Smörgåsbord

José Horta Manzano

Não conheço esse evento que, imodesto, se autodenomina “o maior festival de gastronomia de rua do mundo”. Por seu lado, percebo que seu nome, Smorgasburg, é uma brincadeira com o original smörgåsbord, termo de origem sueca. O final da palavra que dá título ao festival foi alterado para “burg”, provavelmente para evocar hambúrguer.

Nem todos sabem que, além de reis como Pelé e Roberto Carlos, o Brasil tem uma rainha – monarca de verdade, de manto e coroa. É Silvia, rainha da Suécia. Sua Majestade é brasileira pelo direito do sangue dado que sua mãe, Alice Soares de Toledo, era paulista de quatro costados. Além de ter mãe brasileira, a rainha Silvia viveu no Brasil entre os 4 e os 14 anos de idade. Fala nossa língua como nós.

Só mencionei isso porque me ocorreu agora. O assunto de hoje é o “maior festival de comida de rua do mundo”. Não faço ideia de como se apresentará esse festim, mas imagino que não tenha muito a ver com o original sueco. O smörgåsbord original passa longe do que entendemos por “comida de rua”.

Por razões de convivialidade, o sueco aprecia particularmente uma mesa de pratos variados, em geral servidos em temperatura ambiente, da qual cada um pode se servir e levar o prato para comer onde lhe agradar. É um misto de bufê, piquenique e festa de criança. Se alguém o convidar para um smörgåsbord, vá na fé que é refeição de alto padrão.

Smörgås significa sanduíche aberto (smör = manteiga). Bord é mesa. Mas um smörgåsbord é bem mais que uma mesa atapetada de sanduíches abertos. Sobre a mesa, não podem faltar fatias fininhas de salmão marinado, talvez filé de arenque, batatas cozidas (servidas frias ou mornas). Camarão (cozido e descascado) e outros mariscos aparecem frequentemente assim como embutidos fatiados, queijo duro, queijo cremoso e obrigatoriamente queijo azul. A escolha de pães deverá incluir o pão sueco (fino e crocante) e o pão de centeio. O resto fica por conta da imaginação (e das posses) de quem convida.

O princípio de uma refeição preparada apenas para um grupo de amigos é idêntico ao de uma imensa mesa preparada para centenas de convivas, como um bufezão de navio de cruzeiro.

Tecnicamente, o smörgåsbord difere de um bufê ou de nosso restaurante “por quilo” (= por peso). Em geral, no bufê e no restaurante por peso se enche o prato uma vez só. Já na refeição sueca, usam-se pratos menores e os convivas só se servem de pequena quantidade a cada vez; em seguida, voltam buscar mais. O vaivém incessante de comensais faz parte do espetáculo.

Se vosmicê quiser surpreender seus amigos com um smörgåsbord, é melhor adaptá-lo ao gosto nacional. Filé de arenque sobre uma fatia de pão de centeio, além de custar caro, pode não agradar ao distinto público. No fundo, o que conta é que seja bom de gosto e bonito de ver.

Vamos ver se o “Festival Smorgasburg” realmente se parece com o festim do qual tomou emprestado o nome. Tenho cá minhas dúvidas.

Moro medalhado

José Horta Manzano

Medalhas, comendas, condecorações e honrarias há muitas. No Brasil, como por toda parte, distribuem-se galardões. Alguns são muito prestigiosos, outros um pouco menos. A presidência da República é distribuidora de medalhas. Governos estaduais e municipais também. Até escolas costumam, em certas ocasiões, medalhar alunos. (No meu tempo, pelo menos, era assim.)

Moro 1A importância da homenagem depende de vários fatores. Entram no cômputo: quem outorga, quem recebe e, naturalmente, a raridade (ou a abundância) de agraciados.

Para autoridades, não é complicado conceder medalha. Não precisa passar por aprovação do parlamento. Não é necessário votar nova lei a cada vez. Decreto presidencial basta. Em certos casos, simples portaria resolve o problema. Como consequência da facilidade, a tendência é o aumento exponencial dos agraciados, o que tem por efeito a perda do valor simbólico da honraria.

Medalha do Pacificador

Medalha do Pacificador

O Exército Brasileiro acaba de outorgar a Medalha do Pacificador ao juiz federal Sergio Moro. Por coincidência ‒ ou não ‒, a cerimônia de concessão da honraria ocorreu no exato dia em que o Senado Federal dava início ao processo de julgamento da presidente emérita.

Estava passando da hora de se lembrarem do destemido magistrado paranaense. Muita gente pouco recomendável e uma baciada de desconhecidos já foram brindados com a homenagem. É verdade que, com ou sem medalha, doutor Moro já entrou para a História do Brasil. Já os desconhecidos que tiveram direito à mesma honraria continuam desconhecidos. E assim hão de continuar.

Janio 3A condecoração mais importante que o Brasil concede a estrangeiros é a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Raros são os agraciados. Infelizmente, dado que o presidente tem a prerrogativa de decidir, algumas gafes têm sido cometidas. Ficou na história a condecoração outorgada pelo folclórico presidente Jânio Quadros a Ernesto “Che” Guevara. A cerimônia teve lugar menos de uma semana antes de nosso presidente renunciar intempestivamente ao cargo.

Entre os medalhados com a Ordem maior, estão a rainha da Inglaterra, homenageada quando de sua visita ao Brasil em 1968. O presidente da França Nicolas Sarkozy e quatro presidentes de Portugal também foram agraciados. Do lado sério, temos ainda o rei da Suécia e sua esposa, a rainha Sílvia ‒ que, por sinal, tem mãe brasileira e foi criada em São Paulo.

Lula e BasharDo lado menos sorridente, além do «revolucionário» Guevara, foram distinguidos o ditador sírio Bashar El-Assad, Cristina Kirchner, o aprendiz de ditador peruano Alberto Fujimori (hoje presidiário), os ditadores Nicolae Ceaușescu (Romênia) e Josip Tito (Iugoslávia). Doutora Dilma fez questão de condecorar dois presidentes da terra de seus antepassados: os búlgaros Parvanov (em 2011) e Plevneliev (em 2016). É provável que este senhor tenha sido o último a receber a medalha das mãos da doutora.