Notícias do front

José Horta Manzano

Com tanques de guerra russos passeando pelas avenidas de Kyiv, a população civil procura escapar. “É melhor dar por perdidos os bens, desde que nos sobre a vida” – é o reflexo coletivo.

Só no dia de ontem, sexta-feira, 50 mil ucranianos fugiram do país. Ao leste, está a Rússia, o ogro; ao norte, fica a Bielo-Rússia, cúmplice do papão; ao sul, é o Mar Negro. A única rota de fuga é na direção do oeste.

Cinco países fazem fronteira com a Ucrânia: a Polônia, a Eslováquia, a Hungria, a Romênia e a Moldávia. Com exceção da Moldávia, todos fazem parte da União Europeia. Mas quem foge de homens armados não escolhe caminho.

Na Polônia, vivem já centenas de milhares de ucranianos, talvez cheguem a um milhão e meio. São imigrantes, alguns de longa data, todos vindos em busca de melhores oportunidades. Este país será o destino mais procurado pela nova onda de refugiados. Generosa, a Polônia já declarou que aceitará todos os ucranianos que se apresentarem à fronteira.

Viktor Orbán, o ultranacionalista dirigente da Hungria, conhecido por suas posições anti-imigrantes, não há de estar encantado. Assim mesmo, decerto para não fazer feio diante dos demais dirigentes do continente, declarou que seu país está “preparado para acolhê-los com rapidez e eficiência”. Não deu mais precisões. Calcula-se que 600 mil ucranianos podem bater à porta do país nos próximos dias.

A Eslováquia, que tem alguns quilômetros de fronteira com a Ucrânia, afirma estar preparada para acolher os que vierem. Numa previsão de que os combates possam penetrar no país, as autoridades incitaram a população a doar sangue e informaram já ter preparado alojamento para até 5500 militares do exército ou da ONU.

A Romênia é o país mais pobre da União Europeia e os ucranianos sabem disso. Os poucos refugiados que penetraram no país ontem, cerca de 5300 pessoas, têm intenção de seguir viagem em direção à Tchéquia ou à Polônia.

O último vizinho, a Moldávia, não é membro da Otan nem da União Europeia. Assim mesmo, o pavor do invasor russo é tamanho, que 4000 refugiados ucranianos já atravessaram a fronteira nestas primeiras horas.

A Alemanha e a França, embora não tenham fronteira comum com a Ucrânia, já prometeram ajuda maciça aos Estados que acolherem refugiados, em especial a Polônia.

Monsieur Emmanuel Macron, presidente da França, declarou, na manhã deste sábado, que “a guerra será longa” e que “temos de estar preparados”.

O HCR (Alto-comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) trabalha com a expectativa de até 5 milhões de ucranianos abandonarem o país e pedirem asilo no estrangeiro. Isso representa entre 11% e 12% da população do país. Aplicando a mesma proporção ao Brasil, é como se 25 milhões deixassem o país. Exceto São Paulo, nenhum estado brasileiro tem população tão grande. É um mundaréu de gente.

Resta esperar que as coisas se acalmem logo e, na hipótese mais otimista, Putin abandone suas pretensões desatinadas e chame a tropa de volta. Não custa sonhar.

“Notícias do front” era a expressão usada pela imprensa durante as guerras europeias do século passado. Todos imaginavam que a expressão pertencia aos livros de História. Engano. A insanidade de Vladímir Putin acaba de desempoeirá-la.

“Front” é palavra francesa que se traduz por linha de frente.

El estruendo

«Los brasileños no saben en qué área de la vida les va peor: si en las eliminatorias del Mundial de Rusia, donde navegan en una desacostumbrada mitad de tabla; en la arena política, donde la presidenta Dilma Rousseff se desliza en tobogán hacia el impeachment, o en la economía, donde millones de personas sobrellevan como pueden una larga recesión.

La tristeza desborda las calles de San Pablo y de Río de Janeiro y se derrama sobre América latina, que ve la caída del gigante con preocupación. Porque el estruendo hace temblar a todos. Además de la Argentina, que lo sufre directamente en el comercio y la economía, son muchos los que siguen de cerca el penoso día a día de un país que solía ser citado con admiración.

