Falam de nós – 3

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

A desgraça de uns…
Os danos causados pela seca que assola boa parte do território brasileiro não se resumem à falta d’água para consumo humano. A região cafeeira do Brasil, situada dentro da zona climaticamente perturbada, também se ressente do desregramento climático.

O Brasil é o maior produtor mundial de café. A safra 2014-2015 foi afetada pela ausência de chuva, fato que causou aumento de preço da rubiácea no mercado mundial. Prevê-se que a safra 2015-2016 vá pelo mesmo caminho.

Café 2Quem ganha com isso são os demais países produtores. Entre eles, a Etiópia – mencionada em reportagem do Portal RFI (Radio France Internationale). Este ano, as exportações etíopes cresceram 6% em volume e 34% em valor justamente devido à valorização advinda da raridade do produto.

A Etiópia agradece a São Pedro.

Interligne 28aPiscina com suástica
A propagação da notícia da piscina catarinense azulejada com suástica ecoou mais fortemente em dois países: Alemanha e Israel. É compreensível.

Tanto o jornal israelense Haaretz quanto o alemão Bild deram destaque à bizarra notícia. (Já comentamos o assunto no posto Símbolos horizontais.)

Interligne 28aRapina
A palavra, que significa roubo praticado com violência, é pouco utilizada no Brasil. Preferimos assalto. Tanto faz, o crime é o mesmo.

Assalto 1O Corriere Adriatico, jornal regional da Itália, traz a notícia do susto pelo qual passaram dois médicos italianos em visita ao Brasil. Tinham vindo participar do Congresso Mundial de Alergologia, no Rio de Janeiro. Um miniônibus, lotado com médicos italianos, foi assaltado, logo na chegada ao Rio, no caminho do aeroporto ao hotel. Assalto cinematográfico, com direito a arma apontada para a cabeça do motorista. O guia levou uma coronhada, e os médicos foram aliviados de seus pertences de valor – dinheiro, cartão de crédito, celular, relógio.

Benvenuti in Brasile!

Interligne 28aOlho vivo, chineses!
O Portal China Daily relata a formação que está sendo oferecida a representantes de companhias chinesas que tencionam se instalar no Brasil. Há muitas firmas na fila. Um grupo brasileiro especializado em aconselhamento de investidores estrangeiros está encarregado de informar e formar os principiantes.

Chinês 2Entre as dicas, os chineses aprendem que, no Brasil, o cipoal legal é denso. É imprescindível que todo contrato seja examinado por advogados e fiscalistas antes do jamegão.

Os potenciais investidores são também alertados para falsas promessas feitas pelos Estados. São incitados a tomar extremo cuidado com bondades do tipo terreno grátis, favores fiscais, aluguéis a preços de pai pra filho. Podem cair em cilada.

Interligne 28a

Símbolos horizontais

José Horta Manzano

SOSDesde antes de inventar a escrita, o homem procurou deixar marca de sua passagem. Escreveu na pedra, na madeira, na argila, na areia, no papel, no bronze, na natureza.

Deixar marcas no chão, que só poderiam ser vistas do alto, fazia pouco sentido antes do advento de balões, aviões & conexos. Hoje a coisa mudou.

Estes dias, voando atrás de sequestradores, a Polícia Civil de Santa Catarina surpreendeu – e fotografou – uma piscina residencial cujo revestimento reproduz o desenho de uma inquietante suástica, de triste memória.

Foto divulgada pela Polícia Civil de Santa Catarina

Foto divulgada pela Polícia Civil de Santa Catarina

Desconheço a legislação, mas acredito que, no Brasil, o fato de ostentar uma cruz gamada no exterior de sua residência não constitua crime. Na Alemanha, levaria o responsável ao calabouço. Rapidinho.

Ocorreram-me dois outros casos de mensagem desenhada no solo, casos que fizeram história.

O primeiro deles aconteceu faz meio milênio. Foi quando José de Anchieta, religioso espanhol de origem judia aportado à Capitania de São Vicente nos idos de 1553, escreveu seu Poema à Virgem. Riscou-o nas areias de Iperoig (atual Ubatuba, Estado de São Paulo). O padre poeta tinha sido tomado como refém por uma tribo autóctone e encontrava-se em cativeiro. Diríamos hoje que estava no regime semiaberto.

Padre Anchieta escrevendo seu Poema à Virgem by Benedito Calixto (1853-1927)

Padre Anchieta escrevendo seu Poema à Virgem
by Benedito Calixto (1853-1927)

O primeiro registro da composição teve exata duração de uma maré. As águas atlânticas se encarregaram de apagar a obra. Seus 4712 versos só chegaram até nós por façanha da extraordinária memória de Anchieta. Uma vez liberto, ele reescreveu a poesia.

O caso catarinense lembrou-me também – que remédio? – outro episódio bem mais recente e bem menos glamoroso. O distinto leitor há de se lembrar da estrela vermelha que a esposa do então presidente mandou plantar nos jardins do Palácio da Alvorada. Mostrando, já naquela época, o sinal distintivo do partido do marido – o «nós contra eles» –, não hesitou em marcar a sede do Executivo de todos os brasileiros com o símbolo do «nós».

Estrela Alvorada«Nós», que chegamos lá. «Nós», que ganhamos. «Nós», que mandamos. Pareceu natural a todos eles. Não foi senão na sequência de clamor popular – e bem a contragosto – que desmancharam o «enfeite» plantado no jardim da sede do Poder brasileiro. Poder que emana do povo, lembre-se.

Foto de 2011

Foto de 2011

Anos mais tarde, repetiu-se a dose. Só que, desta vez, nos jardins da Granja do Torto, outra residência oficial do chefe do Executivo. O nome da granja, por falar, combina com seus atuais ocupantes. Pau que nasce torto não tem jeito: morre torto.

Interligne 18bEm tempo
O poema de Anchieta ainda está aí, à disposição do leitor. Ainda que não possa ser incluído entre as obras-primas da poesia de todos os tempos, continua comovente pela pureza e pela singeleza de suas estrofes. Já o «nós contra eles», visivelmente na contramão da História, tem prazo de validade efêmero. Mais dia, menos dia, será varrido pela maré. Ou por um tsunami.