La donna è mobile

José Horta Manzano

Mulher é volúvel. Como pluma que esvoaça sem rumo, ela muda de ideia e altera o jeito de falar. Seja quando chora, seja quando ri, mostra sempre um rosto gracioso mas enganador. Pobre de quem confia nela, pobre daquele que, ingênuo, lhe confia o coração.

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Parágrafo terrível, não? Não é de mim, vou-lhes garantindo logo de cara. É a tradução, em prosa, dos versos de uma das árias mais conhecidas da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi (1813-1901).

Acredito que Signor Verdi não tenha muito que ver com as palavras que, na verdade, saíram da pluma do escritor Francesco Maria Piave (1810-1876). Embora tivesse facilidade para exprimir-se em prosa e verso, o veneziano Piave era especialista em construir libretos ‒ textos específicos para ópera.

Libretto 1Suas numerosas obras foram musicadas por compositores do quilate de um Saverio Mercadante ou de um Giovanni Pacini. Mas o maior de seus “clientes” foi, sem dúvida, Giuseppe Verdi. Foram parceiros não só na Traviata, mas também no Rigoletto, Simon Boccanegra, Macbeth, La forza del destino, para citar só as mais conhecidas.

Os tempos eram outros. Imagine o distinto leitor se um autor ousasse, nos dias atuais, publicar um texto como o que encabeça este post. Arriscaria processo pesado. Seguem, logo abaixo, os versos originais. Quem quiser recordar a ultraconhecida melodia pode procurar pela gravação do excelente tenor mexicano Ricardo Villazón.

  La donna è mobile
  Qual piuma al vento,
  muta d’accento
  e di pensiero.

  Sempre un amabile,
  leggiadro viso,
  in pianto o in riso,
  è menzognero.

  La donna è mobil’.
  Qual piuma al vento,
  muta d’accento
  e di pensier’!

  È sempre misero
  chi a lei s’affida,
  chi le confida
  mal cauto il cuore!