Sem palavrão

José Horta Manzano

Não é só nas altas esferas da República que a ladroeira come solta. Em esferas mais baixas, o logro, a improbidade e a traição vicejam. Continua tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Nestes dias de rebuliço social e de tramas políticas apimentadas com verbo chulo, assaltos menores passam na surdina. Nem por isso, deixam de ser indecentes e revoltantes.

Teatro Municipal, São Paulo

Teatro Municipal, São Paulo

Dois fatos foram revelados esta semana, ambos ocorridos na maior cidade do país. O primeiro escândalo tem a ver com o Teatro Municipal, um dos fortes símbolos culturais da cidade. Um ex-diretor, investigado por desvio de verba pública num total de 18 milhões, negociou acordo de delação premiada com o Ministério Público. A crer na denúncia, até o maestro titular está envolvido. Como é praxe, todos negam.

Livro 7Outro episódio deprimente vem de investigação feita na Biblioteca Municipal, outro símbolo cultural forte. No final de 2015, foi concluído um inventário do acervo de obras raras ‒ o anterior datava de 1969, quase meio século de descaso. Descobriu-se que importante quantidade de obras raríssimas haviam desaparecido. Muitas eram peças únicas, de valor inestimável e, naturalmente, insubstituíveis. O que se perdeu, perdido está. O pouco que temos de memória nacional vai escorrendo pelo ralo.

Como se vê, nem bens culturais escapam à concupiscência que fervilha em nossa terra tropical. Ladrões não são só os que soltam palavrão em conversa caseira. O mal é maior.

O sal e o salário

José Horta Manzano

Em São Paulo, professores em greve despejaram sacos de sal em frente ao prédio da Secretaria da Educação. O simbolismo, ligado ao pedido de aumento de ordenado, é claro: a palavra salário deriva de sal.

Até aí, poderia até ser engraçado. Parece menos agressivo do que o vandalismo cometido semana passada. Naquela ocasião, tentaram arrebentar, com um aríete, a porta do venerando prédio de 1894, obra do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo – o mesmo que concebeu o Theatro Mvnicipal.

Manif 16Foi menos violento, sem dúvida, mas nem por isso mais civilizado. Na ânsia de defender seus interesses, manifestantes pouco estão se lixando para eventuais vítimas colaterais de seus atos.

Terminada a passeata, vão pra casa descansar. É aí que entra em cena a figura humilde do limpador de rua que, nesse dia, terá trabalho extra. Sem aumento de salário, por mais que haja sal a varrer.

Tem mais. Os tempos são de penúria hídrica, nome eufemístico para o que se costumava chamar seca. Em tempos de seca braba, até água de reúso entrou em pauta. As toneladas de sal derramadas na cidade entrarão pelos bueiros, passarão pela canalização de esgoto e, fatalmente, se somarão aos outros agentes poluentes para piorar a qualidade da água de rios e reservatórios. É tiro no pé, atitude imbecil.

Secretaria da Educação, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Secretaria da Educação, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Professor é figura importante. A criança tende a ver nele uma referência. Todos nós guardamos lembrança dos mestres que nos guiaram os primeiros passos fora do ambiente caseiro. A gente costuma guardar memória mais viva daquele (ou daquela) que nos ensinou as primeiras letras do que dos muitos que vieram mais tarde.

Professor que participa de depredação de bem público – ou mesmo aquele que apenas aplaude passivamente – está traindo a função que deveria exercer na sociedade. Toda a categoria docente deveria pensar duas vezes antes de se associar a manifestações em que reina a incivilidade. Pega mal pra caramba.