Desempenho anunciado

José Horta Manzano

Dando, mais uma vez, mostra de retidão, firmeza de princípios e certeza quanto ao rumo definido, doutor Bolsonaro acaba de abandonar o PSL, partido pelo qual se elegeu para a presidência.

Quem imaginava que a deserção mexeria com os alicerces e afetaria os brios do partido nanico ficou falando sozinho. Além de não estar preocupada, a direção parece até aliviada. Anda soltando avisos e comunicados. Longe de se mostrar compungida, cabeça coberta pelo véu preto do abandono por parte de membro ilustre, está a todo vapor, de viúva alegre, soltando foguete.

Acaba de anunciar que, nas eleições do ano que vem, pretende conquistar entre 300 e 500 prefeituras. A afirmação é desprovida de conteúdo. São números lançados ao vento. Que quer dizer isso? Um resultado que dê 300 ou 500 prefeitos ao partido é bom? É mediano? É sucesso estrondoso? Depende.

Sim, distinto leitor, depende. Pouco importa o número de prefeitos. Não vivemos, no Brasil, num regime em que prefeitos tenham outra força política que não seja influenciar os cidadãos do próprio município. Em outras democracias, é importante ter grande número de alcaides. São eles os grandes eleitores que vão escolher os senadores, por exemplo. No Brasil, não. O número, pequeno ou grande, não tem significado intrínseco.

O que vale, isso sim, é saber quantos cidadãos serão administrados por prefeitos do PSL. Vamos dar dois exemplos extremos. Se, por absurdo, candidatos desse partido conquistarem os 400 municípios menos populosos do país, governarão um total de 900 mil habitantes, menos de um milhão. Se, no entanto, vencerem nos 400 municípios mais populosos, porão a mão num orçamento enorme e reinarão sobre quase 130 milhões de administrados. A régua é outra.

Portanto, «entre 300 e 500 prefeituras» são palavras ao vento. Sozinha, a cidade de Maceió, nas Alagoas, tem colégio eleitoral maior que o dos 400 menores municípios do país – todos juntos. Sem falar no prestígio e na projeção nacional.

Presidente sem partido

José Horta Manzano

Até quem tem bons olhos, às vezes atira no que vê e acerta o que não tinha visto. Quem vive na escuridão, então, é useiro e vezeiro desse tropeço. Que nenhum cego nem nenhum militante pacifista se ofenda, nem me entenda mal: estou falando por metáforas. Nesta fábula, todos veem, ninguém atira e (quase) ninguém tropeça.

Doutor Bolsonaro – personagem central da historinha – está entre os que vivem na escuridão. E olhe que minha fala não está carregada de preconceito de classe. Nosso presidente, apesar de ter origens humildes, está há 30 (trinta) anos na política. É uma existência! Imagine o que uma pessoa esforçada teria aprendido em trinta anos de boa-vida, bom salário, trabalho sem patrão, horário praticamente livre, apartamento funcional, mordomias e todo o resto. Em vez disso, nada: o homem continua encruado como se tivesse saído mês passado de uma (péssima) escola primária.

É por isso que ele, embora fale pelos cotovelos, parece não dizer coisa com coisa. Só tem a casca: terno, gravata, cabelo (mal) cortado, ar sério e carrancudo. Mas falta o miolo. De aparência, convenhamos, é melhor que um Lula da Silva. Mas é só. Ambos falam sem conteúdo. O presidente anterior, hoje cumprindo pena em Curitiba, tinha seguido caminho semelhante. De origem humilde, conciliou a vida boa de líder sindicalista com a boa-vida de deputado federal. Apesar disso, trinta anos mais tarde, continuava acreditando que a terra era plana.

Estou me perdendo. Comecei falando de Bolsonaro e, lá pelas tantas, me dei conta de que ele e o Lula têm percurso comparável. Origem humilde, trinta anos de bem-bom, verborragia descontrolada. Placar final: pouca instrução, muito palpite, muita opinião pessoal, mas pouco miolo. Mas o Lula não tem nada que entrar nesta fábula. Xô!

Minha intenção é comentar uma frase que doutor Bolsonaro pronunciou ontem, frase que, apesar da aparência desconexa, encobre uma verdade. «Eu posso ser um presidente sem partido» – foi o que o homem disse, entre uma xícara de chá verde e um confeito de gengibre. A frase, todos perceberam, tem a ver com a operação de desmanche do PSL, partido pelo qual ele se elegeu. Sem ousar admitir, ele já deixou subentendido que perderá o apoio desse partido e que provavelmente jamais será acolhido com reverência em nenhum outro.

