Escola em fatias

José Horta Manzano

Onibus 6Longe do Brasil e há muitos anos apartado da escola, confesso que não acompanhei o diferendo que resultou em ocupação de estabelecimentos escolares no Estado de São Paulo. De notícia boa, a gente corre atrás. De notícia ruim, a gente foge – só lê por obrigação.

Uma cara amiga e fiel leitora me fez, em poucas linhas, um resumo da situação. Foi um relato claro como manual de English for beginners. Se não me tornou especialista, deu-me visão global do problema. Fica aqui registrado meu agradecimento.

Se bem entendi, as autoridades que cuidam da educação em São Paulo propõem que a escola pública seja compartimentada por ciclos. Cada escola se dedicaria unicamente a um deles. Assim, escola de ciclo básico não acolheria alunos do intermediário nem do secundário. E assim por diante.

Escola 1Se raciocinarmos no absoluto, passando por cima dos considerandos, a ideia não é absurda. Combina com o que se faz no resto do mundo. Aqui na Suíça, por exemplo, é assim que funciona, a começar pela creche: berçário para crianças muito novinhas e creche para os maiorzinhos não estão necessariamente no mesmo vilarejo. Quem tem duas crianças em idade pré-escolar tem de depositar cada filho numa creche diferente, situada noutro lugar. Mais tarde, o problema desaparece, porque o transporte escolar se encarrega de levar e trazer os guris a partir de sete anos de idade.

Feliz ou infelizmente, Brasil não é Suíça. As condições de vida diferem muitíssimo de um país ao outro. A mobilidade urbana – que, em metrópoles brasileiras, melhor seria descrita como «imobilidade urbana» – é fonte de graves problemas no Brasil. A predominância de famílias de renda baixa é outro estigma nacional.

Na outra ponta, muitos professores brasileiros só conseguem sobreviver se acumularem dois (ou mais) empregos em ciclos diferentes. Se o dia a dia desses profissionais já é carregado, ficará infernal caso a reforma vingue.

Onibus 7Não há garantia de que sistemas testados e aprovados nalgum lugar continuem a funcionar bem quando transplantados a outras plagas. Para que a especialização de cada estabelecimento de ensino possa ser adotada no Brasil, há que estar atento ao transtorno que possa trazer a pais e alunos. Não se fala aqui de problemas de adaptação de um pequerrucho a nova escola. Nossos empecilhos são reais, palpáveis, espinhudos, às vezes intransponíveis.

No dia em que as condições de vida do cidadão brasileiro tiverem evoluído e atingido nível civilizado, será chegado o momento de criar estabelecimentos especializados para cada ciclo. Por enquanto, o quadro geral não permite dar esse passo.

O sal e o salário

José Horta Manzano

Em São Paulo, professores em greve despejaram sacos de sal em frente ao prédio da Secretaria da Educação. O simbolismo, ligado ao pedido de aumento de ordenado, é claro: a palavra salário deriva de sal.

Até aí, poderia até ser engraçado. Parece menos agressivo do que o vandalismo cometido semana passada. Naquela ocasião, tentaram arrebentar, com um aríete, a porta do venerando prédio de 1894, obra do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo – o mesmo que concebeu o Theatro Mvnicipal.

Manif 16Foi menos violento, sem dúvida, mas nem por isso mais civilizado. Na ânsia de defender seus interesses, manifestantes pouco estão se lixando para eventuais vítimas colaterais de seus atos.

Terminada a passeata, vão pra casa descansar. É aí que entra em cena a figura humilde do limpador de rua que, nesse dia, terá trabalho extra. Sem aumento de salário, por mais que haja sal a varrer.

Tem mais. Os tempos são de penúria hídrica, nome eufemístico para o que se costumava chamar seca. Em tempos de seca braba, até água de reúso entrou em pauta. As toneladas de sal derramadas na cidade entrarão pelos bueiros, passarão pela canalização de esgoto e, fatalmente, se somarão aos outros agentes poluentes para piorar a qualidade da água de rios e reservatórios. É tiro no pé, atitude imbecil.

Secretaria da Educação, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Secretaria da Educação, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Professor é figura importante. A criança tende a ver nele uma referência. Todos nós guardamos lembrança dos mestres que nos guiaram os primeiros passos fora do ambiente caseiro. A gente costuma guardar memória mais viva daquele (ou daquela) que nos ensinou as primeiras letras do que dos muitos que vieram mais tarde.

Professor que participa de depredação de bem público – ou mesmo aquele que apenas aplaude passivamente – está traindo a função que deveria exercer na sociedade. Toda a categoria docente deveria pensar duas vezes antes de se associar a manifestações em que reina a incivilidade. Pega mal pra caramba.