População urbana

José Horta Manzano

O Programa da ONU dedicado a assentamentos humanos estima que, daqui a pouco mais de uma década, 90% da população do Brasil será urbana, ou seja, nove em cada dez cidadãos viverá numa cidade. À primeira vista, parece um progresso, um avanço civilizatório. Será mesmo?

A resposta não é simples. Para início de conversa, seria preciso estabelecer critérios internacionalmente uniformes, o que não é o caso. Na Suíça, por exemplo, para ter direito a ser chamada de cidade, a aglomeração tem de contar com pelo menos dez mil habitantes. Na França, bastam dois mil. Em outros países, 500 habitantes já são suficientes para um povoado subir de categoria.

village-2O Brasil carece de critérios claros, o que impede uma estimação precisa. Aliás, nos primeiros séculos da colonização, quem decidia era o rei. Para ser «elevado» à categoria de vila, o povoado dependia de um decreto real, o que prova que não é de hoje que os amigos do rei são mais iguais que os outros. Seja como for, na falta de padrão internacional, temos de nos basear nos dados disponíveis.

É interessante notar que o Brasil contabiliza hoje cerca de 85% de sua população vivendo em cidades. É mais urbanizado que países como a Itália (69%), a Suíça (74%), a França (80%), a Alemanha (75%), a Áustria (66%) e até os EUA (82%). Logo, conclui-se que, em matéria avanço civilizatório, nosso país está à frente dos que mencionei. A pobre Itália, com quase trinta porcento de habitantes morando na zona rural, viveria ainda mergulhada na Idade Média, enquanto nós já estaríamos com um pé na modernidade. Será mesmo?

Não acredito. Esses números, pelo menos no que se refere ao Brasil, são mais preocupantes que auspiciosos. Eles atestam que a cidade, principalmente a cidade grande, exerce atração irresistível. Por que acontece isso? O bom povo de aglomerações pequenas corre atrás da poluição, do barulho, do tráfego infernal? O distinto leitor há de convir que não é esse o chamativo. O diagnóstico é menos charmoso.

by Paulo Talarico, pintor mineiro

by Paulo Talarico, pintor mineiro

Em decorrência de desleixo secular, a implantação da indústria, do comércio e dos serviços se fez na valentona, sem planejamento e sem diretivas. O resultado é um desastre: abundância de oferta em grandes aglomerações e carência gritante em localidades menores. Na Alemanha, na Suíça ou na Itália, país que não é tão medieval assim, vilarejos pequeninos dispõem de um leque satisfatório de serviços, o que inibe o êxodo rural.

Em nosso país, o comércio e os serviços disponíveis em cidades menores nem sempre estão à altura da demanda. Vai daí, muitos jovens partem e acabam se fixando em localidades maiores em busca de oferta mais afinada com suas necessidades.

Diferentemente do que se imagina, a estabilização ‒ ou até a diminuição ‒ da taxa de urbanização no Brasil seria sinal positivo. Demonstraria que necessidades e anseios da população das vilas estão sendo cuidados.

Inovação e excelência

Dad Squarisi (*)

Estudante 1A fila anda. Com ela, a sociedade muda. O que era deixou de ser. Deu lugar a transformações na cultura nacional. Uma das mais importantes: a certeza de que o Estado não dá conta das obrigações. Seja por incompetência, seja por falta de compromisso, o grande pai falhou. A escola não ensina. A saúde não cura. A segurança assusta. O transporte abandona passageiros no caminho.

Desde Pedro Álvares Cabral, os pobres pagam a conta do descaso. O cobrador bate à porta de favelas e moradores de bairros distantes. Com a rápida e bagunçada urbanização, os excluídos exigiram inclusão. Sem planejamento, o país fez o que sempre faz: deu um jeitinho. A resposta ao improviso foi a piora de tudo – a degradação do equipamento urbano e a manutenção de bolsões de esquecidos de Deus e dos homens.

