Morrer pela Groenlândia

Nuuk, capital da Groenlândia

José Horta Manzano

Ao pé das montanhas geladas da Groenlândia estão para ser delineados parâmetros para o convívio das nações neste 21° século. A depender do que aconteça nas próximas semanas e meses, o futuro da humanidade dará um tímido passo adiante ou regredirá dois séculos e sacramentará a vigência da lei do mais forte.

Passado o pesadelo da Segunda Guerra Mundial, a quase totalidade dos países se reuniram na recém-criada ONU para pôr ordem no tabuleiro e fixar regras que evitassem conflitos e guerras. Essas regras nem sempre foram respeitadas, mas permaneceram, por décadas, como balizas de como as coisas deveriam ser.

De lá pra cá, a integridade e a soberania nacional nem sempre foram respeitadas.

Em 1950, a China, por ordem de Mao, invadiu o Tibet que, após longo período de distúrbios, acabou anexado pelo invasor e se tornou parte integrante da República Popular.

Em 1979, foi a União Soviética a invadir o Afeganistão; Moscou só mandou retirar suas tropas depois de 9 anos de ocupação.

Os Estados Unidos, por seu lado, mantiveram a tradição de invadir ou intervir, por curtos períodos, em numerosos países; tirando a guerra do Vietnã, que durou doze anos, as outras intervenções foram mais breves, da Coreia à Líbia.

Ao ameaçar tomar posse da Groenlândia, Donald Trump eleva a novo patamar o desrespeito à soberania de países estrangeiros. A Otan, tratado de defesa mútua ligando EUA, Canadá e quase todos os países europeus, estipula que o ataque armado a um dos países signatários será considerado um ataque a todos os outros, que, por seu lado, se comprometem a defender o atacado.

O tratado não prevê a invasão de um país membro por tropas de outro país membro. Caso os EUA de Trump cumpram sua ameaça de tomar a Groenlândia pela força, não faz sentido pensar num confronto EUA x todos os demais países membros. Primeiro, por uma questão ética e segundo, porque a força militar americana é superior à de todos os signatários da Otan reunidos. Os europeus não estão dispostos a mandar sua juventude ao campo de batalha morrer pela Groenlândia.

A Dinamarca é a proprietária daquela imensidão gelada. Por mais que seja civilizada e rica, a Dinamarca é um país pequenino, do tamanho do estado do Rio de Janeiro, com 6 milhões de habitantes. Imagino que, se a proprietária da Groenlândia fosse o Reino Unido ou a França, países mais fortes que possuem a arma nuclear, Trump pensaria duas vezes antes de ameaçar tomar o território à força.

Estes dias, há muito movimento em torno do assunto. Um detalhe absurdo é de se notar: oito países da Otan estão mandando tropas para defender a Groenlândia de um ataque americano: Alemanha, Reino Unido, França, Suécia, Noruega, Finlândia, Holanda e Estônia. A Europa se defendendo de ataque militar americano! É surreal. São tropas reduzidas, de valor simbólico, mas demonstram a disposição dos europeus de não permitirem que Washington leve um pedaço de seu território.

Trump, que tem em mãos a força bruta, é imprevisível. Se ele decidir que quer porque quer levar a Groenlândia, ninguém poderá detê-lo. Se isso ocorrer, a conquista de território alheio pela força estará, daqui pra diante, autorizada.

Só nos resta apreciar a movimentação e torcer para que o pior não aconteça.

O fim da Pax Americana

by Maurenilson Freire, desenhista cearense-brasiliezse
via Correio Braziliense

José Horta Manzano

Artigo publicado no Correio Braziliense de 3 março 2025

A Pax Americana, que vigorava desde que o silêncio dos canhões anunciou o fim da Segunda Guerra, dá sinais de estar se esgotando. Num momento histórico como o atual, em que qualquer um pode afirmar, sem medo do ridículo, que Hitler era comunista, que o Tiradentes era gay ou que o papa é pedófilo, vai ficando claro que nada mais é como antes. Nosso mundo de confiança, acolhedor e reconfortante, vai se tornando um mundo de desconfiança, em que acordos de cavalheiros se tornaram vaga reminiscência histórica. Na atualidade, golpes baixos são assestados todos os dias pelas mais altas autoridades, restando às vítimas os olhos para chorar.

