Os neoimigrantes

José Horta Manzano

Dizem que as redes sociais (que às vezes dá vontade de chamar de “associais”) estão coalhadas de gente falando besteira. Não conheço essas redes, mas acredito no que dizem: devem estar cheias de falsos profetas. Para o bem e para o mal, se bem que, quando se propagam ideias falsas, é geralmente para o mal.

Acho que essa algaravia, em que muitos gritam e ninguém tem razão, não se restringe às redes. Desde que internet deu um megafone a cada utilizador, todos se acham no direito de usá-lo, ainda que não tenham nada a dizer. Consulto frequentemente youtube e constato que lá também está lotado de gente falando de assuntos que não domina. Quem faz isso incorre no delito de fazer propaganda enganosa e merecia levar multa. Mas como coibir? Quem teria capacidade de controlar a veracidade dos bilhões de vídeos postados da plataforma?

Quando me aparece algum vídeo sobre a Suíça, país que conheço bem, tenho curiosidade de ver o que dizem. Não dá pra visionar todos, porque o dia só tem 24 horas e não tenho tenho só isso pra fazer. Ontem dei uma espiada numa postagem de um casal brasileiro que está morando na Suíça, numa pequena localidade da montanha. Dado que o vilarejo não tem atividades além do turismo, estou até agora me perguntando o que fazem por lá. Não procurei saber.

Passaram uns 20 minutos a descrever os cinco pontos que não lhes agradam no dia a dia no país. De saída, acho no mínimo indelicado apontar assim, publicamente, os pontos negativos do país que nos acolhe. Em seguida, fiquei surpreso com os “defeitos” que o casal encontrou. Reclamaram do sistema de saúde suíço, sistema que este blogueiro acha excelente, superior ao que se vê pelo mundo em geral. Se não apreciam o sistema daqui, há de ser porque não lhe entenderam o funcionamento. De outro modo, não é possível.

Reclamaram também da inflexibilidade dos funcionários, especialmente os que tratam as demandas de imigrantes, como eles. Não estou de acordo. Acho a Suíça um país liberal, verdadeira “mãezona”, onde funcionários estão sempre prontos a dialogar, explicar, tolerar, deixar passar. Bom, para se entender, é bom falar a língua do lugar. Não sei há quanto tempo se encontram no vilarejo em que vivem, o que sei é que não falam nem a língua do lugar (alemão), nem o dialeto (alemão suíço). Assim, também, fica difícil.

Desembarquei na Suíça, pela primeira vez, está fazendo 60 anos mês que vem. De lá pra cá, vivi 47 aninhos aqui. Posso dizer que conheço um bocado os usos e costumes da terra. Pra receber, tem de saber dar. Se eu estivesse arranhando línguas e catando palavras até hoje, estaria mostrando que não soube dar, ou seja, que não soube me esforçar para me aproximar deles. Isso pega mal. O que esse casal precisa fazer urgentemente é aprender a língua local, pelo menos, o alemão. Na hora em que conseguirem se comunicar com a sociedade em que vivem, vão ver que o clima se desanuvia e a “rigidez” vai lhes parecer bem mais elástica.

Nota
Emigrar aos quarenta ou cinquenta anos de idade é complicado. Quem estiver acostumado ao sistema do INSS vai estranhar o sistema de qualquer outro país. Quem estiver acostumado a frequentar o Poupatempo idem. Emigração é aventura para os muito jovens, que estão em começo de vida.

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.