Lá no começo, eu disse que Bolsonaro costuma atirar no que vê e acertar o que não tinha visto. Neste caso, atirou no que estava vendo: o derretimento do partido que lhe dava sustento. Mas acertou ao dizer que um presidente pode sobreviver «sem partido». Eu diria até que, mais que poder, tem o dever de se afastar da politicagem partidária. Pelo menos, em aparência e em público. No paralelo, cada um é livre de trocar dólar como quiser.

O cargo de presidente do Brasil é função dupla. Ao mesmo tempo, o sujeito é chefe do Estado brasileiro e chefe do governo da República. São funções distintas que, fora das Américas, costumam ser atribuídas a pessoas distintas. Se acrescentarmos a essa carga a liderança de um partido, teremos um homem sobrecarregado. Ninguém é super-homem. Quem tenta exercer três funções pesadas ao mesmo tempo vai acabar executando mal o trabalho, ainda que seja bom de bola – o que não é necessariamente o caso de doutor Bolsonaro.

No momento em que veste o terno e sobe a rampa, o entronizado se torna presidente de todos os brasileiros. Nada o impede de continuar filiado a um partido, mas o bom senso o aconselha a fazer política partidária o mais discretamente possível. Justamente para não melindrar os que não aderem a esse partido, mas que são súditos do mesmo Estado, à cabeça do qual está o mesmo presidente.

No fundo, um presidente «sem partido» não é ideia absurda. Há outras maneiras de conseguir apoio no Congresso; e doutor Bolsonaro, que já foi congressista por 7 (sete!) legislaturas consecutivas, sabe muito bem disso.

Juntos, venceremos!

José Horta Manzano

Com exceção de sunga, fio dental, vôlei de praia & afins, o Brasil não é lançador de moda. Ainda que chinelo de dedo pareça genuína invenção nacional, já era usado por chineses dois milênios antes da chegada de Cabral. (Falo de Pedro Álvares, não daquele que está na cadeia.)

O brasileiro é bastante permeável a modas importadas. Picolé mudou de nome, virou paleta, e o povo achou o máximo. Bife de carne moída, que minha avó aprendeu a fazer com a mãe dela cem anos atrás, virou hambúrguer, e o povo achou o máximo. Liquidação virou sale, desconto virou off, entrega virou delivery ‒ e o povo achou o máximo.

Tudo o que eu mencionei são leviandades. Pode-se sobreviver sem paleta, sem sale e sem delivery. Já quando se trata de assunto importante, o Brasil é bem mais renitente. Em matéria política e social, por exemplo. Aperfeiçoamentos como voto distrital, abolição de foro privilegiado e de cela especial, diminuição de empresas estatais são mudanças difíceis de introduzir. Li outro dia que os governos lulopetistas criaram 150 empresas estatais. Cento e cinquenta cabides de emprego! Pode?

Está chegando ao país nova moda, já adotada muito tempo atrás no estrangeiro. A selva de siglas partidárias, cujo significado poucos conhecem, está sendo substituída por nomes mais simpáticos, que evitam cuidadosamente a palavra ‘partido’, desgastada e malvista.

O exemplo vem de fora. Na França, temos legendas como «La France Insoumise» (A França Rebelde) e «En Marche!» (Vamos em frente!). Na Espanha, apareceram «Podemos» e «Ciudadanos» (Cidadãos). Na Itália, há «Movimento Cinque Stelle» (Movimento Cinco Estrelas) e «Forza Italia» (Força, Itália!). Até na vizinha Bolívia, já faz tempo que señor Morales chefia o «Movimiento al Socialismo».

É o Zeitgeist ‒ sinal dos tempos. Partidos, tanto os tradicionais quanto os de aluguel, andam pra lá de desgastados no Brasil. (Se é que, um dia, já significaram alguma coisa.) Por que não aderir à moda? Nomes têm surgido a cada dia : Patriotas, Avante, Democracia Cristã, Livres, Centro Democrático. Até o PMDB, pra lá de manjado, estuda retomar a denominação originária de MDB.

No final, por que não? Não há de fazer mal a ninguém. Duvido que alguém possa recitar, na ponta da língua, o nome por extenso dos quase quarenta partidos registrados atualmente no país. PRTB? PSL? PCO? PMB? PRB? O distinto leitor conhece todos? Nem eu.

Diferentemente de alguns analistas, não vejo nessa onda de mudança nenhuma jogada de marketing urdida pelos partidos para esconder espírito malévolo debaixo de pele de cordeiro. Exibir denominações em vez de siglas traz mais vantagem que prejuízo. E me parece facilitar a identificação de cada associação. Reconheçamos que um hipotético «Juntos, venceremos!» é mais sugestivo e bem mais atraente que um reles PXYZ ou coisa que o valha.

Viva a nova moda! Que mudem todos! Ah, e que aproveitem a oportunidade para despedir todos os eleitos atuais e substituí-los por sangue novo. Como já dizia o outro, pior do que está não fica. Que se aposentem. Política não é profissão.