Multas

José Horta Manzano

Jair e Eduardo, os dois membros do clã Bolsonaro que mais amam afrontar a lei, pintaram e bordaram durante os quatro anos em que Jair permaneceu no topo do poder. A cada oportunidade que se apresentou, pai e filho carteiraram: ignoraram regulamentos, prescrições e leis. Foi como se as regras que organizam a vida em sociedade tivessem sido criadas só para a ralé. Eles, gente acima da carne seca, estavam isentos de se curvarem.

O pai, escorado em suas prerrogativas de função, fez mais que o filho. Desafiou mundos e fundos. Não se passou uma semana sem que deixasse marca de incivilidade, no limite da selvageria. Sem máscara (quando seu porte era obrigatório), espalhou perdigotos e carregou crianças no colo. Sem capacete, liderou “motociatas”. Se não zombou mais da lei é porque não teve ocasião.

O capitão foi vítima do mal que castiga toda pessoa de poder: a (ilusória) sensação de onipotência e de imunidade eternas. Como sabemos hoje, ele persistiu nessa crença até seu último dia de mandato. Decolou para os EUA na certeza de que seu poder se prolongaria, que seus antigos comandados se rebelariam e que ele voltaria nos braços do povo, Ou na garupa de um blindado das Forças Armadas, tanto faz.

Furou. Não sei se a ficha já caiu, mas o clã perdeu. E perdeu feio. Não só o sonho de um futuro de poder e imunidade desabou, como também estão chegando as cobranças de um passado delituoso. Com a condenação à inelegibilidade, o ex-presidente já levou a primeira pancada. Outras vêm por aí.

A Justiça do estado de São Paulo está tratando de cobrar as multas que os Bolsonaros acumularam por desprezar o uso da máscara no tempo da covid. Consolidada e atualizada, a conta do capitão chega a um milhão de reais. A do filho desordeiro é mais modesta: 130 mil reais. Os dois contestam naturalmente. Não sei se vão conseguir alguma clemência, imagino que não. Agora o capitão virou cidadão comum e o n°03, embora continue deputado, não tem mais pai presidente.

Acho excelente que a Justiça não tenha deixado pra lá. Acho melhor ainda que estejam insistindo na cobrança. E espero que levem o processo até o fim. Sei que os dois personagens estão escudados pela robusta fatia de fundo eleitoral que toca ao partido deles e imagino que, no fim da aventura, o boleto acabe sendo pago pelo próprio partido.

Assim mesmo, a cobrança é exemplar. Por um lado, serve para mostrar aos Bolsonaros que realmente perderam, e que mais vale se recolherem a sua insignificância. Por outro lado, serve de aviso para incautos que possam imaginar que um eventual momento de poder os blindará pelo resto da vida. É ilusão.

Mas – que fazer? – dizem que o ser humano é o único animal capaz de repetir os próprios erros.

Perdigotos e comorbidades

O Globo, 10 maio 2021

José Horta Manzano

É interessante observar como certas palavras dormem um sono de décadas no aconchego dos dicionários para um dia, de repente, despertar e entrar de supetão na linguagem do quotidiano.

De criança, aprendi o significado de perdigoto. Eu tinha um tio muito aplicado, daquelas pessoas que gostam de usar a palavra mais adequada a cada caso. Me ensinou que gente que “fala cuspindo” solta perdigotos. De lá pra cá, acho que nunca mais ouvi alguém pronunciar essa palavra. Mas ela ficou num cantinho da memória esses anos todos.

É bem mais recente o dia em que fui apresentado à palavra comorbidade. Fora de períodos de pandemia, ela está frequentemente ligada à saúde de quem já tem idade – ou que já “dobrou o Cabo da Boa Esperança”, como se dizia antigamente. Conheci essa palavra em francês. Por aqui se diz comorbidité, com uma sílaba extra depois do “bi”, numa excelente ilustração daquela pergunta: por que fazer simples, se complicado também funciona?

Curioso, resolvi fazer uma pesquisa sobre o uso da palavra comorbidade nos últimos cem anos. A Folha de SP oferece um bom instrumento para esse tipo de busca. Quando se está atrás de uma palavra, de um fato, de um nome, pode-se perscrutar todas as edições do jornal da fundação até hoje.

Fiquei sabendo que, de 1921 até 1992 (71 anos), não há nenhuma menção a essa palavra. Nada, niente, zerinho. Entre 1993 e 2019, talvez porque o jornal tenha começado a tratar temas mais especializados, ela aparece 50 vezes. Agora, nos nove meses que vão de janeiro a setembro de 2020, ano da pandemia, comorbidade foi mencionada 223 vezes. Não pesquisei perdigoto, mas imagino que o resultado deva ser equivalente.

Fiquei comovido com a história desse ator que morreu de covid aos 42 anos. Não o conhecia, não é do meu tempo. Mas percebo, pela torrente de reações, que devia ser muito apreciado. Certamente era talentoso.

Seu drama devia servir de alerta a nossa juventude que, talvez obedecendo ao temerário incentivo do capitão, desdenha os cuidados básicos para evitar apanhar o vírus. O caso Paulo Gustavo prova que um indivíduo jovem, enérgico, saudável e sem comorbidades pode contrair uma forma severa de covid, cuja evolução o levará ao túmulo.

Sabemos todos que a sociedade brasileira flutua num oceano de desigualdades. Mas poucos são os doentes que têm o privilégio de ser atendidos num hospital de primeira linha. Como é que funciona lá nos cafundós?

Tenho certeza de que há imensa subnotificação de casos de covid. Deve haver um batalhão de jovens que apanharam a doença e estão morrendo em casa, sem atendimento, sem entrar nas estatísticas. Dado que o que está longe dos olhos está longe do coração, não saberemos nunca quantos terão vivido esse drama.

Meu jovem leitor, não durma no ponto! O país não precisa de heróis anônimos, precisa do potencial de que você dispõe. Fique esperto e.. fique vivo!

Vamos torcer para que tanto comorbidade quanto perdigoto voltem logo para o agasalho dos dicionários. E que de lá não escapem tão cedo.