídia escrita, ‘por conta de’ tem suplantado a locução tradicional por ampla margem. É surpreendente que locutores e articulistas não se preocupem em apurar o vocabulário, que é, no fundo, seu instrumento de trabalho.

Casos em que ‘por conta de’ se encaixa perfeitamente:

Aos trinta anos, ainda vive por conta dos pais.

Patrão, quero pedir um vale por conta do salário do mês.

Ela assa os bolos. A venda fica por conta do marido.

Expressões que, conforme o contexto, podem substituir ‘por causa de’ e evitar o uso do modismo ‘por conta de’:

em virtude de
por efeito de
visto que
por obra de
uma vez que
graças a
dado que
em consequência de
devido a
já que
em razão de
porque
por motivo de
pois que
por ação de
por mérito de
em função de

Viram como língua é rica? Falar bem custa a mesma coisa e rende mais.

Os nomes do capitão

José Horta Manzano

Exatamente dois anos atrás, em setembro de 2022, compilei uma lista de adjetivos que me pareceram combinar bem com a personalidade do então presidente de nossa República.

O tempo passou, o presidente perdeu o trono, mas a lista ficou aí, nunca usada, à espera de novo manequim em que pudesse servir. Até hoje, a novidade política que mais lembra o velho capitão apareceu brusco como boneco de mola que assusta ao saltar fora de uma caixinha-surpresa: chama-se Pablo Marçal.

Rios de tinta têm sido gastos para dar conta da novidade. Os comentários da imprensa séria nem sempre são complacentes, antes, são nitidamente críticos dos métodos pérfidos do rapaz que, sob a aparência de “bom capiau semiletrado e inofensivo”, esconde um espírito viperino, exatamente como cobra pronta a atacar à traição.

Não, os adjetivos que cabem em Bolsonaro não servem obrigatoriamente para o “influenciador”, não dão bom caimento. A diferença é que Bolsonaro, o original, cobre toda a gama, de “tolo” a “pedaço-d’asno”. Já o hoje candidato a prefeito de São Paulo não passa de pálida imitação. Não corresponde a toda essa renca de qualificativos.

Veja bem, o “influenciador” pode até ser mais perigoso que o ex-presidente, mas aqui estamos falando de adjetivos que cabem ou deixam de caber. Este escrito não tem pretensão de ir além.

Aqui estão os quarenta e poucos adjetivos que selecionei para Bolsonaro (Primeiro e único).

Alofo
Animalejo
Babaca
Babaquara
Besta quadrada
Boçal
Bordalengo
Bronco
Bufão
Cepo
Charro
Chavasco
Coiçoeira
Lorpa
Madeiro
Maninelo
Modorro
Morcão
Néscio
Obtuso
Pábulo
Pacóvio
Palerma
Palonço
Palúrdio
Panal
Pancrácio
Papalvo
Parrado
Pascácio
Pasconço
Patau
Patego
Pateta
Patola
Patureba
Pedaço-d’asno
Simplório
Tacanho
Tanso
Tapado
Tolaz
Toleirão
Zamboa
Zote

Azar

Flor de laranjeira

José Horta Manzano

É interessante observar como a evolução das línguas é imprevisível. Há casos em que, da mesma raiz, brotam galhos diferentes. De fato, termos que descendem de um mesmo tronco podem, em casos extremos, ter significado divergente em diferentes idiomas.

Um caso curioso é o da voz árabe as-sahr (ou az-zahr), presente no falar popular e no árabe ibérico, mas ausente do árabe clássico. Na nossa língua, acabou desembocando em azar, palavra usada geralmente com significado negativo para indicar má sorte, infelicidade, revés, contratempo. Os dicionários chegam a abonar o uso de azar em circunstâncias positivas, mas essa acepção não se encontra no falar popular.

Segundo a maioria dos especialistas, os dados (de jogar) introduzidos pelos mouros ‒ que mandaram por sete séculos na Península Ibérica ‒ tinham uma flor pintada em uma das faces. Em árabe hispânico, flor se dizia az-zahr, nome que se estendeu ao dado e, em seguida, ao próprio jogo. Falando em flor, em espanhol moderno, azahar é o nome da flor de laranjeira.

Na língua de Cervantes, o termo azar não costuma ser usado com o mesmo significado que tem em português. Utiliza-se geralmente com o sentido de acaso. Para dizer ‘má sorte’, o espanhol, mais dramático, prefere falar em desgracia.

Através do espanhol, a palavra entrou no francês na Idade Média. Naquela época, a grafia ainda não estava estabilizada, o que resultou em formas um tanto fantasiosas sobretudo para palavras importadas.

O azar espanhol foi grafado hazard, com agá inicial e dê final. Mais tarde, o zê foi substituído por um esse, mas o agá inicial e o dê final permanecem até hoje. Hasard não tem sentido positivo nem negativo. Designa apenas o acaso, o imprevisível. Par hasard, expressão do dia a dia, significa por acaso.

Já em italiano, a mesma voz escorregou para um sentido de risco, de perigo, de ato temerário. Entrou na língua através do francês, o que explica a preservação do dê: azzardo.

O inglês também importou o termo do francês medieval, daí ter guardado a grafia da época: hazard. Diferentemente do que aconteceu em francês, o sentido da palavra não se modificou. Até hoje indica risco ou perigo. Hazardous se diz do que é perigoso, que comporta grande risco.

Temos aí curioso caso de uma palavra que tanto pode espargir perfume de flor de laranjeira quanto evocar grande perigo. Não há comprovação de que uma coisa tenha a ver com a outra.