Escala 6×1

José Horta Manzano

Já devo ter-lhes contado que esta velha carcaça que lhes escreve já foi jovem. Não foi ao tempo de Matusalém, assim mesmo faz bastante tempo. Me lembro que meu pai, funcionário público escriturário, seguia o horário dito semana inglesa, que consistia em trabalhar da segunda-feira ao sábado, com folga no domingo. A particularidade é que o expediente no sábado ia só até o meio-dia. Hoje diríamos que era uma escala 5,5×1,5.

Quanto a mim, já vivendo na Europa na juventude, trabalhei, durante anos uma escala 6×1, que parecia normal e não espantava ninguém. E olhe que o dia de descanso semanal nunca era sábado nem domingo. Consegui, sempre que possível, repousar na sexta-feira. Cheguei até a trabalhar meses seguidos sem folga nenhuma, numa escala 7×0. Mas isso era mais raro.

Só para mostrar como era o mundo décadas atrás, quando eu era criança, me lembro do empregado da padaria, que passava em frente de casa todos os dias com sua carrocinha puxada por um cavalo. Atrelada à montaria, vinha uma caçambinha de madeira em forma de cubo, com uma portinhola na parte de trás. O Evaldo abria a portinha a aparecia aquele festival de delícias: pães doces com recheio e sem, pães com creme ou açúcar por cima, filões, bengalas e pãezinhos de 50 centavos (de cruzeiro).

Uma vez eu perguntei ao Evaldo quando é que ele folgava. Me respondeu que só dois dias por ano: no Natal e na “Sexta-feira maió”. Evaldo, que devia ser do Norte (hoje se diz nordestino), estava se referindo à Sexta-feira Santa. Sua escala de trabalho era praticamente de 7×0.

É claro que hoje, depois de mais de meio século, o mundo mudou. Compreendo que, para muita gente, escalas de 5,5×1,5 ou 6×1 devem soar antediluvianas. E têm razão.

Se escrevi este recadinho, não foi para defender esta ou aquela escala. Foi só para informar que trabalhar seis dias por semana não mata ninguém. A prova é este ancião aqui, que passou anos nesse ritmo e continua vivo e animado.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.