Faz apenas um mês que Donald Trump assumiu a Casa Branca. Nesse curto espaço de tempo, seu comportamento, reforçado pelo de J.D.Vance, seu vice-presidente, e pelo de Elon Musk, seu assessor especial, tem demonstrado que a solidariedade atlântica – base estável do que, até outro dia, se chamava Ocidente e que incluia a América do Norte e a Europa – está demolida, varrida, morta e enterrada. Em duas semanas, desmoronou e deixou de existir.

Pode-se até, sem forçar na caricatura, incluir a América Latina nesse falecido mundo atlântico. Excetuando-se uma ou outra erupção antiamericana aqui e ali, os países latino-americanos faziam parte desse mesmo universo. Relevem-se naturalmente “enfants terribles” tais como Cuba, Nicarágua, Venezuela.

Abrigada há 80 anos sob o guarda-chuva da proteção dos EUA, a Europa acorda assustada. A reviravolta é tão violenta e inesperada que chefes de Estado e de governo, parlamentares e outras autoridades parecem agitar-se, frenéticos, correndo de um lado para outro, tais formigas cujo formigueiro tivesse recebido vigoroso pontapé. Da noite para o dia, teme-se que os acordos consignados na Otan – tratado de defesa mútua assinado em 1949 entre EUA, Canadá, Turquia e 29 países europeus – tenham-se tornado subitamente letra morta.

Na guerra que se instalou em 2022 na sequência da invasão russa do território ucraniano, Trump já deixou claro seu apoio ao agressor, posição esdrúxula, que contraria o bom senso e o direito que os países livres e soberanos têm de defender o próprio território de ataques externos. Segundo Trump, Zelenski, o presidente da Ucrânia, que conta com 63% de aprovação de seu povo, não passa de um “ditador” que tem de mais é que se dobrar às imposições de Moscou. Da posição de Trump, os espanhóis diriam que é “un atropello a la razón”.

Trump não parou por aí. Foi além, saltou todas as linhas vermelhas e adotou ao pé da letra a posição de Moscou. Declarou, alto e bom som, que a Ucrânia terá o direito de aderir à União Europeia mas não à Otan. É exatamente o futuro da Ucrânia desejado por um Putin incomodado com a perspectiva de ter mais um membro da Otan à sua fronteira.

Zelenski, presidente da Ucrânia, mostrou prudentemente seu desacordo com as palavras de Trump. Já um indignado Emmanuel Macron, presidente da França, declarou que “Ninguém tem o direito de dizer que a Ucrânia não tem direito a entrar na União Europeia ou na Otan”. E embarcou para Washington a fim de repetir essas palavras a Trump, cara a cara. Como se vê, formigas desnorteadas se perguntam como é possível que lhes falte chão debaixo das patinhas.

Donald Trump, além de ser narcisista em alto grau, é dono de um ego desmesurado. Disso, o mundo já se deu conta. Outra faceta de sua personalidade, que vai se revelando com o passar dos dias, é a que o leva a não fazer distinção entre amigos e inimigos, aliados e adversários. A Europa é a maior aliada dos EUA, uma realidade de 80 anos, desde o fim da guerra. O desdém com que Trump tem tratado o aliado tradicional é estonteante.

Mas por que diabos o presidente americano está agindo assim? Louco, não é. Tem de ter em mente um plano, posto que seja inexequível. É plausível que, após analisar a atual situação geopolítica e considerado a inescapável ascensão da China, tenha decidido cindir o tabuleiro mundial em dois mundos, um capitaneado pelos EUA e o outro, pela China. Isso explica seu desejo de trazer a Rússia para seu campo, passando por cima da Europa – que considera favas contadas.

O plano até faria sentido, mas a forma estabanada como está sendo implantado pode pô-lo a perder. Se der certo, será a cortina de ferro ressuscitada, em outras coordenadas geográficas.

