A bordoada

José Horta Manzano

A soberania nacional não se mede apenas pelo controle das próprias fronteiras, mas também pela capacidade de um Estado de fazer valer sua autoridade interna sem interferência externa. Quando se trata de comércio internacional, por exemplo, cada país estabelece suas próprias regras tarifárias. O imposto de importação é um instrumento legítimo de política econômica, ajustado conforme os interesses nacionais. Trata-se, portanto, de um campo soberano e consensualmente reconhecido na diplomacia global.

Bem diferente é o caso de leis com pretensões extraterritoriais, como a chamada Lei Magnitsky, praticamente desconhecida até poucos dias atrás. Criada nos Estados Unidos como resposta a casos de corrupção e violações de direitos humanos em outros países, essa legislação confere ao Executivo norte-americano o poder de sancionar estrangeiros – indivíduos que, vale frisar, não vivem sob sua jurisdição. Em tese, seu uso já suscita questionamentos quanto ao respeito às normas do direito internacional. No caso concreto que nos atinge, a aplicação dessa lei a um ministro da mais alta Corte do Brasil é uma bordoada que ultrapassa todas as fronteiras da razoabilidade.

O que vimos foi um ataque frontal à soberania brasileira. Não se trata de uma crítica isolada a um magistrado, por mais influente que seja. O que se tem é uma tentativa de deslegitimação institucional – um gesto que, por sua gravidade, ecoa momentos históricos de verdadeira afronta à dignidade nacional. Não é exagero lembrar que, desde os tempos em que o ditador Solano López invadiu nosso território, dando início à Guerra do Paraguai, o Brasil não era alvo de uma ação externa tão agressiva e humilhante.

No pacote em que nos foi entregue essa sanção, vieram também o escárnio contra nosso sistema de justiça, o desdém pela separação de Poderes e um desprezo mal disfarçado pela ordem jurídica brasileira – que, em muitos aspectos, é mais avançada que a dos Estados Unidos. É irônico, por exemplo, recebermos sanções morais e jurídicas provenientes de um país que ainda mantém em vigor a medieval pena de morte, resquício de um tempo em que o castigo físico substituía o Direito.

Diante desse cenário, surgiram sugestões de que o próprio ministro atingido – ou mesmo o Supremo Tribunal Federal, como instituição – deveria reagir formalmente, em nome da própria honra. Essas propostas, embora bem-intencionadas, carecem de ponderação estratégica. Reagir diretamente pode parecer defesa pessoal ou, pior, tornar o episódio um embate entre magistrados e governos, o que só aumentaria o desequilíbrio do gesto original. A serenidade que se espera de um tribunal deve prevalecer mesmo diante da provocação. O silêncio, neste caso, não seria omissão, mas expressão de compostura.

A resposta, se houver, deve vir do lugar institucionalmente competente: o Poder Executivo. É o presidente da República, como representante legítimo do povo brasileiro, quem deve se posicionar diante dessa afronta à Nação. Não se trata de solidariedade a um indivíduo, mas de um dever de Estado: defender a autoridade e a dignidade das instituições do país perante o mundo.

É pouco provável que uma nota diplomática mude a política externa dos Estados Unidos. Mas há ocasiões em que o gesto, mais do que o efeito prático, carrega uma lição. Um país menos poderoso pode, sim, ensinar civilidade ao mais forte.

Às vezes, um pito bem dado dói mais que um cascudo.

“Terapias de conversão”

José Horta Manzano

Talvez eu esteja enganado, mas acredito que, no Brasil, o Código Penal ainda não prevê artigo específico para o crime de forçar um indivíduo a mudar sua orientação sexual. Estou me referindo a supostos “terapeutas”, que agem geralmente no universo neopentecostal – mas não só.

Em primeira leitura, a Assembleia Nacional da França adotou nesta terça-feira 5 de outubro um projeto de lei que oficializa a proibição de pseudoterapias “de conversão”, esse tipo de prática que visa a impor a heterosexualidade a pessoas lésbicas, gays, bi e trans (LGBT).

Os parlamentares franceses aprovaram o texto por unanimidade, mostrando que a questão está acima de toda política partidária ou eleitoreira. Foi um desses raros momentos em que uma proposta conseguiu a façanha de unir todo o tabuleiro político, todos integralmente de acordo. É admirável.