Estudante 2E daí? Na certeza de que quem espera nunca alcança, ONGs e empresas conscientes da responsabilidade social decidiram fazer sua parte. Apoiam ou patrocinam projetos aptos a responder a urgências sociais. É o caso da C&A, da Natura, da Telefónica, do Grupo Votorantim, do Correio Braziliense & cia do bem. A tecnologia, claro, figura entre os principais fatores de mudanças.

Semana passada, seminário internacional reuniu em Florianópolis especialistas de diferentes grupos que discutiram o papel da tecnologia para a transformação social. Um ponto chamou a atenção: embora seja um dos países mais conectados do mundo, o Brasil figura na rabeira da inovação. A tecnologia pouco impacta escolas de todos os níveis de ensino.

ExameNão por acaso, lideram o ranking os primeirões do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) – Cingapura, China, Japão, Finlândia. Significa que colhe os frutos da inovação quem tem ensino de qualidade. Não é o nosso caso. Ainda marcamos passo em leitura, matemática e ciências. Obrigamos os estudantes a olhar para trás em vez de desafiá-los a buscar respostas para os desafios da contemporaneidade.

Educação de excelência, que pressupõe professores, currículo, material e instalações físicas de ponta, figura em discursos políticos. Palavras bonitas soam bem, mas são incapazes de, sozinhas, se transformarem em ação. Precisam da mobilização social. O cidadão tem de exigir um futuro moderno para filhos e netos. Escolas do século 19, professores do século 20 e alunos do século 21 não falam a mesma língua.

(*) Dad Squarisi, formada pela UnB, é escritora. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. Edita o Blog da Dad.

Interligne 18bObs. deste blogueiro
PISA é acrônimo da expressão inglesa Program for International Student Assessment. A fim de conservar a sigla, os espertos franceses torceram a língua e traduziram: Programme International pour le Suivi des Acquis. Em português – ao pé da letra – fica meio esquisito: Programa Internacional para Seguimento do Adquirido.

China em polvo… rosa

José Horta Manzano

Você sabia?

O fenômeno de urbanização acelerada, típico de países tradicionalmente agrícolas, teve início, no Brasil, lá pelos anos 1940, 1950. As décadas de 60 e de 70 conheceram o auge do movimento.

Foi quando campos se esvaziaram e cidades incharam. Pouco resta do Brasil rural de nossos avós. O rancho fundo e a choça do jeca-tatu perdem-se na bruma do passado. A passagem para a urbanização ainda continua, mas hoje dança-se em ritmo mais maneiro.

Dalian, norte da China

Dalian, norte da China

Já na China, a urbanização está ocorrendo a toque de caixa, em velocidade vertiginosa. É como se os carros de boi de 1920 cedessem lugar a um batalhão de milhões de automobilistas ― todos despejados na paisagem ao mesmo tempo.

A gestão dessas mudanças nem sempre é sem percalços. Os atores às vezes trocam os pés pelas mãos. Quando postas em prática, iniciativas cheias de boa intenção podem revelar-se um desastre. É o que acaba de ocorrer em Dalian, metrópole de quase 7 milhões de habitantes situada a menos de 500 km a leste de Pequim.

Como toda aglomeração chinesa que se preze, Dalian tem seus imensos centros comerciais (em bom português: shopping centers). Elevadores de vidro, o infalível Starbucks, McDonald’s e seus inescapáveis sucedâneos, franquias de marcas internacionais, tudo está ali presente para confirmar que nada se parece mais com um centro comercial do que outro centro comercial. Em qualquer lugar do mundo. Não falta nem o fundo musical emburrecente.

Um detalhe, no entanto, faz a particularidade dessa catedral do consumo. Os administradores do centro julgaram de bom-tom criar espaços de estacionamento especialmente dedicados às mulheres, devidamente assinalados com ideogramas cor-de-rosa. Particularidade? Ora, isso não é novo! ― dirão meus atentos leitores. Já faz tempo que, em muitos outros centros, as mulheres contam com setor reservado.