Cinco anos de adiamento

“Frexit”, o Brexit da França
Objetivo do programa da candidata Marine Le Pen

 

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense de 30 abril 2022

Na Europa, desde a derrota do nazi-fascismo, ao final da Segunda Guerra, as ideias da extrema direita foram guardadas em geladeira. Não é que tenham sido erradicadas, longe disso, que a capacidade do ser humano de armazenar baixos instintos é infinita. É que, durante as décadas seguintes, toda alusão a essas ideias trazia lembranças dolorosas a uma população que havia presenciado a guerra e seu cortejo de morte e miséria. Por longos anos, nada que pudesse trazer à memória bombardeios e privações teve lugar à mesa.

O tempo passou e a geração que havia assistido ao desastre provocado por ideias extremistas foi pouco a pouco desaparecendo. No entanto, mesmo com o rareamento de testemunhas oculares, a ressurgência do extremismo de direita continuou tímida: um ameaço de surto aqui, outro acolá, nada mais. Nem a débâcle da União Soviética e o abandono da doutrina comunista foram capazes de sacudir o torpor da direita extrema.

Desde sempre, ideias de retraimento, de fechamento sobre si mesmo, de defesa de uma hipotética pureza étnica, de cerceamento à livre circulação, de hermetismo diante da imigração circularam em surdina. Mas permaneceram subjacentes, como bomba à espera de um detonador. Um dia, sem que ninguém tivesse antecipado, surgiu o estopim. Veio personificado no dirigente do país mais poderoso do planeta. Chamava-se Donald Trump.

Os que votaram por sua reeleição devem julgar que foi bom presidente. Já os 7 milhões de votos de diferença com que Joe Biden o superou amortecem essa percepção. Na política externa, o homem fez estragos. Pirotecnia, como a que pôs em prática com o dirigente da Coreia do Norte, nem sempre é o melhor caminho para resolver problemas internacionais.

O pior legado de Trump foi sem dúvida sua adesão explícita à doutrina do fechamento sobre si mesmo, escancarada pela tentativa de construção de um muro de contenção na fronteira por onde entram os indesejados. Sua desenvoltura desinibiu movimentos subterrâneos ao redor do mundo, que criaram coragem para se expor à luz do meio-dia.

Dirigentes de figurino abertamente reacionário – como o italiano Salvini, o húngaro Orbán, o esloveno Jansa e o próprio Bolsonaro – não teriam se sentido tão à vontade para subir ao palco se Trump não lhes houvesse antes carpido o terreno. A expressão é batida, mas continua verdadeira: Trump abriu a caixa de Pandora. Os males lá trancafiados despertaram de um torpor de sete décadas.

Comparado com o de outros países da Europa, o sistema político francês é sui generis. Por um lado, o presidente da República, eleito pelo sufrágio popular direto, detém poder muito grande, herdeiro que é de um rei guilhotinado há dois séculos. Por outro lado, o voto distrital puro aliado a um bipartidarismo de facto tendem a dar ao presidente maioria no Parlamento, tornando-o (quase) tão poderoso como os reis do passado.

A campanha eleitoral francesa foi acompanhada com lupa pela União Europeia. De fato, caso a vitória fosse favorável à extrema direita de Marine Le Pen, a Europa, como a conhecemos, deixaria de existir. Embora a candidata extremista tenha suavizado o discurso e arredondado os ângulos de seu programa, mantinha a firme intenção de retirar seu país da Otan e da Europa. Mais que isso, tencionava pôr fim à livre circulação das gentes, restabelecer os controles nas fronteiras, abandonar o euro, ressuscitar o finado franco francês. E, para coroar, aproximar a França da Rússia e firmar pacto militar com Putin.

Se a União Europeia resistiu ao Brexit, não resistiria à saída da França – membro fundador, o maior em superfície, o segundo em economia, o único detentor de armamento nuclear. Para Vladímir Putin, uma vitória de Madame Le Pen seria notícia estupenda. Seria prenúncio do enfraquecimento e talvez do desmonte da União Europeia, sonho acalentado por Moscou. Seria um revés para Otan, organização que é pedra no sapato de Putin. Por fim, seria um sinal verde para candidatos a autocrata ao redor do globo, um dos quais aliás ocupa atualmente o Palácio do Planalto.