Votado em primeira leitura na Assembleia, o texto está sendo agora encaminhado ao Senado. O Código Penal passará a contar com uma infração específica para o crime cometido por autodenominados “terapeutas” que pretendem “curar” os homossexuais e trazê-los de volta ao bom caminho. A pena para os contraventores será de dois anos de prisão, cumulados com multa 30 mil euros (cerca de 200 mil reais).

A classe política francesa se dá as mãos quando percebe alguma ameaça de o país deslizar para o terreno pantanoso em que política e crenças religiosas se misturam. Não pretendem deixar que o país se torne uma teocracia. Nem mesmo uma quase-teocracia, como há tantas pelo mundo.

No Brasil, nem o povo nem os políticos parecem se dar conta desse tremendo perigo. A existência de uma “bancada evangélica” no Parlamento não assusta ninguém. No entanto, deveria assustar. É um primeiro passo para a transformação de nossa República laica em Estado religioso.

Com o capitão que ocupa a Presidência, nossa mistura de política com crenças religiosas está sendo potencializada com fortes doses de ignorância. Neste momento, o risco de escorregarmos para uma semiteocracia está elevado ao quadrado.

Impressão e expressão

José Horta Manzano

Escrita 3O jornal finlandês Savon Sanomat informa que o presente ano escolar é o último em que as crianças estão aprendendo a escrever à mão. Nos anos 50, a esferográfica baniu caneta, tinteiro e mata-borrão. Na Finlândia, a partir do ano escolar 2015-2016, esferográficas seguirão o mesmo destino: serão despachadas para o museu. A partir de então, os pequeninos serão alfabetizados diretamente num teclado.

Daqui a poucos anos, todos dominarão, desde tenra idade, a arte de se exprimir por meio de teclas. A escrita manual, condenada à obsolescência, será olhada com a curiosidade que hoje reservamos para manuscritos medievais. Num futuro não longínquo, só especialistas em paleomanugrafia (ciência nova, que acabo de inventar) serão capazes de decifrar os manuscritos atuais que se salvarem do incêndio.

Máquina de escrever 1Dá uma sensação esquisita, não dá não? Pensar que uma técnica cuja aquisição nos custou tanto esforço está em via de extinção. Na escola regular, tínhamos aula de caligrafia, mas nunca tivemos datilografia – não fazia parte do currículo. Quem quisesse aprender a bater à maquina, como se dizia, que se inscrevesse numa escola particular. Foi o que fiz. Foi no tempo em que os bichos ainda falavam. Aprendi numa velha Remington, preta, pesada e barulhenta. Recebi um diploma que guardo até hoje com muito orgulho.

A meu ver, a abolição da escrita manual é drástica e prematura. O ato de escrever educa a mão, disciplina-lhe os movimentos, prepara incursões no universo da pintura, do desenho, da música.

Na escola, costumávamos aprender latim, língua já então extinta – sim, senhores, não minto! – havia dois mil anos. E isso não fez mal a nenhum de nós, pelo contrário: deu-nos a chave para descobrir a árvore genealógica da maioria de nossas palavras. Um enriquecimento.

Escrita 2Privados do aprendizado da língua mãe, jovens de hoje não se podem dar conta de que conceitos aparentemente diferentes como expressão, impressão, opressão, depressão, compressão, repressão são irmãos de pai e mãe, saídos do mesmo tronco. É pena, porque essa noção da interligação das palavras é útil para desenvolver espírito analítico.

Escrita 1Ah, tem mais! A escrita manual é pessoal, única, identificável entre mil. É impossível encontrar duas escritas idênticas. Ao escrever à mão, cada um se revela. A grafologia permite conhecer particularidades da personalidade ignoradas, às vezes, até pelo próprio analisando. Já a escrita por teclado é pasteurizada, padronizada, insípida e despersonalizada.

Espero que nossos governantes, que às vezes adotam medidas educacionais pra lá de estranhas, não se joguem de cabeça nessa moda. Há que refletir muito nas consequências das decisões que tomamos. Criança que anda cedo demais periga ficar com as pernas tortas.