É verdade. O que distingue o shopping center de Dalian é a razão pela qual certas vagas são reservadas ao sexo feminino. Em outras partes do mundo, a intenção é garantir maior segurança às senhoras, protegendo-as contra agressões. Não é o caso de Dalian.

"Respeitosamente reservada às mulheres" Dalian, China

“Respeitosamente reservado para mulheres”
Dalian, China

Na China, agressões, roubos, arrastões & assemelhados (ainda) não fazem parte da paisagem habitual. As vagas de estacionamento do centro comercial em questão são simplesmente… 30 cm mais largas do que as vagas comuns. A intenção dos idealizadores da novidade foi facilitar a manobra das motoristas.

Assim que a notícia se espalhou, o país sofreu tempestade midiática. Multidões de cidadãos ― especialmente de cidadãs ― expressaram sua indignação, principalmente por meio das redes sociais. Sem que os autores da ideia se dessem conta, ficou escancarado o proconceito de que mulheres ao volante são menos hábeis que homens.

A discussão continua, apaixonada. Há quem aprecie a iniciativa, há quem abomine a discriminação. Só o tempo dirá se as vagas serão suprimidas ou não. Se eu ficar sabendo, conto.

Interligne 18b

A palavra polvorosa descende do castelhano polvo (=pó, poeira). Entra-se em polvorosa quando algum acontecimento levanta poeira.

Tsunami urbano 2

José Horta Manzano

Não faz muito tempo, pouco mais de duas semanas atrás, escrevi um artigo sobre um monstruoso erro de urbanização que foi ― e continua sendo ― cometido na cidade de São Paulo.2013-0308 Enchente

Dizia eu que, quando os jesuítas subiram a serra, quase quinhentos anos atrás, já chovia, e muito, nessa terra. Os drenos que a natureza havia pacientemente sulcado durante milênios foram ignorados. Acabaram sendo canalizados, ou seja, enfiados dentro de canos, literalmente. Os tubos foram calculados para um fluxo médio. Vê-se hoje que os períodos de subida das águas foram soberbamente menosprezados.

Deu no que deu. Reparem bem: as enchentes acontecem sempre nos mesmos lugares, exatamente nas regiões em que a natureza foi violentada. Como dizia um chefe que tive muito anos atrás, com seu carregado sotaque estrangeiro: «ninguém tapeia a natureza».

Hoje, pelo que li nos jornais, foi vez da Avenida Prof. Ascendino Reis, lá pelos lados do Ibirapuera. Por que justamente lá, bairro de classe média alta, lugar de gente fina? Ora, minha gente, porque por ali passava um dreno natural, um córrego chamado Uberaba. O fio d’água, margeado por vegetação, seguia pela atual Avenida José Maria Whitaker, passava por detrás da colina onde hoje está instalado o Aeroporto de Congonhas, dava uma guinada para oeste e desembocava no córrego Pinheirinho. Este, por sua vez, seguia até desaguar no Rio Pinheiros.Ascendino Reis 1952

Ascendino Reis 2013Taparam os córregos e acharam que o problema estava resolvido. Bairros foram arruados e terrenos foram vendidos. Só esqueceram de combinar com a natureza. Impassível, ela continua a verter suas águas pelos mesmos caminhos. Tanto se lhe dá que o escoadouro esteja asfaltado. Casas, automóveis, caminhões não são capazes de deter força maior que eles. Não há brucutu que segure uma enchente.

Para os curiosos, duas imagens seguem anexadas. A primeira, de 1952, mostra o Córrego Uberaba, ainda não canalizado. Note-se que passa por debaixo da Avenida Ascendino Reis. Não procurem a Avenida Rubem Berta, porque ainda não existia.

A segunda imagem, mais ou menos na mesma escala, foi tirada do google e mostra a mesma região nos dias de hoje. Os córregos sumiram do mapa. Mas a topografia continua igual. As águas seguem o mesmo caminho milenar.

Ninguém tapeia a natureza.

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