Desta vez, passou. Mas foi por pouco. O mundo democrático ganhou cinco anos de adiamento, a duração do novo mandato de Macron. Em 2027 voltamos a conversar. Se, daqui até lá, um conflito nuclear não tiver extinguido a humanidade.

Quem vai ganhar a guerra?

José Horta Manzano


Como diz o outro, fazer prognósticos é muito difícil, especialmente para o futuro.


Pra responder à pergunta “Quem vai ganhar a guerra?”, é preciso primeiro saber o que se entende por “ganhar a guerra”.

Rússia
Para a Rússia, ganhar a guerra consistiria numa anexação pura, em que a Ucrânia seria engolida inteira, crua, sem mastigar. A crer nas falas de Putin, a vitória seria coroada pela total ‘desnazificação’ do país – o que subentende a derrubada do governo atual e sua substituição por um governo vassalo. O ditador russo cometeu a afronta de afirmar que a Ucrânia não existe como país, que não passa de uma invenção de prancheta, que aquele território foi, é e sempre será russo.

Decorridos dois meses desde o início da invasão, vai ficando evidente que a Rússia não tem como atingir os objetivos fixados. Submeter e ocupar um país cabisbaixo e desarmado é uma coisa; vencer e se apossar de um país habitado por gente bem armada e disposta a defender seu solo palmo a palmo é outra coisa. Nem o analista mais pró-Putin consegue vislumbrar a bandeira russa ondulando no topo de todas as prefeituras do país.

Nesses termos, a Rússia, desde já, perdeu a guerra. Movimenta-se, agita-se, ameaça o mundo com guerra nuclear. Mas não passa de figuração – pelo menos, é o que se espera. É ponto pacífico que não atingirá os objetivos iniciais.

Ucrânia
Para a Ucrânia, a vitória seria a total expulsão do exército russo do território pátrio, incluindo Crimeia e Donbás. Seria a reconquista de todo o terreno que as tropas russas ocuparam nestes meses de guerra. Impossível não é, mas não será tarefa fácil. A Ucrânia tem drones, mas não tem mais aviação. Tem mísseis antitanque, mas não tem mísseis de longo alcance. Não dispõe de forças navais. Nesse particular, por mais que o Ocidente forneça armamento aos ucranianos, os meios da Rússia serão sempre superiores.

A Ucrânia está semidestruída. Suas cidades foram bombardeadas, aeroportos estão impraticáveis, pontes foram dinamitadas, edifícios, teatros e hospitais foram pulverizados, a infraestrutura foi seriamente danificada.

Nesses termos, pode-se dizer que também a Ucrânia, desde já, perdeu a guerra.

Conclusão
A fim de evitar uma longa guerra de posição, como não se via desde as trincheiras da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), as partes beligerantes terão de sentar-se ao redor de uma mesa e chegar a um acordo. Nenhum dos lados vai atingir seus objetivos. Mas não há outro jeito. Em seguida, cada dirigente poderá apresentar a seu povo a “narrativa” que lhe parecer mais conveniente.

A grande ganhadora deste conflito está a milhares de quilômetros do front. É a China, que, sem disparar um tiro, tem agora a Rússia a seus pés. Uma Rússia que precisa vender seu gás, seu petróleo e seu trigo. Uma Rússia que precisa importar insumos e peças tecnológicas. Pelos próximos anos, as normas do comércio exterior russo e, até certo ponto, da economia russa serão ditadas pela China.

No resultado final, a Rússia sai humilhada e diminuída. A Otan sai ressuscitada. Os EUA mostram quem é que dá as ordens no mundo ocidental. A União Europeia prova que, quando se sente ameaçada, tem capacidade para dar resposta rápida, unânime e enérgica. E a China, que ganha a Rússia como fornecedor e cliente preferencial, continua crescendo.

