Ciência, devotos e rebotalho

José Horta Manzano

93%
Esse é o percentual da verba cortada pelo governo de Jair Bolsonaro para gastos com estudos e projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas nos três primeiros anos da sua gestão – a comparação é com os três anos imediatamente anteriores.

Dados levantados pela BBC News Brasil mostram que, nos três anos anteriores (2016 a 2018), os investimentos nessa área foram de R$ 31,1 milhões. Ja na gestão Bolsonaro (2019-2021), foram R$ 2,1 milhões.
A notícia é do portal G1

Os devotos
Como provam os números levantados pela BBC, temos um presidente que, enquanto suborna parlamentares, foge da ciência. E atrás dele, vai a corte obediente, exatamente como nos tempos do “Ancien Régime”. De fato, quando o rei Luís XV se deslocava de Paris a Versailles, por exemplo, toda a corte ia junto – centenas de pessoas, com armas e bagagens. Todos diziam amém ao rei, pois dele dependiam.

Quando menciono os “devotos” de Bolsonaro, que nada mais são que a versão 4.0 da corte dos Luíses, não me refiro unicamente aos que se enrolam na bandeira para aclamar o “mito”. Incluo os personagens que têm mais destaque na vida nacional. São todos aqueles que, por ideologia ou interesses variados, fazem parte dos “agregados” do clã presidencial expandido: militares palacianos, parlamentares bolsonaristas, ministros de ocasião, blogueiros remunerados, e tanta gente mais.

A bandeira
Essa história de aparecer em passeatas e manifestações enrolado na bandeira brasileira não é costume habitual em outras partes do mundo. Bandeira foi feita para ondular ao vento, solta, livre, altaneira, desprendida de agarras humanas.

Esses que adquiriram o bizarro hábito de se enrolar nela, como se manipulassem um trapo ou um cobertor, deveriam saber que, se fizessem esse gesto nos tempos da ditadura militar (cuja volta eles reclamam ingenuamente), iriam direto para a prisão.

Os militares eram – imagino que ainda sejam – ciosos do bom uso dos símbolos nacionais. A execução do hino e a exposição da bandeira e do brasão de armas eram objeto de regras precisas e minuciosas. A cadência (velocidade) de execução do hino é normatizada, assim como a tonalidade (fá maior).

Querem um exemplo das limitações da exposição da bandeira? Nos anos 1960, surgiu um movimento global de liberação dos costumes. Muitas proibições caíram. Na Grã-Bretanha, popularizou-se o uso de roupa com o desenho estilizado da bandeira. Não me consta que isso tenha causado escândalo. Já no Brasil daqueles anos, ninguém ousaria estampar bandeira na camiseta. Sair à rua enrolado no pavilhão nacional dava cadeia. Direto.

Para entrar em conformidade com o regulamento, os que apreciam sair às ruas enrolados em bandeira deveriam abandonar o pavilhão nacional e criar um uniforme qualquer que os distinguisse. Sugiro um retalho de tecido tamanho bandeira – de flanela no inverno, de algodão no verão.

A cor tanto faz, mas é indispensável que haja um imenso B desenhado atrás. O B, é claro, se refere a Bolsonaro. Para os mais exaltados, pode até lembrar o nome de nosso país (sem ferir as regrar que proíbem o uso da bandeira como peça de vestuário). E pode ainda, para os não-devotos, evocar a letra inicial da palavra que designa o excremento dos bovinos. Deixa a todos sorridentes. Não é uma maravilha?

Rebotalho
Há uma emissora paulista de rádio, antiga, tradicional, que chegou a ter certa importância. Um dia, por razões que ignoro (embora desconfie), tornou-se abertamente bolsonarista, daquelas que preferem fechar os olhos para todos os horrores da administração atual, como se não existissem. Agem como blogueiros de aluguel.

Essa empresa acaba de contratar, como comentarista, o doutor Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente refugado alguns meses atrás. Salles caiu por ter sido acusado de estar acumpliciado com contrabandistas de madeira extraída ilegalmente da Amazônia.

Depois que ele saiu de cena, não se ouviu mais falar do andamento do respectivo processo penal. Talvez agora, com sua volta aos holofotes, alguém se lembre de desenterrar o assunto. (Se é que a dita estação de rádio ainda conta com alguma audiência além dos devotos do capitão.)

País anfitrião

José Horta Manzano

Sobre as cinzas da Segunda Guerra Mundial, pairava uma certeza: guerras dificilmente têm final feliz. O saldo do conflito tinha sido de dezenas de milhões de mortos, sem contar feridos e desabrigados que perambulavam sem rumo. Todos tinham perdido. Além disso, nenhum dos objetivos tinha sido alcançado. Os participantes saíram da guerra mais pobres do que tinham entrado.

Diante de constatação tão amarga, ressurgiu a ideia de instalar uma organização que congregasse os países do mundo inteiro, um parlamento onde todos pudessem dialogar antes de dar voz ao canhão. Foi dessa necessidade ressentida por todos que nasceu a ideia das Nações Unidas.

Ficou acertado que a sede principal se construiria em Nova York. Aproveitando o palácio construído nos anos 1920 para sediar a falecida Sociedade das Nações, a cidade de Genebra (Suíça) foi designada como sede europeia da ONU. Desde 1945, a cidade é sede secundária da organização.

Embora seja a sede europeia da ONU e de mais uma trintena de agências internacionais, a Suíça não solicitou adesão à organização. A população do país não julgou fosse importante associar-se. Foi somente em 2002, quando a ONU já completava 57 anos de existência, que o povo suíço, por meio de plebiscito, aprovou a adesão do país.