El mismo ex presidente Luiz Inacio Lula da Silva, que desde el escándalo de corrupción de Petrobras es tan buscado por la justicia como rechazado por la población, se permitió exaltar los viejos tiempos del país que él lideraba.»

A queda do Brasil: um estrondo que faz tremer todos os vizinhos

A queda do Brasil: um estrondo que faz tremer todos os vizinhos

«Os brasileiros não sabem em que área a coisa está pior: se nas eliminatórias do Mundial da Rússia, onde navegam do lado inabitual da tabela; se na arena política, onde a presidente Dilma Rousseff desliza de tobogã em direção ao impeachment; se na economia, onde milhões aguentam como podem uma longa recessão.

A tristeza transborda as ruas de São Paulo e do Rio e se derrama sobre a América Latina, que assiste preocupada à queda do gigante. Porque o estrondo faz que todos tremam. Além da Argentina, cujo comércio e cuja economia são afetados diretamente, muitos são os que acompanham de perto o sofrido dia a dia de um país que costumava ser citado com admiração.

O próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, desde o escândalo da Petrobrás, tanto é buscado pela Justiça como rechaçado pela população, permitiu-se exaltar os velhos tempos do país que ele liderava.»

Interligne 18h

Trecho de artigo publicado pelo argentino La Nación em 3 abril 2016. O texto integral está aqui.

O recado está dado

José Horta Manzano

Antes de tomar uma ação incisiva, daquelas que não deixam possibilidade de retorno, a gente costuma soltar um balão de ensaio. É como na hora de atravessar um riacho ‒ a gente pisa cada pedra com cuidado, até encontrar o caminho seguro, o caminho das pedras.

Nas recentes eleições gerais, o povo venezuelano deixou clara sua preferência. De cada três eleitores, dois deram seu voto a candidato antichavista. Isso foi algumas semanas atrás. Se votassem de novo hoje, vista a vertiginosa degradação da economia, era bem capaz de a derrota do regime ser mais acachapante.

Congresso venezuelano, Caracas

Congresso venezuelano, Caracas

Apesar dos esperneios e das firulas de señor Maduro e seus áulicos, a nova maioria sente-se cada dia mais forte. Sabe que tem respaldo popular. O regime bolivariano está com os dias contados. Fruta podre não se aguenta muito tempo no galho ‒ mais dia, menos dia, acaba no chão.

A nova assembleia de Caracas ‒ que não convém mais chamar de oposição, tão alentado é o número de deputados ‒ tem como objetivo encerrar os considerandos e partir para os finalmentes.

Antes de agir, estão consultando, como se deve. Não há que temer desagradar ao governo de países adiantados. Europa e EUA verão com bons olhos a saída de cena dos compañeros bolivarianos. Quanto aos vizinhos, não se imagina que Colômbia, Peru, Chile ou Argentina se incomodem com o afastamento de Maduro & companhia.

Mas… ai, ai, ai… falta o Brasil. Maior economia da região e apoiador desabrido do populismo instaurado por Chávez, o Planalto pode se vexar. Risco de guerra atômica não há, mas o bom senso recomenda concórdia e paz entre vizinhos. Como reagirá Brasília a uma reviravolta em Caracas?

Chamada do jornal uruguaio El Pais

Chamada do jornal uruguaio El Pais

Na minha opinião, dona Dilma e todos os que a cercam estão mais é preocupados em esquivar acusações e afastar o risco de ser levados algemados. Os deputados antichavistas sabem disso, mas, assim mesmo, decidiram lançar um balão de ensaio.

Comunicaram oficialmente ao Executivo e ao Legislativo brasileiros a decisão de “pôr fim proximamente” ao governo de Nicolás Maduro. É o jornal uruguaio El Pais que dá a notícia. Caso nenhuma reação venha do Planalto nos próximos dias, o silêncio será considerado como sinal verde.

Ficamos aqui na torcida organizada.