Le grand débat

José Horta Manzano

Nesta quarta-feira, os dois finalistas da eleição presidencial francesa se enfrentam no único debate televisivo a ser travado antes do segundo turno. Na França, o espaço entre o primeiro e o segundo turnos é de apenas 2 semanas. A votação final é domingo que vem.

Antes do primeiro turno, há alguns debates. No entanto, a grande quantidade de candidatos (12 ao total) transforma o ambiente em verdadeiro mercado persa. Todos falam e ninguém se entende. Aliás, o presidente Macron não quis participar de nenhum desses combates engalfinhados.

O debate organizado entre os dois turnos, unicamente com os dois finalistas, é um momento intenso na vida política do país. Entre 15 milhões e 20 milhões de eleitores devem escrutar com grande atenção o face a face entre o presidente Emmanuel Macron, candidato à reeleição, e Marine Le Pen, sua adversária de extrema-direita. Ninguém quer perder nem uma palavra.

O formato
O espetáculo tem duração de 150 minutos (2 horas e meia). A moderação é feita por dois apresentadores, um de cada um dos dois canais mais importantes do país. Até os dois campos chegarem a um consenso, diversos apresentadores foram descartados.

Os acertos prévios são negociados entre as equipes dos dois candidatos. Tudo é milimetrado e cada detalhe tem de ser aprovado pelas duas partes. Cada candidato vem com uma equipe de uma dúzia de pessoas. A quantidade de câmeras e o ângulo delas é discutido.

As duas equipes concordaram em regular a temperatura do estúdio em 19°C. A ordem dos temas é sorteada. É também a sorte que decide quem será o primeiro a falar. Cada equipe leva seu profissional experiente em direção de tevê, com a função de se instalar atrás do vidro e supervisionar as tomadas de cena. Nada é deixado ao acaso.

Não está provado que o debate defina o vencedor da eleição, mas, em anos como este, em que as sondagens preveem resultado apertado, todo cuidado é pouco. Um escorregão, um deslize, uma frase mal colocada, um gesto agressivo, um gaguejo, uma verdade aproximativa, uma gravata mal posicionada, uma maquiagem exagerada ou insuficiente podem ser fatais. O resultado das urnas será conhecido domingo às 20 horas em ponto.

Anti-europeísmo
Como muitos outros observadores, este blogueiro acredita que uma vitória de Madame Le Pen seria catastrófica para a Europa e, de tabela, para o resto do mundo. O nacionalismo da candidata é do tempo do Onça, cada país no seu canto, todos desconfiando de todos, todos com medo de todos. Seu anti-europeísmo é tão visceral que, se ela tomasse as rédeas da França, a Europa deixaria de existir tal como a conhecemos. Se isso acontecesse, os frágeis equilíbrios geopolíticos atuais estariam a perigo.

Não se sabe se essa senhora realmente acredita no que diz ou se procura apenas seduzir, com seu discurso populista, o maior número possível de descontentes. O fato é que ela defende valores anacrônicos, passadistas. Seu sonho final é ver a França fora da União Europeia. Ela não diz isso com todas as letras, mas as medidas que pretende tomar, se eleita, levam a esse desfecho.

Quer que a França abandone a moeda comum, o euro, e volte ao finado franco francês, uma absurdidade. Quer entravar a livre circulação dos cidadãos, uma conquista que levou décadas pra ser alcançada. Gostaria de ressuscitar fronteiras, cercar, murar, fechar, barrar, instalar postos alfandegários em torno do país. Outro de seus sonhos é implementar políticas de expulsão de estrangeiros. É bom lembrar que uma Europa sem a França vai ter dificuldade em seguir adiante, daí o abalo que o continente sentiria.

Putin sim, Bolsonaro não!
Madame é admiradora de Vladímir Putin. No passado, chegou a declarar que gostaria de ver a França fora da Otan, e aliada militarmente à Rússia – declaração que pega muito mal atualmente. É aliada do líder populista húngaro Viktor Orbán.