A ONU e as agências internacionais respondem por cerca de 10 mil empregos diretos em Genebra ‒ sem contar as recaídas indiretas. É inestimável fonte de riqueza para a cidade. Faz funcionar o comércio, os serviços, o aeroporto, o mercado imobiliário, hotéis, restaurantes, táxis, escolas. A lista dos benfeitos é longa.

Já em Brasília, para certos luminares, a ideologia partidária fala mais alto que os interesses do Estado brasileiro. Semana passada, nossas autoridades fizeram saber que o Brasil renuncia a acolher a COP 25, conferência internacional sobre mudança climática prevista para 2019.

No câmbio oficial, restrições orçamentárias são o pretexto. No paralelo, está o cepticismo de algumas de nossas autoridades quanto aos efeitos das alterações do clima. Que me relevem a crueza de propósitos: é burrice pura. Acolher a conferência não é sinônimo de subscrever a suas conclusões. Se a Suíça pôde acolher a sede da ONU por 57 anos sem ser membro, por que não poderia o Brasil receber a COP por alguns dias sem tirar carteirinha de membro?

São tolos. Estão desperdiçando excelente ocasião para mostrar ao mundo que o Brasil mudou, que a ideologia já não dirige nossos negócios, que temos capacidade de organizar eventos internacionais, enfim, que amadurecemos. Mas… será que amadurecemos?

Segredos alpinos

José Horta Manzano

Numa pirueta de linguagem, os que vivem em altitudes elevadas dizem que não é a montanha que mata, mas as pessoas é que morrem na montanha. Seja como for, alta montanha é lugar perigoso. Solidão, frio, avalanches, queda de pedras, desprendimento de blocos de gelo, bruscas mudanças atmosféricas não facilitam a vida. Ninguém está blindado contra um acidente.

Em 1942, o feriado religioso do 15 de agosto caiu num sábado. Um casal de aldeães do vilarejo de Savièse (Suíça) resolveu aproveitar o tempo ensolarado para passar o dia com amigos que, como faziam cada ano, haviam levado um rebanho de vacas para passar o verão num pasto alpino. A caminhada era longa, mas o tempo estava convidativo.

O lugar era pobre e o casal, gente simples. Ela era professora primária e ele fazia de tudo um pouco: pequeno agricultor, carpinteiro, sapateiro. Gente muito querida na aldeia. Logo depois da missa, despediram-se dos sete filhos pequenos, apanharam provisões para o almoço e partiram. Avisaram que tencionavam estar de volta à noitinha. Caso se sentissem muito cansados, passariam a noite num abrigo de montanha mas retornariam no dia seguinte.

Com fé e disposição, saíram a pé. No meio do longo caminho, estava uma geleira(1). Aquelas extensões de neve endurecida podem sair lindas em cartão postal, mas escondem perigo grande. No gelo duro e eterno, acumulado durante anos, abrem-se fendas largas e profundas como crateras. A neve do mais recente inverno recobre a superfície, fazendo que o caminhante não se dê conta de que há um buraco debaixo dos pés. O que tinha de acontecer aconteceu: o casal caiu numa greta profunda.

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No domingo, ao não os ver de volta, os aldeães imaginaram o pior. Assim mesmo, organizaram uma expedição para explorar a geleira e tentar encontrar os caminhantes sumidos. Depois de dois ou três dias de busca, foram obrigados a aceitar a realidade: os viajantes não voltariam mais. Os sete pequeninos órfãos ‒ a mais velha tinha onze anos ‒ foram distribuídos entre os vizinhos. A única coisa que sobrou do casal desaparecido foram duas ou três fotos, mais nada. Passaram-se as décadas.

As mudanças climáticas destes últimos tempos têm provocado estragos em muitos lugares. A elevação da temperatura média tem ocasionado recuo das geleiras e derretimento mais pronunciado da superfície. Faz duas semanas, um passante notou um objeto escuro pousado sobre o gelo. Imaginou que fosse uma pedra. Ao olhar mais de perto, deu-se conta de que se tratava de pertences humanos de aparência antiga. Acionou a polícia especializada em buscas de alta montanha. Constataram que se tratava de dois corpos mumificados, o de um homem e o de uma mulher.

Feitos os testes ADN(2), toda dúvida se dissipou. Tratava-se realmente do casal que desaparecera 75 anos antes. Avisados, os descendentes não se sentiram tristes, mas aliviados. Terminadas as incertezas, era chegado o momento de dar sepultura digna aos antepassados. Alguns dos filhos ainda vivem, entre eles a mais velha, hoje com 86 anos. Neste último sábado, realizou-se a cerimônia fúnebre do casal, com a presença de filhos, netos e bisnetos. Foram enterrados na aldeia de onde tinham saído numa manhã ensolarada.

As geleiras ainda guardam segredos. O derretimento destes últimos anos favorece o reaparecimento de desaparecidos. Assim mesmo, estima-se que só no Cantão suíço do Valais ainda haja despojos de 180 viajores sumidos.

(1) Geleira (ou glaciar) é acidente geográfico ausente da paisagem brasileira. Consiste numa massa de gelo formada pela neve acumulada por muitos séculos. A tepidez do verão não é suficiente para derreter a neve caída no inverno. Quando volta a estação fria, a neve superficial, de consistência meio mole, endurece e se solda às camadas inferiores. E assim por diante, neve, ligeiro derretimento, mais neve, num ciclo sem fim.

(2) ADN é o Ácido DeoxiriboNuclêico, curiosamente conhecido no Brasil pela sigla inglesa DNA.