De Bolsonaro, porém, não quer ouvir falar; já declarou isso quando o capitão era ainda candidato à Presidência. Entrevistada naquela ocasião, Madame teve um raro momento de lucidez e desvencilhou-se da imagem de Bolsonaro. Quando lhe disseram que o então candidato à Presidência do Brasil era do mesmo campo político que ela, respondeu que não faz sentido etiquetar “de extrema direita” qualquer político que disser “coisas desagradáveis”.

Como se vê, a tradicional extrema direita não considera que o capitão faça parte de seu time. Já entenderam, lá atrás, que o homem é apenas rasteiro, oportunista, mal-educado e mal-intencionado. Muitas vezes quem está fora tem visão mais clara do que quem está dentro. Pra você ver.

São Benedito (Saint Benoît, em francês) é santo forte e não há de faltar. Nem a eles, nem a nós.

O mal que Bolsonaro nos faz

Em azul: países que condenaram a invasão russa
Em vermelho: países que aprovaram
Em amarelo: países que ficaram em cima do muro
Crédito infográfico: Le Temps, Genève

José Horta Manzano

A Guerra de Putin, como vem sendo apropriadamente descrita por vários órgãos de imprensa, tem feito efeito de um tsunami: repentino, violento, não deixa escapar ninguém, cada um se protege no lugar que escolhe. Há quem corra para o morro, mas há alguns que correm para a praia.

Coisas nunca vistas têm acontecido. Desde que Adolf Hitler invadiu metade da Europa, na virada dos anos 1930 para a década seguinte, nada de parecido tinha voltado a ocorrer.

Em 48 horas, a Alemanha encontrou saída legal que lhe permita enviar armas a zona de guerra – ato inconcebível até a semana passada.

Após pequena hesitação inicial, o Conselho Federal Suíço (o Executivo colegiado) decidiu arranhar a histórica neutralidade do país, em vigor desde o Congresso de Viena, de 1815. Essa brecha, que permitiu a Berna opor-se à Guerra de Putin e designar Moscou como agressor, deu base legal para a adesão total da Suíça às sanções aplicadas pela União Europeia.

Os países da União Europeia inteira, mais a Suíça, fecharam seu espaço aéreo para todo e qualquer avião russo. Aviões de carreira e jatinhos privados esbarram na mesma proibição.

A China, que, faz poucas semanas, tinha recebido Vladímir Putin com tapete vermelho e juras de amor, começa a tomar suas distâncias de Moscou. É sintomático da visão longa que os chineses têm do futuro. O que a Rússia está fazendo na Ucrânia é exatamente o que a China gostaria de fazer em Taiwan. No entanto, Pequim prefere esperar. Não gostaria de sofrer as duríssimas sanções aplicadas a Moscou. Taiwan fica para quando der.

A Finlândia e a Suécia, que sempre preferiram manter-se neutras e nunca aderiram à Otan, dão sinais de rever sua posição. Quer Putin goste ou não, a realidade atual na Ucrânia mostra que abrigar-se sob o guarda-chuva do Tratado do Atlântico Norte não é mau negócio. Não há que esquecer que a Rússia é vizinha de parede da Finlândia, com 1.340 km de fronteira terrestre, em terreno absolutamente plano. Com um Putin no trono, nunca se sabe.

A perspectiva de escassez de gás e de petróleo, matérias primas que a Rússia exporta em quantidade, está levando a Europa a reconsiderar rapidamente sua matriz energética. Em vez de depender da Rússia, os europeus terão de encontrar, da noite para o dia, outro fornecedor. A longo prazo, quem vai sentir os efeitos duradouros é a própria Rússia.

É de apostar que todos os países europeus, que tinham afrouxado seus investimentos militares desde a queda do Muro de Berlim, voltem a dedicar maior fatia do orçamento a despesas bélicas. É o rearmamento em marcha forçada.

Como se vê, que Putin anexe a Ucrânia ou que aquilo se transforme num atoleiro como o Vietnã, pouco importa. A loucura de Putin teve o condão de despertar um medo que todos imaginavam morto e enterrado há 30 anos. Durante todo o período da Guerra Fria, que durou 45 anos, o mundo ocidental cultivou o pavor dos russos. Agora, justamente quando todos começavam a esquecer e considerar a Rússia como um país normal e igual aos outros, catapum! Eis que a estupidez de um autocrata de visão limitada nos traz de volta um passado de pesadelo.

Desde já, a Rússia já está excluída do conjunto das nações civilizadas. E por décadas. E a Guerra de Putin, tenha ela o desenlace que tiver, terá dado um resultado positivo: pôs a Ucrânia no mapa. Um país obscuro, perdido nos confins das estepes, pobre, do qual ninguém sabia grande coisa, agora entrou para o time dos países europeus. E não é impossível que, dentro de algum tempo, seja aceito como membro da União Europeia. E até da Otan. Ou será otimismo demais?

Enquanto isso, o Planalto resiste. No infográfico que aparece na abertura, os países que condenaram a invasão russa aparecem em azul – coincidentemente, são os mais civilizados e avançados. Em vermelho, estão os que aprovam Moscou. Em amarelo, aparece a turma que ficou em cima do muro, incluindo o Brasil de Bolsonaro, naturalmente.

Repare que estamos em má companhia. Na América Latina, nossos companheiros são Cuba, Nicarágua e Bolívia. Em seguida, vêm a China, a Índia, o sudeste asiático, o Irã, as autocracias petroleiras árabes e a África praticamente inteira.

Como dizia um antigo chanceler do capitão, o Brasil tem orgulho de ser pária. Bolsonaro segue o ensinamento à risca.

Ucranização do Brasil

José Horta Manzano


Bem depois do triste 7 de setembro, fanáticos de extrema-direita continuaram acampados por bom tempo em Brasília. A ideia fixa deles é a de sempre: preparar uma “faxina geral para pôr fim à corja maldita da República”. Na visão dessa gente, a “corja maldita” está integrada pelos magistrados do STF e pelos parlamentares eleitos pelo povo. Em resumo, “malditos” são todos os que não dizem amém aos caprichos do capitão.

Quando acampados, usaram várias vezes a expressão “vamos ucranizar o Brasil!”. Essa gente feroz gosta de utilizar esse mote. Como diria minha avó, ouviram cantar o galo, mas não sabem onde é a missa. Típicos representantes de uma geração que não lê nem aprende, contentam-se com as duas primeiras linhas de um tuíte qualquer, sem buscar saber os comos e os porquês das coisas. Deve ter sido assim que aprenderam a repetir essa bobagem. Ou então, pior ainda, sabem o que aconteceu por lá, mas omitem o fim da novela, pra ficar mais bonito. Isso já é pesada desonestidade intelectual – o que não é espantoso vindo de quem vem.

“Ucranizar o Brasil” é expressão pra lá de inapropriada. Sofrer o mesmo destino da Ucrânia é desgraça que ninguém – repito, ninguém, nem os mais incendiários – desejam para o próprio país. Sem ter a pretensão de escrever um tratado sobre os problemas da Ucrânia, dou abaixo algumas pinceladas, para o caso de alguém estar interessado em conhecer ou recordar.


Após a queda do Muro de Berlim (1989) e a desintegração da União Soviética, que veio pouco depois, a vontade maior dos povos que orbitavam em volta do império russo era livrar-se definitivamente do perigo de, um dia, ser de novo aspirados e tragados pelo temível vizinho.

As repúblicas ex-soviéticas situadas na Ásia não tiveram escolha. Afastar-se da Rússia significava jogar-se nos braços da China ou da Índia, os grandes vizinhos mais próximos. Não era bom negócio. Sem escolha, continuam até hoje na órbita do Grande Irmão.

Já as repúblicas situadas em solo europeu – tanto as que integravam a União Soviética (Ucrânia, Bielorrússia), quanto as que giravam em torno como satélites (Polônia, Hungria e as demais) – tinham um sonho comum: aderir à União Europeia. Naquele momento em que o equilíbio mundial estava se rompendo, a Guerra Fria ainda estava presente em todas as mentes. O objetivo dos povos que haviam vivido sob a pesada influência da Rússia soviética era ser acolhido e amparado por um braço forte que os protegesse do antigo papão.

Um a um, sob o olhar desacorçoado de uma Rússia impotente, os antigos satélites da União Soviética solicitaram o bilhete de entrada na União Europeia. Em 2004, de uma tacada só, 8 antigos afilhados de Moscou foram oficialmente aceitos na UE. Mas Putin já tinha tomado as rédeas do país, com a firme intenção de reerguer o império. Graças a ele, mesmo sem recobrar o status da antiga URSS, o país voltou a figurar entre os grandes. Manteve seu posto de segunda potência nuclear do planeta, atrás dos EUA e muitíssimo à frente da China, com diversas bases militares no estrangeiro.

Com uma Rússia fortalecida, a ilusão de aderir à UE foi ficando distante para a Ucrânia. É enorme a dependência de Kiev com relação a Moscou. Para os russos, a Ucrânia é o berço da civilização deles, uma joia que não se pode entregar a estrangeiros de jeito nenhum. A língua ucraniana é uma variante do russo, o que reforça os laços. Para Putin, seria inadmissível ter às portas de seu país uma Ucrânia integrada na UE, quiçá com tropas da Otan(*) estacionadas na fronteira.

Durante o inverno gelado 2013-2014, o povo ucraniano se rebelou contra a decisão tomada por seu governo, que desistiu de assinar um acordo com a UE e preferiu reforçar os laços com o Grande Irmão russo. As manifestações de protesto se estenderam por 3 meses, ao final dos quais o presidente ucraniano, grande amigo de Moscou, foi destituído.

Mas o povo obteve uma vitória de Pirro – vistosa mas de consequências contrárias ao que desejavam. A partir da destituição do presidente ucraniano, a Rússia apertou o torniquete. Cortou o gás, mercadoria vital em pleno inverno, sem a qual a população perigava morrer de frio. Suspendeu trocas comerciais. O resultado é que a Ucrânia teve de entregar os pontos. Acabou deixando pra lá o objetivo anterior, que era de candidatar-se a uma vaga na União Europeia.

E agora vem a parte que os devotos bolsonaristas não contam. Desconhecem por ignorância? Escondem por malandragem? É difícil saber. O fato é que a consequência principal do levante popular de 2014, que os fanáticos do capitão chamam de “ucranização”, é a guerra civil que se instalou no país e que não acabou até hoje.

As províncias do leste da Ucrânia são culturalmente muito próximas da Rússia, a ponto de a maioria de seus habitantes se considerar mais russa do que ucraniana. Com as províncias do oeste, acontece o inverso. E daí? Daí, o país se dividiu em dois. O governo de Kiev controla a parte oeste do país. Quanto às províncias orientais, é tudo mais ou menos. Ninguém sabe direito quem manda. Na região do Donbass (capital: Donetsk), é pior ainda. Ali grassa uma guerra civil. Tanques passeiam pelas ruas. As estradas têm bloqueios, e não passa quem quer. Virou terra de ninguém: teoricamente ucraniana, mas russa de facto. Com os espíritos exaltados pelo nacionalismo exacerbado, ninguém está disposto a ouvir as razões do adversário, muito menos abandonar a língua materna. Embora se pareçam muito, o russo e o ucraniano são línguas diferentes. Para nós, podem ser muito parecidas, mas para eles a língua materna é o marcador da nacionalidade. Ninguém está disposto a abandonar seu falar em favor da outra variante. Portanto, não há solução à vista.

O único remédio – que é provavelmente o que vai acabar ocorrendo – é a partição oficial do país, com entrega à Rússia da parte onde a população se sente mais russa que ucraniana. Em resumo, o país está para sempre fraturado – com fratura exposta. É realmente isso que os fanáticos do capitão gostariam que ocorresse entre nós? A “ucranização do Brasil”?

(*) A Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) é um pacto militar capitaneado pelos EUA, do qual fazem parte quase todos os países europeus.